Prensa a espada, ferreiro
Afie a lâmina
Corte a carne
Sirva-me.
Estou faminto!
O Rei Callaz assistia a outro teste para pilotos quando a Horda atravessou o céu e atacou o castelo dos Hollerbach. Não era preciso muito para saber o que estava acontecendo, uma vez que a pressão do próprio ar se tornara mais espessa e sufocante quando tantos seres com Essência Sombria chegam ao Nirvana.
E novamente, Callaz sentiu que o momento havia chegado para testar seu coração furioso.
Hagane iria a uma guerra, defender o próprio solo e os próprios costumes.
─Preparem as máquinas ─ele ordenou tranquilamente, apesar do arrepio gélido que lhe subia pela espinha. ─Partam e protejam a passagem da Grande Cordilheira.
─Senhor? ─um soldado perguntou, boquiaberto. ─Partir para a passagem?
─Os demônios virão a nós porque sabem que estamos esperando por eles. ─ele retrucou, firme. ─Vamos então esperá-los com o melhor que tivermos e mostrar a eles que Hagane não se curva.
O soldado não entendia, mas sabia muito bem que deveria acatar a ordem de seu Rei. Ele entenderia depois, quando visse Milla Fong e suas tropas aproximarem-se pelas planícies de Rasen, dois dias depois, e tremeria de medo.
─Façam com que todos saibam que o aço não se parte antes de cortá-los! ─o Rei gritou, enquanto o soldado corria para dentro. Da sacada onde estava, Callaz observava o vazio do céu onde antes estrelas brilhavam. Agora, existia apenas um buraco escuro, pois era isso que a passagem de Iowa para o Nirvana fazia. Criava um buraco negro.
Um Deserto Escuro.
Depois que o soldado partiu, Callaz deixou os soldados que faziam seus testes nas máquinas e desceu as escadarias do palácio sozinho. Caminhou pelos corredores e adentrou portas metálicas pesadas protegidas pelo que chamavam de Paladinos; soldados que vestiam armaduras incríveis que drenavam sua Essência e a do ambiente e a convertia em uma energia incrível. Demorou algum tempo até que essas armaduras funcionassem corretamente (entenda, sem matar os soldados que as vestiam.), mas agora tudo corria de acordo com o esperado.
Se coisas assim já existissem na época da Grande Guerra o próprio Callaz teria visto o Imperador Vermelho cair diante de suas tropas.
No subterrâneo de seu castelo o Rei contava com um laboratório espetacular. As instalações continham todo tipo de parafernália “gnômica”; de tubos de ensaio onde a Essência parecia ferver feito água, a armaduras imensas que serviam perfeitamente para vestir um Robô-Guerrilheiro. Ainda havia por todos os lados armas, algumas já completamente projetadas, outras em fase teste, e também soldados que passavam por exames de coleta de sangue, urina e Essência. Os Klein trabalhavam a todo vapor formulando novas teorias e realizando testes (alguns deles perigosos demais para que alguém de fora seja informado), descobrindo e redescobrindo coisas que até eu mesmo diria serem absurdas de se conceber.
Rei Callaz adentrou ao laboratório e ignorou todos os cumprimentos polidos e perguntas ansiosas que recebera, encaminhando-se diretamente a um Klein específico. A figura baixa e de jaleco branco comprido, com os cabelos verdes arrepiados e que se estendiam pelas costas abaixo era engraçada de se admirar, mas não para um Rei ansioso pelos resultados daquelas pesquisas. Para Callaz, a única gargalhada que pretendia soltar seria quando Hagane esmagasse qualquer inimigo que ousasse se erguer.
─Majestade! ─o Klein cumprimentou, sorrindo seu riso de criança. Se não fosse a barba que crescia em seu queixo, provavelmente seria mesmo tomado como uma criança. ─É um prazer encontrá-lo mais uma vez!
─Poupe disso, Kurochin ─ele retrucou, amargo. ─Sabe muito bem que não venho aqui para ser agradável e nem espero que o senhor o seja.
─Eu compreendo, meu senhor ─Kurochin disse, ainda sem perder o sorriso sincero. ─O senhor só vem aqui por uma única razão.
─Se é assim, conte-me o que quero saber.
Kurochin sorriu ainda mais, mesmo parecendo impossível que aquele pequeno ser pudesse abrir um sorriso ainda maior.
─Pois bem! O senhor deseja saber alguma novidade sobre o projeto! Venha comigo!
Os dois puseram-se a andar. O Gnomo era realmente uma figura pequena e, trajando aquele jaleco branco, de fato bastante cômica. Ele media apenas 90 centímetros e caminhava como que saltitando. Se ele segurasse uma flauta ou um pequeno bandolim, poderia muito bem ser tratado como um dos lendários Saltimbancos de Licht.
Mas não existiam mais Saltimbancos, pois o Imperador Vermelho matou há todos os tempos atrás.
─O senhor ficará realmente satisfeito, meu Rei! ─Kurochin falava, andando alguns passos a frente de Callaz. ─As coisas estão ficando impressionantes agora!
─E o quê você conseguiu de tão impressionante agora?
Kurochin o olhou, agora caminhando de costas. Os seus grandes olhos verde-esmeralda raiavam maravilhosamente.
─A Essência está despertando, senhor!
Rei Callaz não manifestou reação. O Gnomo interpretou que ele talvez não tivesse entendido. Disse então:
─Veja o senhor mesmo!
E quando ele estendeu a pequena mão e ordenou com uma voz aguda e elevada para que os outros Klein abrissem as cortinas Callaz finalmente compreendeu. E como era esperado, ficou boquiaberto.
Atrás da cortina estava um imenso tubo de vidro. Cerca de dez pequenos cabos metálicos entravam naquela estrutura, ligando-a a uma espécie de condensador de Essência ambiente (a Essência presente no próprio ar). Outros dois cabos mais largos saiam pela parte superior da estrutura de vidro e se ligavam ao experimento que havia em seu interior. O experimento, um homem, estava de olhos fechados, com uma máscara que lhe supria com oxigênio. Ele estava nu, suspenso pelos cabos no interior do tubo e imerso em água.
─Mas... ─o Rei começou a dizer, mas não chegou a terminar a frase.
─Ontem ele era só um garoto, Majestade ─Kurochin disse, exalando uma satisfação insana em cada palavra. ─Mas veja como a Essência está trabalhando nele agora!
Callaz via, mas não acreditava. No dia anterior, aquele experimento era um garoto de doze anos. Agora, ele estava diante de um homem de pelo menos vinte.
─A água do tubo também possui uma Essência poderosa! Muito natural, pois é água do Rio da Cascata Celeste, do Vale Verde.
─Ele está vivo?
─Claro senhor e o mais importante ─Kurochin fez uma pausa, caminhando para mais perto do tubo imenso. Virou-se para o Rei completando sua frase, enquanto o experimento abria os olhos repentinamente. ─Está pronto para o teste!
O primeiro teste, do novo soldado.
─O Projeto Gin ─sussurrou o Rei e nesse momento ele pareceu ficar sem fôlego.
E de fato, ele estava.
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