sexta-feira, 26 de agosto de 2011

11


No Lugar Errado
Ela apenas
Dormiu
Por mais tempo
Do que seria realmente
Saudável
Taty voltou para a caverna carregada de cogumelos azuis. Chii estava sentada ao lado de Shiro envolta com a capa vermelha dele sentindo o vento soprar do lado direito de seu rosto. Daquela distancia, Taty observou com apreço como ela era linda. Os cabelos loiros muito longos dançando com o vento junto da capa vermelha, criando um contraste semelhante a uma pintura. Aqueles olhos azuis fantásticos encaravam o vazio e seu rosto alvo sem expressão se assemelhava a uma estátua de gesso.
A Elfa só percebeu a chegada de Taty quando ela já estava bem próxima e deu um grito de alegria, saltando da rocha e correndo em sua direção.
─Aaaah!!! Você conseguiu! ─ela disse, abraçando-a com força e derrubando parte dos cogumelos.
─Ei, ei! ─Taty disse, rindo. ─Está tudo bem? Eu disse que conseguiria alguma coisa pra comermos!
─O que são essas coisas? ─ela se abaixou e pegou um cogumelo caído no chão. ─Tem certeza que isso é de comer Taty?! ─ela parecia muito desconfiada.
─Bem, eu vi um coelho comendo, então acho que não tem problema se comermos. ─ela respondeu, sentando-se na grama em frente de Shiro. ─Hum... ele ainda não descongelou?
─Nada. Por quanto tempo acha que ele ficará assim?
─Não faço idéia, mas espero que até a noite ele volte ao normal. ─Taty juntou todos os cogumelos. Eram doze ao todo, todos de um bom tamanho. ─Bem, vamos comer?
─Assim?! Crus?!
E Taty percebeu que ela não sabia fazer fogo. Na noite anterior, pela mais pura sorte, Shiro encontrara aquela caverna e em seu interior havia madeira seca o bastante para queimarem. Ele pediu que Taty segurasse a espada, enquanto ele esfregava uma pedra na lâmina, gerando faíscas. Parecia uma tarefa fácil, mas ela não fazia idéia se seria seguro tocar naquela espada.
─E se eu tocar nela e congelar também? ─ela disse, com medo.
─Nãããão!!! ─Chii resmungou. ─Você não pode virar estátua de gelo também! Já basta o senhor Shiro!
─Bem, então vamos ter de comer isso cru mesmo... ─mas ela própria não parecia muito motivada a isso. ─O gosto não deve ser assim tão ruim...
Mas ela imaginou as fibras daquele cogumelo em sua boca e sentiu enjôo. Imaginou o que, por acaso, teria passado por perto deles, talvez crescido perto deles ou mesmo se esfregado por acidente em um ou outro. O estômago se revirou uma vez de nojo, mas uma segunda vez de fome. Uma fome voraz que foi respondida pelo estômago da princesa Chii.
─Como é possível uma menina dessas ter um estômago roncando assim?! ─ela pensou, completamente abismada. ─Parece um monstro! ─e seu próprio estômago respondeu novamente, ainda mais alto. Ela então disse: ─Certo, Chii! Eu comerei primeiro e se o gosto for bom... ─mas ela se calou, arregalou os olhos e depois deu um grito agudo. Chii estava com dois cogumelos na boca e mastigava com vontade. ─O QUE É ISSO?!
─Taty! ─ela falou, ainda mastigando. A ponta de um cogumelo saindo pelo canto da boca. ─Come logo! É gostoso!
Taty ficou pálida.
─Chii... e se isso fizer mal? Você deveria ter me esperado comer!
─Mas você disse que viu o coelho comer e que assim tava tudo bem...? ─ela parou de mastigar de súbito, olhando desconfiada para a amiga. ─Você disse isso porque é verdade, não é?
─Bem... eu não exatamente VI o coelho comer... entende?
Chii cuspiu o restante dos cogumelos em Shiro. Com a língua para fora, ela olhava estupefata para Taty e gritava:
─QUE DIABO DE GUARDIÃ VOCÊ É?! ME DANDO COGUMELOS VENENOSOS PRA COMER?!
─Ooohhh, calma ae! Eu não disse que eram venenosos. Eu disse que PODERIAM fazer algum mal! É diferente, não é?
Mas a resposta da princesa foi uma série de bufadas violentas. Ela encarava Taty com os olhos arregalados e o cenho franzido. Parecia louca, na verdade. Ela estendeu um cogumelo para ela e disse com voz autoritária:
─Agora você tem de comer!
─HÃ?! TA DE BRINCADEIRA NÉ?!
─Não, não estou! ─Chii respondeu, sacudindo a cabeça para os lados. ─Você prometeu cuidar de mim, lembra? Então se eu morrer nós temos de morrer juntas!
Taty se afastou dela se levantando e fazendo uma careta de pavor.
─E-eu nunca disse que morreria com você!... Sua estranha!...
Chii inclinou a cabeça para o lado e fez cara de ofendida. Os olhos pareceram se inundar com lágrimas em um instante e Taty sentiu o coração partindo.
Partia, sim, mas nem por isso ela comeria aqueles cogumelos.
─Vamos... ─Chii disse, devagar. ─Coma! Eu estou te dizendo pra comer... ─a voz dela de repente ficou arrastada e sonolenta. Os olhos se fechando bem devagar. ─Coma logo... Sr. Coelho!
E Taty pensou ter ouvido coisas nesse ponto.
─O que?! Sr... Sr. Coelho?
─Não seja chato seu coelho de orelhas roxas! Coma logo e vamos brincar! ─ela abriu um sorriso abobalhado. Os olhos pareciam fechados, mas ainda não estavam.
─Chii... você está bem?
─Claaaaaaaro que eeeeeesssssssss... ─pausa. Ela pareceu perder o fio da conversa até exclamar, de repente: ─TOU! ─e assim, jogou o cogumelo para o alto. ─Pega Sr. Taty Coelho! Pega!
O cogumelo bateu na cabeça de Taty e caiu no chão. Ela viu assombrada Chii fazer uma cara decepcionada e resmungar:
─Você é muito chato, Sr. Taty Coelho! ─e voltando-se na direção de Shiro ela pareceu se animar, gritando com escândalo: ─UM BONECO DE NEVE!!!
Lembra-se das flores que ela espalhou por ali, não? Pois a menina se ajoelhou e começou a pegá-las e com ambas as mãos esfregá-las na face congelada de Shiro. Ela se mostrou feliz e animada de um instante para o outro e chamou Taty para ajudá-la:
─Não seja chato, Sr. Taty Coelho! VeeeeeeeeeeeeeeeNHA! Vamos fazer um boneco de neve bonito!!! ─e caiu na risada, sozinha.
─Meu Deus ─Taty disse, sem ação. ─A Chii... ta viajando! ─ela olhou para o cogumelo caído e acabou pensando no coelho que ela imaginava tê-los comido. Começou a rir vendo a imagem perfeita de um coelho louco pela floresta, escalando árvores e saltando, pensando ser um pássaro ou coisa assim.
E Chii, em seu estado totalmente alterado, ria e cantava, esfregando as flores no rosto gelado de Shiro.
Eu sou um bolinho de arroz (de arroz!)
Meus bracinhos vieram só depois (só depoiiiissss!)
Minhas perniNHAS ainda estão por vir (esssstão por viiiir!)
E eu não tenho boquiNHA pra sorrir (pra soooorrrrrir!)
PORQUE EU SOOOOU UM BOLINHO DE ARROZ...
...e assim ela continuou cantando e Taty pensou que aquele poderia ser o último momento realmente feliz dela, ou talvez fosse o primeiro, depois da noite anterior.
─Uma pena ─ela disse a si mesma, baixinho. ─Quando o efeito desse cogumelo passar... a realidade vai bater na face dela com força... ─e uma lágrima escorreu dos olhos dela. Taty esfregou os olhos com força e disse, animada: ─Chii! O Sr. Taty Coelho vai te ajudar!
─AYE!!! ─ela exclamou, jogando os braços para cima e falando com a voz já embargada: ─Tuelho! Tuelho! Tuelho!
E assim, ela caiu no sono de repente.
Agora, Taty a segurava no colo, nos fundos da caverna. Ainda não passava do meio-dia e o sol ainda rebatia sua luz cálida nas paredes frias de pedra onde elas estavam. Agora, a menina dormia profundamente e seu rosto finalmente mostrava um semblante sereno e tranquilo.
E Taty quase chorou, uma vez mais.
─Que coisa... como tudo isso pôde acontecer? Assim... tão depressa...?
O vento soprava lá fora, sem vontade. Apesar do que ela dissera a Shiro antes, ela nem precisou se concentrar para sentir a Essência Sombria no castelo Hollerbach. Perceber aquela presença era tão natural quanto respirar; você não se lembra que tem de respirar, mas ainda assim o faz. Sentir aquelas Essências Sombrias era igual.
Ainda mais, a Essência dele.
─Miseráveis! ─ela pensou, sentindo-se irritada profundamente. ─Eu não os perdoarei! Nunca os perdoarei por isso! ─e quando Chii se mexeu no colo dela, provavelmente sonhando com algo muito diferente da situação atual, ela se forçou a sorrir. ─Durma Chii, durma. Durma e sonhe pelo maior tempo possível!
Olhou para fora, apreciando o balançar dos galhos e folhas das árvores ao vento. Não tinha porque se preocupar com soldados da Horda porque estavam muito longe. Se Julien planejou ou não esse movimento, Taty não fazia idéia, mas ela as mandara para um ponto bem distante do castelo. O bastante para mantê-las seguras, por enquanto.
Pensando sobre isso, Taty começou a imaginar onde estariam. O castelo Hollerbach estava, pela sua percepção, para o leste. A floresta densa demais tinha um clima frio, com ventos gélidos. Apesar do sol que raiava sem nuvens no céu naquele instante, o ar ainda estava gelado. Mesmo com o meio do dia chegando, a relva e as rochas do lugar ainda estavam úmidas pela chuva torrencial da noite passada.
Ela arrepiou-se, percebendo o que era tão evidente.
─Essa não! Essas são as florestas...
Mas sua compreensão chegou tardia. O ar se moveu de maneira brusca de repente e um grasnar elevado tomou o lugar. Ela se levantou com os punhos fechados e a certeza cada vez mais amarga de que estavam no lugar errado. O momento, não importa qual fosse, sempre seria errado também.
─Nós não devíamos estar aqui! ─ela gritou, evocando sua Essência brilhante e novamente criando três clones de si mesma, surgindo ao seu redor e correndo para fora da caverna. ─Isso vai ser muito sério! ─ela gritou, abraçando uma Chii que dormia profundamente.
Do lado de fora, aterrissando majestosamente sobre a grama diante dos olhos dos clones dela, um ser que Taty jamais tinha visto, mas que já ouvira falar em muitas histórias durante a infância. Um ser completamente selvagem que tornava aquela região perigosa para qualquer viajante ou explorador incauto.
Um Grifo. Pousava cravando suas garras de leão na terra e sacudindo asas de águia formidáveis, grasnando com vigor, fazendo um som estridente que reverberava nas paredes da caverna. Taty olhou aquilo estupefata e sealguém lhe contasse, ela jamais acreditaria, mas o Grifo tinha m suas costas uma mulher de aparência fantástica, totalmente diferente dos padrões de Amarante, com cabelos ruivos imensos que se sacudiam no ar.
─Griffon! ─Taty disse no fundo da caverna, enquanto seus clones se colocavam a frente da entrada. ─Os que cavalgam Grifos.
E o grasnar do Grifo, tão agudo e elevado, junto com o grito bárbaro daquela mulher que levantava no ar uma lança comprida a fez tremer.
E ao mesmo tempo, a mão direita de Shiro se moveu.
Um milímetro apenas.

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