sexta-feira, 26 de agosto de 2011

13


Griffon
E se ergueram
As flâmulas do desespero
Antes, o Imperador Vermelho era o príncipe Rothaarig, um mero pretendente ao trono de Amarante que na época era governada pelos Patricius. Mas sob a ameaça dos Nove que vieram do Deserto Escuro em busca da Essência das Fee de Licht, ele foi o primeiro a se levantar e lutar contra eles. Em seu ímpeto para salvar as Fadas de Disturbed, o príncipe recorreu aos Griffon, o povo guerreiro com o qual ele imaginou que poderia contar.
E contou, de fato.
E assim se deu a aliança entre Amarante e os Griffon, pela primeira e única vez em toda a história.
Porque quando o príncipe virou Rei e depois se tornou Imperador e começou a conquistar os reinos vizinhos com força e autoridade, os Griffon se recusaram a participar de tal campanha de violência e ultraje. O respeito dos Griffon pela Rainha Julien permaneceu intacto, mas o mesmo jamais poderá ser dito em relação ao Imperador Vermelho.
Os Grifos sobrevoaram a floresta com o bater de suas asas poderosas por pouco tempo, mas foi um momento único, fantástico e mágico. Voar montando uma criatura daquelas era apenas um sonho para Taty e simplesmente impossível para Shiro. O cheiro da floresta, o odor das penas dos Grifos que cortavam o ar em batidas fortes de asas imensas e o perfume de Alice raio-de-Sol tornava tudo ainda mais etéreo que qualquer alucinação que qualquer mente insana pudesse produzir.
E naquele instante, Taty e Shiro desejaram que essa sensação fosse mais forte que o tormento da noite passada.
Infelizmente para os dois, não era de forma alguma.
Em meio à mata, Taty e Shiro viam surgir um aglomerado de colinas e formações rochosas antigas e em meio a elas, a aldeia-forte dos Griffon surgia. Os Griffon são um povo de natureza bem diferente do restante dos humanos. Suas construções são feitas em meio às árvores, colinas e montes. Em meio das serras e dos planaltos da região, Taty e Shiro viam do alto as casas que entranhavam e emergiam da terra, fazendas de animais e hortas cultivadas junto da relva, das depressões e dos vales do lugar. As árvores tinham casas construídas em meio a seus galhos, principalmente as mais altas e velhas, repletas de pessoas que residiam nelas de forma tão natural quanto o povo de Amarante vivia em casas construídas no chão. Havia cavernas também, e eram muitas e mesmo sem saberem, Taty e Shiro imaginaram que elas poderiam ser usadas para alguma coisa sagrada ou mística. As pessoas lá embaixo acenavam exultadas, enquanto os Grifos passavam em vôos rasantes, aterrissando na grama e nas pedras da vila.
Taty notou com prazer que quando Alice Raio-de-Sol desceu de sua montaria alada, crianças correram aos montes até ela.
─Alice voltou! ─gritavam umas, correndo pela vila.
─É a Alice! A Alice! ─outras berravam, apontando e correndo na direção dela em seguida.
─Ela está de volta! ─outras falavam, com lágrimas nos olhos.
E Taty imaginou que, se as coisas em Amarante fossem diferentes, Julien seria uma Rainha dessa espécie para o povo.
─Ora, acalmem-se. ─Alice Raio-de-Sol dizia, abraçando as crianças que se aproximavam. ─Eu disse que voltaria. Eu só saí por uns instantes.
─E olhem aqui! ─um dos guerreiros ainda montado no Grifo gritou, atraindo as atenções. ─Eu peguei coelhos gordos para comermos!
─Vejam só! ─outro guerreiro gritou, mostrando dezenas de peixes em uma rede presa às costas do Grifo.
─Isso ainda não é nada! ─um terceiro exclamou. O Grifo dele trazia um enorme cervo nas garras afiadas. ─nós teremos um jantar maravilhoso essa noite!
E então a vila comemorou aos gritos. Alice dispensou as crianças para que elas ajudassem os caçadores com suas presas, enquanto recebia a atenção dos mais velhos da aldeia. Taty percebeu que eles a reverenciavam e ela, mesmo se tratando de uma Fada, curvava a cabeça a cada um deles, sorrindo majestosamente.
─Senhores Anciões, perdoem minha ausência repentina, mas eu precisei partir com meu Grifo Adler depressa. Sinto muito pela minha ousadia em deixá-los sem informação alguma. ─ela fez uma mesura com a cabeça.
─Todos nós sentimos a perturbação da noite. ─um deles disse, soturno, mas logo em seguida, o velho sorria para ela: ─Mas deixe disso, Majestade. A senhora teve lá suas razões ─ele olhou por cima do ombro dela, que era muito alta perto deles e perguntou: ─Quem são seus convidados?
Ela preparou-se para responder, mas um rugido fantástico a calou de súbito. Era um som ainda mais elevado e muito mais ameaçador que o grasnar dos Grifos ali presentes.
─O Rei... ─um dos caçadores disse ao lado de Shiro e eles olharam para cima.
E pela segunda vez naquele dia, Taty se deslumbrou, mas com muito mais intensidade que antes. Sim, ver um Grifo com uma Rainha Fee montada em suas costas é de impressionar qualquer um, ainda mais quando ela lidera um grupo de outros cinco daqueles animais fantásticos, mas o que ela via descendo em meio às árvores, batendo aquelas asas formidáveis no ar era ainda mais impressionante.
Isso porque ver um Dragão Vermelho frente a frente era coisa apenas que poucas pessoas conseguiram e menos pessoas ainda conseguiram voltar para contar como era.
─Esse... esse é o rei dos Griffon? ─ela perguntou, receosa, sentindo um calafrio subir pelas costas.
Um dos caçadores disse que sim e ele mesmo estremeceu.
O Dragão pousou com um estrondo no chão. As patas imensas e com garras que se projetavam a frente afundaram na grama, enquanto a criatura deslumbrante encarava a todos ao redor com seus olhos amarelos e pupilas em fenda. Recolheu as asas para junto do corpo, envolvendo-se como em um manto e mais uma vez rugiu, desta vez mais baixo, porém igualmente ameaçador.
Quando o Rei desceu das costas do Dragão, os Griffon ali reunidos se ajoelharam, em reverência. Até mesmo a Rainha Alice Raio-de-Sol se curvou, depositando a lança longa no chão em respeito a ele. Ela disse, com a voz firme de sempre, carregada de uma força que Taty ainda não havia sentido antes:
─Bem-vindo de volta ─ela encarava o chão, enquanto ele avançava passo a passo na direção dela. ─Rei Kram Helds.
E o homem sorriu, exibindo uma fileira de dentes perfeitos.

12


A Outra Rainha Fee
A Essência do perfume dela
Era como um mar de rosas
Em pleno deserto escaldante
Os clones de Taty se colocaram em posição de combate, enquanto ela própria ainda abraçava a princesa Chii nos fundos da caverna. Lá fora, um Grifo imenso e uma mulher bárbara faziam sons ameaçadores e capazes de perturbar o coração de qualquer pessoa.
Era uma mulher linda da tribo dos Griffon. Os cabelos ruivos eram imensamente longos, alcançando quase a altura dos joelhos dela. O corpo era magro e parecia ser bastante flexível. As pernas longas e de coxas torneadas. O rosto era oval, com olhos grandes e íris acinzentadas. Ela tinha pinturas na face; linhas azuis que contornavam os olhos e outros traços vermelhos que desciam como lágrimas através do canto do rosto. Os lábios largos e carnudos. As roupas pouco faziam para esconder o corpo magnífico; os seios volumosos eram cobertos por algo que parecia seda branca, sobreposta em várias camadas e que caiam pelos ombros em longas faixas cortadas, como as penas de um pássaro. Na cintura ela vestia apenas uma peça única de couro que nem chegava ao meio das coxas incríveis. Os pés calçados com sandálias de couro fino que eram amarradas em torno das canelas. No pulso direito ela trazia pulseiras de pano verdes, vermelhas e azuis. Uma braçadeira dourada envolvia seu braço esquerdo e luvas de couro lhe cobriam as mãos.
O Grifo grasnou alto e a mulher ergueu a lança que carregava emitindo um grito agudo. A lança longa tinha a ponta de pedra e nesse instante ela brilhou de maneira intensa, tornando aquela uma visão, no mínimo, mágica.
E nesse ponto, o gelo que cobria o corpo de Shiro se despedaçou completamente, ao mesmo tempo em que cinco outros Grifos pousavam na relva, cada um com um guerreiro em suas costas.
─Shiro! ─Taty gritou de dentro da caverna, surpresa.
Ele se virou para ela com o olhar firme. O gelo em seu braço refletia a luz da lança da mulher Griffon como um espelho.
─Está tudo bem, senhorita Yue! ─ele disse, empunhando a espada à frente. ─Eu protegerei você e a princesa Chii dessa vez!
Os Griffon berravam, misturando suas vozes com o grasnar de seus Grifos. A mulher ruiva saltou para a grama e apontou a lança para frente. Os clones de Taty saltaram cada uma em uma direção, esperando pelo combate.
─Não estamos procurando combate, entenderam? ─Shiro gritou com imponência. ─Mas se quiserem, eu terei prazer em lutar com cada um de vocês!
A mulher então falou e sua voz soou calma e sem ameaça:
─Nenhum de nós deseja isso, portador da Espada de Cristal. ─ela abaixou sua lança e continuou: ─Nenhum Griffon ousaria atacar a última herdeira dos Hollerbach de Amarante. Ainda mais se tratando da princesa Elfa Chii, filha de Julien Hollerbach. Por favor, abaixe sua espada.
Shiro e os clones se entreolharam, desconfiados. Taty avançou para fora da caverna com a princesa ainda dormindo em seus braços e perguntou:
─E como podemos ter certeza disso? Quem é você e que garantia pode nos dar?
─Entendo sua desconfiança, Guardiã. Os Griffon há muito tempo se mostraram contra o imperialismo de Amarante, mas jamais fomos contra a Rainha Fee, Julien Hollerbach. ─ela fez uma pausa longa. Os olhos dela encararam o chão por um momento, como se sentisse um pesar muito grande no coração. Continuou, voltando a encará-los com firmeza: ─Eu sou a Rainha Griffon, Alice Raio-de-Sol e como amiga de sua finada Rainha, eu lhes peço ─e nesse ponto ela curvou a cabeça com respeito. ─Permitam-me ajudá-los nesse momento tão cruel.
Taty e Shiro estavam perplexos. Aquela mulher falava com uma autoridade evidente, mas ao mesmo tempo, exalava uma tristeza genuína em cada uma de suas palavras.
─Senhorita Yue? ─Shiro disse a ela.
No instante seguinte, cada clone de Taty se esvaneceu, como fumaça. Alice Raio-de-Sol sorriu com gentileza e lhes pediu:
─Por favor, permitam-me levá-los para um lugar mais seguro e confortável. Nossa aldeia não fica muito longe daqui. Por favor, nos acompanhem.
─Antes, esclareça uma coisa ─Taty disse. ─Você disse ser amiga da Rainha Julien?
Ela aquiesceu apenas. Outra vez o pesar se mostrou em sua face bela e Taty pôde sentir a tristeza de sua alma, percebendo afinal o que era de fato evidente. Ela disse:
─Shiro, vamos acompanhá-los.
Ele concordou com a cabeça, sentindo uma estranha confiança no julgamento daquela Guardiã. Também sentia algo em relação à Alice-Raio-de-Sol, mas não compreendia ainda o que era.
Assim, ambos montaram os Grifos com seus guerreiros formidáveis e alçaram vôo pelos céus. Taty ia montada no mesmo Grifo que Alice Raio-de-Sol com Chii ainda adormecida em seus braços. De perto, aquela mulher era ainda mais linda e formidável. O cheiro dela era como o perfume de um jardim maravilhoso da terra de Licht, cultivado pelas Fee antes do Êxodo.
E ela pensou que era natural aquela mulher cheirar daquela forma porque, afinal de contas, ela também era uma Fee.
A tribo dos Griffon sempre viveu naquelas florestas do norte, desde a primeira memória do mundo. Eles são como um povo bárbaro, afastado do restante do mundo não por medo, porque existem poucas coisas em Disturbed tão pavorosas e ameaçadoras quanto esse povo, que cavalga um ser tão arisco quanto um Grifo, mas sim por escolha própria. Eles preferiram deixar que o mundo seguisse seu caminho por conta própria sem interferirem, esperando assim que também ninguém interferisse com seu modo de vida.
Mas claro, nunca é assim que acontece.

11


No Lugar Errado
Ela apenas
Dormiu
Por mais tempo
Do que seria realmente
Saudável
Taty voltou para a caverna carregada de cogumelos azuis. Chii estava sentada ao lado de Shiro envolta com a capa vermelha dele sentindo o vento soprar do lado direito de seu rosto. Daquela distancia, Taty observou com apreço como ela era linda. Os cabelos loiros muito longos dançando com o vento junto da capa vermelha, criando um contraste semelhante a uma pintura. Aqueles olhos azuis fantásticos encaravam o vazio e seu rosto alvo sem expressão se assemelhava a uma estátua de gesso.
A Elfa só percebeu a chegada de Taty quando ela já estava bem próxima e deu um grito de alegria, saltando da rocha e correndo em sua direção.
─Aaaah!!! Você conseguiu! ─ela disse, abraçando-a com força e derrubando parte dos cogumelos.
─Ei, ei! ─Taty disse, rindo. ─Está tudo bem? Eu disse que conseguiria alguma coisa pra comermos!
─O que são essas coisas? ─ela se abaixou e pegou um cogumelo caído no chão. ─Tem certeza que isso é de comer Taty?! ─ela parecia muito desconfiada.
─Bem, eu vi um coelho comendo, então acho que não tem problema se comermos. ─ela respondeu, sentando-se na grama em frente de Shiro. ─Hum... ele ainda não descongelou?
─Nada. Por quanto tempo acha que ele ficará assim?
─Não faço idéia, mas espero que até a noite ele volte ao normal. ─Taty juntou todos os cogumelos. Eram doze ao todo, todos de um bom tamanho. ─Bem, vamos comer?
─Assim?! Crus?!
E Taty percebeu que ela não sabia fazer fogo. Na noite anterior, pela mais pura sorte, Shiro encontrara aquela caverna e em seu interior havia madeira seca o bastante para queimarem. Ele pediu que Taty segurasse a espada, enquanto ele esfregava uma pedra na lâmina, gerando faíscas. Parecia uma tarefa fácil, mas ela não fazia idéia se seria seguro tocar naquela espada.
─E se eu tocar nela e congelar também? ─ela disse, com medo.
─Nãããão!!! ─Chii resmungou. ─Você não pode virar estátua de gelo também! Já basta o senhor Shiro!
─Bem, então vamos ter de comer isso cru mesmo... ─mas ela própria não parecia muito motivada a isso. ─O gosto não deve ser assim tão ruim...
Mas ela imaginou as fibras daquele cogumelo em sua boca e sentiu enjôo. Imaginou o que, por acaso, teria passado por perto deles, talvez crescido perto deles ou mesmo se esfregado por acidente em um ou outro. O estômago se revirou uma vez de nojo, mas uma segunda vez de fome. Uma fome voraz que foi respondida pelo estômago da princesa Chii.
─Como é possível uma menina dessas ter um estômago roncando assim?! ─ela pensou, completamente abismada. ─Parece um monstro! ─e seu próprio estômago respondeu novamente, ainda mais alto. Ela então disse: ─Certo, Chii! Eu comerei primeiro e se o gosto for bom... ─mas ela se calou, arregalou os olhos e depois deu um grito agudo. Chii estava com dois cogumelos na boca e mastigava com vontade. ─O QUE É ISSO?!
─Taty! ─ela falou, ainda mastigando. A ponta de um cogumelo saindo pelo canto da boca. ─Come logo! É gostoso!
Taty ficou pálida.
─Chii... e se isso fizer mal? Você deveria ter me esperado comer!
─Mas você disse que viu o coelho comer e que assim tava tudo bem...? ─ela parou de mastigar de súbito, olhando desconfiada para a amiga. ─Você disse isso porque é verdade, não é?
─Bem... eu não exatamente VI o coelho comer... entende?
Chii cuspiu o restante dos cogumelos em Shiro. Com a língua para fora, ela olhava estupefata para Taty e gritava:
─QUE DIABO DE GUARDIÃ VOCÊ É?! ME DANDO COGUMELOS VENENOSOS PRA COMER?!
─Ooohhh, calma ae! Eu não disse que eram venenosos. Eu disse que PODERIAM fazer algum mal! É diferente, não é?
Mas a resposta da princesa foi uma série de bufadas violentas. Ela encarava Taty com os olhos arregalados e o cenho franzido. Parecia louca, na verdade. Ela estendeu um cogumelo para ela e disse com voz autoritária:
─Agora você tem de comer!
─HÃ?! TA DE BRINCADEIRA NÉ?!
─Não, não estou! ─Chii respondeu, sacudindo a cabeça para os lados. ─Você prometeu cuidar de mim, lembra? Então se eu morrer nós temos de morrer juntas!
Taty se afastou dela se levantando e fazendo uma careta de pavor.
─E-eu nunca disse que morreria com você!... Sua estranha!...
Chii inclinou a cabeça para o lado e fez cara de ofendida. Os olhos pareceram se inundar com lágrimas em um instante e Taty sentiu o coração partindo.
Partia, sim, mas nem por isso ela comeria aqueles cogumelos.
─Vamos... ─Chii disse, devagar. ─Coma! Eu estou te dizendo pra comer... ─a voz dela de repente ficou arrastada e sonolenta. Os olhos se fechando bem devagar. ─Coma logo... Sr. Coelho!
E Taty pensou ter ouvido coisas nesse ponto.
─O que?! Sr... Sr. Coelho?
─Não seja chato seu coelho de orelhas roxas! Coma logo e vamos brincar! ─ela abriu um sorriso abobalhado. Os olhos pareciam fechados, mas ainda não estavam.
─Chii... você está bem?
─Claaaaaaaro que eeeeeesssssssss... ─pausa. Ela pareceu perder o fio da conversa até exclamar, de repente: ─TOU! ─e assim, jogou o cogumelo para o alto. ─Pega Sr. Taty Coelho! Pega!
O cogumelo bateu na cabeça de Taty e caiu no chão. Ela viu assombrada Chii fazer uma cara decepcionada e resmungar:
─Você é muito chato, Sr. Taty Coelho! ─e voltando-se na direção de Shiro ela pareceu se animar, gritando com escândalo: ─UM BONECO DE NEVE!!!
Lembra-se das flores que ela espalhou por ali, não? Pois a menina se ajoelhou e começou a pegá-las e com ambas as mãos esfregá-las na face congelada de Shiro. Ela se mostrou feliz e animada de um instante para o outro e chamou Taty para ajudá-la:
─Não seja chato, Sr. Taty Coelho! VeeeeeeeeeeeeeeeNHA! Vamos fazer um boneco de neve bonito!!! ─e caiu na risada, sozinha.
─Meu Deus ─Taty disse, sem ação. ─A Chii... ta viajando! ─ela olhou para o cogumelo caído e acabou pensando no coelho que ela imaginava tê-los comido. Começou a rir vendo a imagem perfeita de um coelho louco pela floresta, escalando árvores e saltando, pensando ser um pássaro ou coisa assim.
E Chii, em seu estado totalmente alterado, ria e cantava, esfregando as flores no rosto gelado de Shiro.
Eu sou um bolinho de arroz (de arroz!)
Meus bracinhos vieram só depois (só depoiiiissss!)
Minhas perniNHAS ainda estão por vir (esssstão por viiiir!)
E eu não tenho boquiNHA pra sorrir (pra soooorrrrrir!)
PORQUE EU SOOOOU UM BOLINHO DE ARROZ...
...e assim ela continuou cantando e Taty pensou que aquele poderia ser o último momento realmente feliz dela, ou talvez fosse o primeiro, depois da noite anterior.
─Uma pena ─ela disse a si mesma, baixinho. ─Quando o efeito desse cogumelo passar... a realidade vai bater na face dela com força... ─e uma lágrima escorreu dos olhos dela. Taty esfregou os olhos com força e disse, animada: ─Chii! O Sr. Taty Coelho vai te ajudar!
─AYE!!! ─ela exclamou, jogando os braços para cima e falando com a voz já embargada: ─Tuelho! Tuelho! Tuelho!
E assim, ela caiu no sono de repente.
Agora, Taty a segurava no colo, nos fundos da caverna. Ainda não passava do meio-dia e o sol ainda rebatia sua luz cálida nas paredes frias de pedra onde elas estavam. Agora, a menina dormia profundamente e seu rosto finalmente mostrava um semblante sereno e tranquilo.
E Taty quase chorou, uma vez mais.
─Que coisa... como tudo isso pôde acontecer? Assim... tão depressa...?
O vento soprava lá fora, sem vontade. Apesar do que ela dissera a Shiro antes, ela nem precisou se concentrar para sentir a Essência Sombria no castelo Hollerbach. Perceber aquela presença era tão natural quanto respirar; você não se lembra que tem de respirar, mas ainda assim o faz. Sentir aquelas Essências Sombrias era igual.
Ainda mais, a Essência dele.
─Miseráveis! ─ela pensou, sentindo-se irritada profundamente. ─Eu não os perdoarei! Nunca os perdoarei por isso! ─e quando Chii se mexeu no colo dela, provavelmente sonhando com algo muito diferente da situação atual, ela se forçou a sorrir. ─Durma Chii, durma. Durma e sonhe pelo maior tempo possível!
Olhou para fora, apreciando o balançar dos galhos e folhas das árvores ao vento. Não tinha porque se preocupar com soldados da Horda porque estavam muito longe. Se Julien planejou ou não esse movimento, Taty não fazia idéia, mas ela as mandara para um ponto bem distante do castelo. O bastante para mantê-las seguras, por enquanto.
Pensando sobre isso, Taty começou a imaginar onde estariam. O castelo Hollerbach estava, pela sua percepção, para o leste. A floresta densa demais tinha um clima frio, com ventos gélidos. Apesar do sol que raiava sem nuvens no céu naquele instante, o ar ainda estava gelado. Mesmo com o meio do dia chegando, a relva e as rochas do lugar ainda estavam úmidas pela chuva torrencial da noite passada.
Ela arrepiou-se, percebendo o que era tão evidente.
─Essa não! Essas são as florestas...
Mas sua compreensão chegou tardia. O ar se moveu de maneira brusca de repente e um grasnar elevado tomou o lugar. Ela se levantou com os punhos fechados e a certeza cada vez mais amarga de que estavam no lugar errado. O momento, não importa qual fosse, sempre seria errado também.
─Nós não devíamos estar aqui! ─ela gritou, evocando sua Essência brilhante e novamente criando três clones de si mesma, surgindo ao seu redor e correndo para fora da caverna. ─Isso vai ser muito sério! ─ela gritou, abraçando uma Chii que dormia profundamente.
Do lado de fora, aterrissando majestosamente sobre a grama diante dos olhos dos clones dela, um ser que Taty jamais tinha visto, mas que já ouvira falar em muitas histórias durante a infância. Um ser completamente selvagem que tornava aquela região perigosa para qualquer viajante ou explorador incauto.
Um Grifo. Pousava cravando suas garras de leão na terra e sacudindo asas de águia formidáveis, grasnando com vigor, fazendo um som estridente que reverberava nas paredes da caverna. Taty olhou aquilo estupefata e sealguém lhe contasse, ela jamais acreditaria, mas o Grifo tinha m suas costas uma mulher de aparência fantástica, totalmente diferente dos padrões de Amarante, com cabelos ruivos imensos que se sacudiam no ar.
─Griffon! ─Taty disse no fundo da caverna, enquanto seus clones se colocavam a frente da entrada. ─Os que cavalgam Grifos.
E o grasnar do Grifo, tão agudo e elevado, junto com o grito bárbaro daquela mulher que levantava no ar uma lança comprida a fez tremer.
E ao mesmo tempo, a mão direita de Shiro se moveu.
Um milímetro apenas.

10


Uma Promessa pra Vida Toda
Conte-me como foi
Seu primeiro buquê
De rosas...
─Taty, ele ta morto?
─Não. Pelo menos, acho que não, Chii. ─ela se aproximou dele envolta na capa vermelha de Sentinela. Os olhos dele estavam fechados. Ele ainda estava apoiado sobre a Espada de Cristal, da mesma forma como ela o deixara quando foi se deitar. ─Eu sinceramente espero que não.
A princesa sentiu um arrepio de medo. Aquilo era estranho demais para ela, ainda mais depois dos acontecimentos da noite passada. Ela perguntou à Taty:
─O que vamos fazer agora?
─Eu não sei. Estou tentando entender o que aconteceu com ele...
─Não falo disso! ─ela exclamou.
Taty olhou para ela e chocou-se. A princesa tinha os olhos cheios de lágrimas prestes a escorrer pelo rosto de novo. Ela apertava as mãos com força e tremia, enquanto os dentes rangiam. Ela abaixou a cabeça e passou as mãos pelo grande cabelo loiro bagunçado e os olhos ficaram cobertos por eles. Ela disse com um murmúrio:
─Perguntei o que vamos fazer AGORA. Para onde vamos? ─ela fungou algumas vezes, se esforçando para conter as lágrimas. ─Se é que nós temos algum lugar para ir...
Taty sentiu um aperto no coração e por isso foi até ela na intenção de abraçá-la. Quando se ajoelhou diante dela, porém, a princesa se afastou bruscamente e ergueu o rosto com os olhos arregalados e uma fúria genuína na face.
─Não faça isso! Eu... eu não quero que me trate como uma criança, entendeu?
─Chii... eu só...
─Eu não permito que me trate assim! Jamais! Nunca mais, você me ouviu?! ─ela gritava e agora, finalmente as lágrimas lhe escorriam pelo rosto. ─Eu... eu... não posso mais... ser assim... tão... ─Taty a abraçou assim mesmo e Chii chorou no ombro dela. ─Tão... tão chorona... Nunca mais...
Novamente, as duas choraram juntas.
Uma chorava de pesar. A outra chorava de fúria.
Estavam secas as roupas, mas ainda frias. Taty se arrepiou quando se vestiu, mas não reclamou. Chii estava sentada do lado de fora da caverna, enquanto o sol da manhã aquecia a relva molhada. Shiro ainda era uma estátua de gelo imóvel.
Taty... você nunca deve deixá-la sozinha.
Ela se lembrava da Rainha Julien. Era impossível não se lembrar.
─Eu farei de tudo por ela, Julien. ─ela disse a si própria. ─Eu juro que darei a minha alma pela felicidade dela!
Saiu da caverna e foi até a princesa sentada nas pedras um pouco mais a frente e sentou-se com ela.
─Eu ainda não sei para onde ir, Chii, mas pelo menos agora sei onde estamos. ─a princesa não se virou para ela. ─Estas são as florestas a noroeste do castelo. Não se preocupe, estamos bem longe daqueles monstros... ─ela parou de falar imediatamente. Viu quando Chii franziu o cenho ao ouvir aquilo. ─Desculpe se disse alguma coisa inapropriada. Eu...
─Você só está tão assustada quanto eu. ─ela disse em um tom de voz completamente diferente. Agora ela falava com mais confiança e seriedade. ─Não tem com o que se preocupar, Taty ─ela se voltou para a Guardiã e não havia lágrimas naqueles lindos olhos azuis. ─Eu protejo você e você também me protegerá. ─abriu um sorriso majestoso que fez Taty deixar o queixo cair. ─Combinado?
─Hã... bem, claro! ─ela disse, efusiva.
─Então toca aqui! ─ela disse, também animada, estendendo a mão direita com o dedo mindinho esticado. Taty sorriu para ela e fez o mesmo, enlaçando o dedo dela com o seu próprio dedo mindinho. Chii disse então, em um tom mais sério: ─É uma promessa pra vida toda, ta bem? Quando eu crescer, você ainda vai ter de tomar conta de mim!
Eu lhe imploro! Por favor, não a deixe sozinha!
─Pra vida...
Eu jamais a abandonarei!
─...inteira!
Eu juro a você!
Aquele era um trato que nenhuma das duas jamais se esqueceria.
Taty não sabia mesmo o que fazer. Shiro ainda estava congelado e ela não fazia a menor idéia de o que fazer quanto a ele.
─Ele disse que congelou o braço quebrado ─ela pensava. ─Será que ele exagerou e acabou se congelando por inteiro? Ou será que é algum poder da Espada de Cristal? Ela o terá rejeitado?
─Taty! ─Chii gritou ao lado dela. O susto a fez dar um pulo da pedra e bater a cabeça num galho baixo da árvore. ─Em que você está pensando ai afinal?
─Hmm... isso doeu de verdade. ─ela disse, coçando a cabeça. ─Acho que vai dar um galo aqui. ─ela olhou para a princesa e respondeu enfim: ─Ah, em nada demais! Só pensando em como o Shiro se transformou naquela estátua de gelo durante a noite.
Chii arregalou os olhos de repente.
─Será que algum espírito-raposa fez isso com ele?!
Taty estremeceu. Ela tinha pavor das histórias sobre espíritos-raposa mesmo sabendo que eram apenas contos de terror para assustar crianças.
─Isso... isso é besteira... ─as pernas dela bambearam ao ponto de Chii ver. ─Espíritos-raposa não existem...
─Então por que você está tremendo Taty? ─ela perguntou com uma expressão desconfiada. Andou em torno dela com a mão no queixo, em dúvida. ─Você não teria medo desses contos que só servem para manter crianças em seus quartos durante a noite, não é?
─E-eu?! Ora... q-que bobagem! ─e no fundo ela pensou: ─Diabo de menina! Pare de me amedrontar!
─Aaaaaahhhhh! Que bom! ─ela disse, alegre. ─Seria muito ridículo se fosse verdade!
Taty estava pálida. Ela sorria simplesmente porque os músculos em sua face estavam paralisados naquela expressão.
─Taty, eu vou procurar alguma coisa para comer. Nessas árvores deve haver algumas frutas gostosas, não é?
─Hã? Oh, é verdade! Você deve estar faminta! Mas fique você aqui com o Shiro! Eu vou e procuro as frutas pra você!
─Ficar aqui? ─ela olhou para Shiro, ainda congelado na entrada da caverna e estremeceu. ─Com ele? Sozinha?
─Eu volto logo, não se preocupe! Vai ficar tudo bem, está certo?
─Mas... mas... ficar aqui... ─olhou para Shiro de novo, tremendo mais uma vez. ─Com ele...?
Taty já estava se embrenhando na mata e gritou para ela:
─Eu volto logo, está bem? ─mas no fundo o que ela pensava era que essa era uma boa lição para Chii. ─Hihihi! Agora vamos ver quem mete medo em quem.
Então Chii ficou ali, sozinha, com a estátua-Shiro na entrada da caverna.
─Droga! ─ela esbravejou, chutando a grama.
A floresta era densa, mas fácil de transitar. Taty procurava alguma fruta que pudesse comer, mas tudo o que encontrava eram cogumelos que ela imaginava serem venenosos. Não encontrava animais, exceto alguns pássaros que voavam rapidamente quando ela se aproximava e um ou outro esquilo, mas esses ela se recusava a comer. Eram bonitinhos demais.
─Se continuar assim eu vou demorar o dia todo até achar alguma coisa. ─ela disse, desanimada, mas então teve uma idéia. Sua Essência raiou um instante e de repente outras três Taty apareceram. ─Agora sim! Vamos à caça!
Chii achou flores em meio às árvores perto da caverna e fizera um buquê muito lindo com várias delas.
─Agora está bonito, senhor! ─ela disse para Shiro.
Ela colocara a capa ao redor dele. Na mão esquerda que estava pendendo ela deu um jeito de fixar o buquê de flores. Depois, com mais flores nos braços, ela o rodeou jogando-as perto dele no chão e pavimentando um caminho que ia dele em direção da floresta. Voltou andando por esse caminho fingindo-se de distraída e quando ficou de frente para ele levou ambas as mãos ao rosto, surpresa:
─Oh! Meu Deus! ─ela se abaixou com uma reverência, erguendo um pouco o vestido. ─Quanta gentileza, senhor! ─ela pegou o buquê da mão inerte e congelada dele e voltou o olhar para ele com ternura. ─Não precisava... ─ela de repente ficou alerta e disse, em tom confidente: ─O que?! O senhor quer pedir a minha mão? ─ficou tímida, até ruborizada ela conseguiu ficar. ─Minha nossa! Que acontecimento! Mas devo lhe avisar! Eu tenho uma Guardiã muito brava! Ela não deixará que o senhor se aproxime de mim assim se souber de suas intenções! ─e então, caiu na risada, feito uma menina. ─Oh, senhor! Como assim vai apresentar um amigo a ela? Acha mesmo que assim ela se esquecerá de mim e me abandonará? ─ficou esperando uma resposta, mas ai a brincadeira havia acabado. Disse já sem entusiasmo, jogando o buquê no chão: ─A Taty nunca... me deixará sozinha.
Sentou-se na grama sentindo um peso no estômago. Era tristeza, ela sabia, mas nem por isso se deixaria chorar. Era vergonhoso demais chorar agora. De novo.
─Eu vou conseguir! ─ela disse a si mesma. ─Eu juro mamãe! Eu vou conseguir! Eu vou lutar!
Taty e seus clones capturaram um coelho, mas ela o libertou. Também era bonitinho demais. Acabou desistindo de pegar qualquer animal que fosse e só coletou cogumelos, confiando que não seriam venenosos.
─Se aquele coelho tinha esses cogumelos azuis na toca dele, então não deve ter problema comê-los! ─ela se voltou para as clones e elas se dissolveram. ─Agora é hora de voltar! A Chii deve estar faminta! Vamos preparar esses cogumelos de algum jeito e comer pra matar essa fome. ─o estômago dela resmungou feito uma fera, assustando um esquilo que descia o tronco de uma árvore para cheirá-la. ─E depois, vamos pensar no que fazer.
E o bom coelho de sorte que ela não quis comer voltou a sua toca, onde tinha restos de cogumelos azuis. Se ela tivesse observado mais atentamente, teria visto que eles eram, na verdade, de um tom diferente dos cogumelos que ela agora carregava. O coelho comeu e saiu de sua toca mais uma vez. Para o azar dele, a lança que o atingiu não era de alguém que evitava comer animais bonitinhos.

sábado, 6 de agosto de 2011

09

Obsessão

Pergunte ao homem cego
O quê diabos ele viu afinal

Ura, o Golem, estava diante do Primeiro General Rogi, na antiga sala do trono do Imperador Vermelho. Ele tinha ataduras em suas feridas; o corte no rosto e a perfuração no abdômen que Gan Shiro provocara com a Espada de Cristal. Há muitos anos ele não sabia o significado da dor, a sensação de ser cortado, de ser atingido com força suficiente para fazê-lo perder os sentidos e entrar naquele frenesi estúpido e desnecessário.

Agora, ele sentia não apenas a dor física, como também sentia seu orgulho sendo esmigalhado, completamente fulminado, pelo olhar duro de Rogi.

─Sua Essência está diferente, Golem ─disse o General, no mesmo tom calmo e frio de sempre. ─Alguma coisa aconteceu?

Ura apertava os punhos com força. Atrás dele, Ryujin, o Samurai, aguardava em silêncio. Quando falou, a voz de Ura soou ainda imponente e firme:

─Nada que eu não possa resolver sozinho.

O Primeiro General sorriu.

─Engraçado dizer isso, Ura. Eu jamais vi você em estado tão lamentável antes.

─Como eu disse senhor, não é nada que eu não possa dar um jeito.

─Verdade? ─a pergunta tinha um tom de ironia evidente. ─Fico satisfeito por saber. ─pausa. Os olhos dele pareciam enxergar além dos olhos de Ura, ainda mais profundamente. Ele continuou: ─Conte-me sobre suas feridas. Como elas foram causadas?

Ura engoliu seco. Rogi viu aquele gesto e achou engraçado de novo, sorrindo.

─A Espada de Cristal lhe feriu assim, certo? ─ele indagou e em um piscar de olhos, estava ele a frente de Ura. O Primeiro General era mais baixo, mas proporcionalmente mais ameaçador. ─O poder dela foi capaz disso, estou certo?

─Sim... ─ele respondeu, mas a voz falhou imediatamente. O Primeiro General sorria e isso era desconcertante até mesmo para ele. Com esforço, terminou a frase: ─Senhor...

Rogi então caminhou em torno dele, a mão esquerda no queixo, os olhos voltados para baixo. Pensativo, ele deu uma volta completa em torno do enorme guerreiro e ficando novamente de frente para ele, disse:

─Então agora temos um problema que não consigo solucionar, Ura.

─Senhor? ─Ura perguntou, sem entender.

─O comandante da guarda do castelo era o detentor da Espada de Cristal. Assim, se essas feridas foram feitas pela espada, então significa que ele foi quem o feriu, correto?

Ura estacou. Ele perguntava sobre o homem que carregava aquela espada brilhante que congelava tudo a sua volta. A resposta, a verdadeira resposta, era que ele não conseguira nem sequer fazer um arranhão em Ura com aquela espada. Não, o comandante da guarda do castelo dos Hollerbach não fora forte o bastante para tal feito.

Mas aquele Sentinela maldito, ele conseguiu.

Duas vezes ainda.

─E se o comandante foi encontrado morto, enquanto você está aqui, vivo, bem na minha frente, significa então que você venceu a batalha. Isso que eu digo está correto, Ura?

Ele balançou a cabeça, desconsertado, sem saber onde aquela conversa estava indo.

─Então, me responda uma coisa apenas ─e nesse instante, com uma força descomunal até mesmo para um membro da Horda, Rogi o agarrou pelo pescoço. Tão intenso foi aquele aperto, que Ura sentiu as pernas amolecerem e ele desfaleceu, caindo de joelhos diante do general. ─Onde diabos está aquela espada?

Naquele momento as palavras pareceram sumir de sua mente. Ele apenas sentia o aperto na garganta se tornar pouco a pouco mais forte. Ele queria responder, queria contar do Sentinela, mas a mão do general continuava firme, implacável em seu pescoço.

─Conte-me seu miserável de uma figa! ─Rogi gritou, arremessando Ura como se ele fosse um mero boneco de pano em direção da parede do outro lado do salão. Quando ele se chocou contra a pedra e se estatelou no chão, o general já pisava em seu peito com força, pressionando seus pulmões e tirando-lhe o fôlego. ─Responda-me seu verme! Responda-me ou eu garanto que vou lhe causar tanta dor que desejará ter morrido nas mãos daquele comandante fajuto!

Ele queria a resposta, mas não dava chance para que Ura falasse. O pé sobre o peito dele impedia-o de respirar e assim, era simplesmente impossível ele falar qualquer coisa.

─Seja Shuyo, uma Fee ou mesmo um representante divino de qualquer tipo, nada me fará desistir daquela espada! Eu a terei mesmo que tenha de esfolar a sua pele, os seus ossos e até mesmo a sua alma! ─chutou o peito dele e Ura cuspiu sangue imediatamente. ─Onde está a maldita espada?!

Agora ele se agachava, agarrando os cabelos de Ura com força. A falta de pressão no pescoço e no peito permitiu que ele aspirasse ar com força e com um desespero claro na voz, ele gritou:

─Sentinela!

─O quê?

Ura arfava. As mãos do general ainda segurando-o pelos cabelos. Disse novamente:

─Sentinela! Senhor... um... Sentinela!

─De quê infernos está falando, maldito?!

─Um Sentinela senhor... o comandante o protegeu durante a batalha... e depois... ele me enfrentou com a tal espada... ─tossiu duas vezes, fazendo Rogi se afastar. O sangue verteu pela sua boca em dois jorros viscosos que se espalharam pelo chão. ─A rainha Julien o ajudou a escapar também... através do portal...

Rogi explodiu de ira, emitindo um grito tão brutal que ecoando pelos corredores fez tremer dezenas de soldados que ainda vasculhavam as muitas salas do castelo. A fúria dele, porém, cessou de repente.

─Um sentinela, você diz?

─Sim, senhor! Ele tinha kanjis Shuyo no pescoço, assim como a guardiã da princesa Elfa!

Rogi ponderou por um instante, retornando em direção ao trono. Aquilo ainda não era a resposta que ele queria ouvir, mas era alguma coisa. Ele esperava de verdade que Ura estivesse com a espada, talvez escondida em algum lugar como troféu pela morte do comandante, o que seria muito melhor do que ter de procurar o maldito sentinela e a espada por sabe-se lá onde.

─Os portais da Torre do Cego podem levar a praticamente qualquer lugar de Disturbed. ─ele sussurrou para si próprio. ─Talvez até mesmo qualquer lugar do Nirvana...

Agora, Ryujin tomou a frente e com uma mesura, pediu a palavra. O general permitiu que ele falasse.

─Senhor, existe um lugar para onde a princesa e seus protetores podem ter sido enviados. ─ele olhou por entre as mechas de cabelo escuro que escorriam pela frente de sua testa quadrada, encarando o general que o olhava diretamente. ─No passado, durante o Exílio das Fee, muitas se esconderam nas florestas a noroeste daqui. Conheço histórias sobre aquele lugar e uma delas é sobre uma rainha Fee, uma que não abandonou o universo de Nirvana e aqui permaneceu. ─ele olhou para Ura, que se levantava aos poucos. O sangue já não vertia pela boca dele, mas a ferida em seu abdômen voltara a sangrar. ─A Fada Alice Raio-de-Sol, meu senhor. Ela era muito próxima de Julien Hollerbach e sendo a última Fee em Disturbed, seria apropriado que a rainha lhe enviasse a filha e também a Espada de Cristal. ─ele fez mais uma mesura e se afastou para o lugar onde estava antes.

Rogi ponderou longamente. Era uma idéia interessante, lembrando que aquelas florestas eram habitadas pelos Griffon, o povo maldito que ajudou o príncipe Rothaarig a desafiar e vencer os Nove tempos atrás. Mesmo que a espada não esteja com os Griffon, ainda assim seria muito prazeroso ver aquelas terras queimando, com os Grifos sendo dilacerados pelos monstros da Horda sem piedade, as mulheres tentando buscar abrigo para seus filhos, enquanto tolos guerreiros procuravam lutar inutilmente.

Tudo em nome daqueles que o príncipe Rothaarig derrotou no passado.

E também em nome do Um, que ainda vive em Iowa.

─Está certo, Ryujin ─ele disse, finalmente. Sorria mais uma vez, como antes sorria quando encará-la Ura inicialmente. ─Vá até as florestas e procure por aquela espada. Mate qualquer coisa que estiver pelo caminho, queime tudo o que for que você encontre. Traga-me a Espada de Cristal.


Ryujin fez uma mesura em agradecimento.

─É uma honra servi-lo, senhor Primeiro General.

─Leve Ura com você Ryujin. Eu imagino que ele tenha contas a acertar com o tal sentinela que o feriu com a Espada de Cristal.

─Sim, senhor ─Ryujin disse, novamente se curvando ligeiramente. Ele não era chamado de Samurai por menos. A lealdade e o respeito dele derivavam dos guerreiros samurais de Iowa. ─Ele terá sua chance de vingança.

─Obrigado... senhor. ─Ura disse, sentindo ainda o gosto de sangue na boca.

Os dois começaram a sair em direção do corredor, mas Ura parou antes da porta e voltando-se para o general, indagou:

─O que fazemos com a guardiã e a princesa, senhor?

Rogi sorria ainda, pensando na espada. Só a idéia de tal poder estar próximo, mesmo que em hipótese, era suficiente para deixá-lo em êxtase. Respondeu com sua voz trêmula pela ansiedade.

─Façam o que vocês quiserem.

O sorriso em sua face era o mais louco que poderia se projetar no rosto de um homem.

08

Gan Shiro

Eu gosto quando chove
Porque assim ninguém consegue ver
As lágrimas que correm pelo meu rosto

Aquela noite foi o seu pior pesadelo, sem sombra de dúvida. De um instante para outro, Gan Shiro, Sentinela do Portão Externo, viu o mundo desabar enquanto monstros medonhos caiam por um buraco imenso no céu e massacravam todos os soldados de Amarante que protegiam o castelo Hollerbach.

Ele se lembrou das histórias sobre como a Horda chegou a Disturbed, vindo através do que chamavam de Deserto Escuro, um buraco negro que se abria no meio do céu.

E nessa noite, pela primeira vez, ele sentiu a presença da Essência Sombria.

E também, pela primeira vez, sua Essência Shuyo se manifestou.

Naquela noite ele lutou contra o pior dos monstros e nada pôde fazer contra ele. Estava acabado, com o braço esquerdo quebrado, o ombro deslocado e o próprio sangue a escorrer pelo corpo. A sua vida, hoje, apenas se prolongava pelo sacrifício da boa Rainha Julien.

O Sentinela fez o melhor que podia. Levou Taty e a princesa Chii através da relva e da chuva no meio de uma noite escura (mais escura do que qualquer outra) para a floresta e lá encontrou um refúgio temporário. Não fazia idéia de onde estavam ainda, mas sabia que estavam distantes do castelo, pelo menos.
Ele carregava a Espada de Cristal. O brilho da lâmina dela agora era fraco e pálido, nada parecido com o poder que manifestara durante a batalha contra Ura, o Golem. As marcas em seu pescoço continuavam lá; os dois kanjis que mostravam que ele era um Shuyo, igual a Taty e o próprio Ura. Ele sentia aquela estranha energia correndo por dentro de seu corpo e sentia-se estranhamente feliz, mesmo tendo visto a morte bem diante da face. No entanto, não conseguia sorrir, pois mesmo aquele poder incrível não fora o bastante para evitar que o pior se abatesse sobre sua Rainha e seus companheiros.
Taty não largava a princesa, que chorara até dormir, envolta pelo manto da Guardiã que se encontrava igualmente desolada e sem palavras.

A chuva ainda caia com força e o vento frio soprava continuamente. Uma pequena fogueira crepitava perto da princesa adormecida nos fundos da caverna, enquanto Taty se afastava por um instante, sentando-se ao lado do Sentinela na entrada da caverna. Ambos ainda continuaram em silêncio por um longo tempo. Os dois estavam completamente encharcados pela chuva e ele aparentava um estado deplorável.

─Você deve dormir. ─ela disse para ele. ─Suas feridas são graves.

─N-não se preocupe ─ele disse, sem jeito. ─Eu dei um jeito. ─mostrou o braço esquerdo e ela se arrepiou. ─Eu o congelei. Assim não terei sangramento interno caso o osso quebrado tenha... ─ele parou de falar quando olhou para o rosto dela, completamente perplexo.

A beleza de Taty muitas vezes chegou a ser comparada com a das Fadas. Isso porque ela apresentava traços fortes em um rosto jovial e sorridente, totalmente fabuloso. Seus olhos eram de um vermelho intenso, quase tão forte quanto sangue vivo. Seus cabelos curtos eram de um tom loiro tão claros que quase chegavam ao branco, mas as pontas que alcançavam seus ombros eram de um roxo magnífico. Os lábios eram rosados e belos, sem destoar do rosto oval e perfeito. O corpo esguio era algo que ninguém deixaria de notar; as curvas se acentuavam principalmente abaixo da cintura, onde os quadris largos impressionavam até o mais casual homem que passasse por ela em uma rua atulhada de gente. As mãos, simples e de unhas bem aparadas, jamais pareceriam capazes de esmagar a face de um homem ou monstro com a força que possuía.

Ele continuou calado enquanto seus olhos se prendiam aos dela. A roupa encharcada acentuava as curvas do corpo da moça de forma provocante e Shiro se esforçava para continuar olhando para o seu rosto.

─Algo errado com você, Sentinela? ─ela perguntou bastante séria.

─Hã?!... Sinto muito! ─ele disse, envergonhado. ─Eu... eu dizia...

─Que congelou seu braço e por isso não terá sangramento interno. ─ela completou. Percebeu que ele ficou completamente absorto ao encará-la e ela própria acabou enrubescendo. Perguntou: ─Sua Essência Shuyo nunca havia despertado até essa noite, certo? ─e ele confirmou com a cabeça. ─Então você reagiu a Essência Sombria daqueles monstros... ─ela ficou pensativa, olhando para a espada em que ele se apoiava. Ela antes vira aquela espada brilhar intensamente, mas agora ela irradiava apenas uma fraca fagulha fria e sem graça. Disse: ─Ainda não agradeci a você.

─Oras... ─ele falou, ainda olhando para o chão e rindo sem graça. ─Eu só fiz o que me foi ordenado pelo Comandante. Não tem por que...

Ele se calou de novo quando Taty segurou a mão dele. Era uma mão macia e de aperto forte, confiante. Ele olhou para o rosto dela e se perdeu naqueles olhos escarlates mais uma vez.

─Obrigada, mesmo assim. Você permitiu que eu salvasse Chii naquele instante sem temer pela própria vida. Obrigada!

Ele sorriu para ela. Pensou que, afinal, finalmente tinha feito algo que valesse a pena ser lembrado.

─Não tem de quê. ─ele respondeu, retribuindo o aperto na mão dela com firmeza. ─Agora acho que você deve ir dormir. ─acenou com a cabeça para dentro da caverna, na direção de Chii. Taty a enrolara com o manto ainda um tanto molhado e a deitara perto da fogueira para aquecê-la. No entanto, ela ainda tremia. ─Fará bem a vocês se dormirem juntas. Eu ficarei aqui, vigiando. ─ele desceu os olhos pelas roupas dela e disse, envergonhado: ─Você deveria tirar essas roupas. ─e nesse instante ela própria enrubesceu. Ele falou depressa, procurando ser mais claro: ─Digo... essas roupas, assim... molhadas... você pode acabar adoecendo por que... ─ele apontou a capa que deixara dentro da caverna com um braço trêmulo. Era a capa dos Sentinelas que ele antes trazia presa aos ombros. ─Cubra-se com ela. Já deve estar seca o bastante para que vocês se aqueçam com ela perto do fogo.

Taty olhou para ele com admiração, mas ainda com as maçãs do rosto vermelhas.

─Obrigada, de novo. Mas não monte guarda aqui a noite toda, entendeu?

─Mas a Horda...

─Esqueça-os. ─ela afirmou e parecendo naquele momento muito mais segura que momentos antes. ─ Estão longe. Se você se concentrar um pouco poderá sentir a Essência Sombria deles bem distante, naquela direção.

Ele entendeu o que ela dizia e acenou com a cabeça. Taty se levantou e ele voltou os olhos para a escuridão de fora. Ouvia o som das roupas encharcadas dela sendo jogadas ao chão e ele lutou contra a tentação de se virar.

─Ainda não sei seu nome, Sentinela. ─ela disse, já deitada ao lado de Chii. Abraçava-a com a capa dele. ─Não espera que eu lhe chame de Sentinela todo o tempo, não é?

─Ah, verdade, não me apresentei! ─ele exclamou, ainda olhando para fora. ─Eu sou Gan Shiro, muito prazer!

─Hum... eu sou Taty Yue Patricius. ─ela disse, sem interesse. ─Procure dormir, está bem?

─Está certo. Eu vou tentar.

Mas quase que imediatamente, caiu no sono, ainda apoiado sobre a Espada de Cristal.

Ele teve um sonho que já se repetira antes. Ele era de novo uma criança na cidade de Vilma, no extremo norte de Amarante, em meio à cadeia de montanhas. As condições de vida lá eram difíceis. O inverno era muito mais rigoroso e a neve caía o ano todo praticamente. Naquela época, Shiro já não tinha uma família; como pai e mentor ele tinha Yetti, um homem que o encontrara ainda pequeno enrolado num cobertor vagabundo e abandonado em uma caverna de ursos para morrer. Depois de salvar o menino, ele o criou através de treinamentos violentos para fazer dele alguém capaz de sobreviver por sua própria conta.

No sonho, Shiro voltava aos seus oito anos e empunhava uma faca pequena. Yetti gritava com ele:

─Vamos garoto! Eu quero ir embora logo jantar! Eu estou faminto!

─Já entendi seu velho! ─ele gritou de volta e apreciou sua presa. Diante dele estava um urso marrom enorme, com quase quatro metros quando se levantava. Agora, porém, o animal estava caído, se arrastando com sangue a escorrer das patas traseiras. ─Eu estou acabando! ─o urso tentava se afastar do garoto. Era uma visão particularmente bizarra, pois o contrário seria muito mais natural.

Ele correu na direção do animal que rugia para ele. As unhas imensas do urso vieram na direção de seu rosto, mas ele se desviou, fazendo um novo talho no bicho. O sangue escorreu do pescoço dele e Shiro rapidamente subiu em suas costas, cravando a faca no alto de seu crânio. O urso bambeou por um instante e tombou morto no gelo.

─Ah! Ai está! ─ele gritou, gargalhando. ─Agora venha me ajudar seu velho! Isso é grande demais para eu carregar sozinho!

Mas agora Yetti não estava mais lá e ele sentiu o frio soprar sobre ele com força. Nem o urso morto estava ali mais ao seu lado. A faca congelava em sua mão e ele gritou para o ar frio:

─Yetti! Onde está você?! Yetti!!!

E o frio ficou ainda mais insuportável, ainda mais terrível e ele gritou de medo, assustado com o rugido que lhe respondia através do vento. Um rugido terrível que ecoava reverberando pelas montanhas e estremecendo tudo ao redor.

─Não... Yetti! YETTI!!!

Era de manhã quando Chii despertou. Ela sentia o calor de Taty nela e se desvencilhou lentamente do abraço da Guardiã. Percebeu que o rosto dela ainda tinha as marcas da luta e Chii sentiu um aperto no coração.

─Foi real. ─ela pensou, triste. ─Aconteceu de verdade. Tudo.

Ela ainda estava deitada quando sentiu o sol no rosto. A chuva de antes acabara e agora o sol nascia forte e brilhante, como uma Essência de Fada. Quando voltou o rosto para fora, no entanto, perdeu o fôlego completamente e começou a bater com as mãos na amiga, tentando acordá-la. Ela despertou sobressaltada, fechando o punho com força e se levantando depressa. A capa caiu por cima de Chii e ela ficou ali, nua, de frente para a entrada da caverna onde Shiro estava.

─Ah, minha nossa! ─ela disse e foram as únicas palavras que conseguiu pronunciar.

─Taty... ─a princesa Chii começou a dizer, confusa e assustada. ─O que está aconteceu com ele?!

Na entrada da caverna, Gan Shiro continuava sentado, voltado para fora e seu corpo estava congelado.

Absolutamente, congelado.

Como em um caixão de gelo.