sábado, 6 de agosto de 2011

08

Gan Shiro

Eu gosto quando chove
Porque assim ninguém consegue ver
As lágrimas que correm pelo meu rosto

Aquela noite foi o seu pior pesadelo, sem sombra de dúvida. De um instante para outro, Gan Shiro, Sentinela do Portão Externo, viu o mundo desabar enquanto monstros medonhos caiam por um buraco imenso no céu e massacravam todos os soldados de Amarante que protegiam o castelo Hollerbach.

Ele se lembrou das histórias sobre como a Horda chegou a Disturbed, vindo através do que chamavam de Deserto Escuro, um buraco negro que se abria no meio do céu.

E nessa noite, pela primeira vez, ele sentiu a presença da Essência Sombria.

E também, pela primeira vez, sua Essência Shuyo se manifestou.

Naquela noite ele lutou contra o pior dos monstros e nada pôde fazer contra ele. Estava acabado, com o braço esquerdo quebrado, o ombro deslocado e o próprio sangue a escorrer pelo corpo. A sua vida, hoje, apenas se prolongava pelo sacrifício da boa Rainha Julien.

O Sentinela fez o melhor que podia. Levou Taty e a princesa Chii através da relva e da chuva no meio de uma noite escura (mais escura do que qualquer outra) para a floresta e lá encontrou um refúgio temporário. Não fazia idéia de onde estavam ainda, mas sabia que estavam distantes do castelo, pelo menos.
Ele carregava a Espada de Cristal. O brilho da lâmina dela agora era fraco e pálido, nada parecido com o poder que manifestara durante a batalha contra Ura, o Golem. As marcas em seu pescoço continuavam lá; os dois kanjis que mostravam que ele era um Shuyo, igual a Taty e o próprio Ura. Ele sentia aquela estranha energia correndo por dentro de seu corpo e sentia-se estranhamente feliz, mesmo tendo visto a morte bem diante da face. No entanto, não conseguia sorrir, pois mesmo aquele poder incrível não fora o bastante para evitar que o pior se abatesse sobre sua Rainha e seus companheiros.
Taty não largava a princesa, que chorara até dormir, envolta pelo manto da Guardiã que se encontrava igualmente desolada e sem palavras.

A chuva ainda caia com força e o vento frio soprava continuamente. Uma pequena fogueira crepitava perto da princesa adormecida nos fundos da caverna, enquanto Taty se afastava por um instante, sentando-se ao lado do Sentinela na entrada da caverna. Ambos ainda continuaram em silêncio por um longo tempo. Os dois estavam completamente encharcados pela chuva e ele aparentava um estado deplorável.

─Você deve dormir. ─ela disse para ele. ─Suas feridas são graves.

─N-não se preocupe ─ele disse, sem jeito. ─Eu dei um jeito. ─mostrou o braço esquerdo e ela se arrepiou. ─Eu o congelei. Assim não terei sangramento interno caso o osso quebrado tenha... ─ele parou de falar quando olhou para o rosto dela, completamente perplexo.

A beleza de Taty muitas vezes chegou a ser comparada com a das Fadas. Isso porque ela apresentava traços fortes em um rosto jovial e sorridente, totalmente fabuloso. Seus olhos eram de um vermelho intenso, quase tão forte quanto sangue vivo. Seus cabelos curtos eram de um tom loiro tão claros que quase chegavam ao branco, mas as pontas que alcançavam seus ombros eram de um roxo magnífico. Os lábios eram rosados e belos, sem destoar do rosto oval e perfeito. O corpo esguio era algo que ninguém deixaria de notar; as curvas se acentuavam principalmente abaixo da cintura, onde os quadris largos impressionavam até o mais casual homem que passasse por ela em uma rua atulhada de gente. As mãos, simples e de unhas bem aparadas, jamais pareceriam capazes de esmagar a face de um homem ou monstro com a força que possuía.

Ele continuou calado enquanto seus olhos se prendiam aos dela. A roupa encharcada acentuava as curvas do corpo da moça de forma provocante e Shiro se esforçava para continuar olhando para o seu rosto.

─Algo errado com você, Sentinela? ─ela perguntou bastante séria.

─Hã?!... Sinto muito! ─ele disse, envergonhado. ─Eu... eu dizia...

─Que congelou seu braço e por isso não terá sangramento interno. ─ela completou. Percebeu que ele ficou completamente absorto ao encará-la e ela própria acabou enrubescendo. Perguntou: ─Sua Essência Shuyo nunca havia despertado até essa noite, certo? ─e ele confirmou com a cabeça. ─Então você reagiu a Essência Sombria daqueles monstros... ─ela ficou pensativa, olhando para a espada em que ele se apoiava. Ela antes vira aquela espada brilhar intensamente, mas agora ela irradiava apenas uma fraca fagulha fria e sem graça. Disse: ─Ainda não agradeci a você.

─Oras... ─ele falou, ainda olhando para o chão e rindo sem graça. ─Eu só fiz o que me foi ordenado pelo Comandante. Não tem por que...

Ele se calou de novo quando Taty segurou a mão dele. Era uma mão macia e de aperto forte, confiante. Ele olhou para o rosto dela e se perdeu naqueles olhos escarlates mais uma vez.

─Obrigada, mesmo assim. Você permitiu que eu salvasse Chii naquele instante sem temer pela própria vida. Obrigada!

Ele sorriu para ela. Pensou que, afinal, finalmente tinha feito algo que valesse a pena ser lembrado.

─Não tem de quê. ─ele respondeu, retribuindo o aperto na mão dela com firmeza. ─Agora acho que você deve ir dormir. ─acenou com a cabeça para dentro da caverna, na direção de Chii. Taty a enrolara com o manto ainda um tanto molhado e a deitara perto da fogueira para aquecê-la. No entanto, ela ainda tremia. ─Fará bem a vocês se dormirem juntas. Eu ficarei aqui, vigiando. ─ele desceu os olhos pelas roupas dela e disse, envergonhado: ─Você deveria tirar essas roupas. ─e nesse instante ela própria enrubesceu. Ele falou depressa, procurando ser mais claro: ─Digo... essas roupas, assim... molhadas... você pode acabar adoecendo por que... ─ele apontou a capa que deixara dentro da caverna com um braço trêmulo. Era a capa dos Sentinelas que ele antes trazia presa aos ombros. ─Cubra-se com ela. Já deve estar seca o bastante para que vocês se aqueçam com ela perto do fogo.

Taty olhou para ele com admiração, mas ainda com as maçãs do rosto vermelhas.

─Obrigada, de novo. Mas não monte guarda aqui a noite toda, entendeu?

─Mas a Horda...

─Esqueça-os. ─ela afirmou e parecendo naquele momento muito mais segura que momentos antes. ─ Estão longe. Se você se concentrar um pouco poderá sentir a Essência Sombria deles bem distante, naquela direção.

Ele entendeu o que ela dizia e acenou com a cabeça. Taty se levantou e ele voltou os olhos para a escuridão de fora. Ouvia o som das roupas encharcadas dela sendo jogadas ao chão e ele lutou contra a tentação de se virar.

─Ainda não sei seu nome, Sentinela. ─ela disse, já deitada ao lado de Chii. Abraçava-a com a capa dele. ─Não espera que eu lhe chame de Sentinela todo o tempo, não é?

─Ah, verdade, não me apresentei! ─ele exclamou, ainda olhando para fora. ─Eu sou Gan Shiro, muito prazer!

─Hum... eu sou Taty Yue Patricius. ─ela disse, sem interesse. ─Procure dormir, está bem?

─Está certo. Eu vou tentar.

Mas quase que imediatamente, caiu no sono, ainda apoiado sobre a Espada de Cristal.

Ele teve um sonho que já se repetira antes. Ele era de novo uma criança na cidade de Vilma, no extremo norte de Amarante, em meio à cadeia de montanhas. As condições de vida lá eram difíceis. O inverno era muito mais rigoroso e a neve caía o ano todo praticamente. Naquela época, Shiro já não tinha uma família; como pai e mentor ele tinha Yetti, um homem que o encontrara ainda pequeno enrolado num cobertor vagabundo e abandonado em uma caverna de ursos para morrer. Depois de salvar o menino, ele o criou através de treinamentos violentos para fazer dele alguém capaz de sobreviver por sua própria conta.

No sonho, Shiro voltava aos seus oito anos e empunhava uma faca pequena. Yetti gritava com ele:

─Vamos garoto! Eu quero ir embora logo jantar! Eu estou faminto!

─Já entendi seu velho! ─ele gritou de volta e apreciou sua presa. Diante dele estava um urso marrom enorme, com quase quatro metros quando se levantava. Agora, porém, o animal estava caído, se arrastando com sangue a escorrer das patas traseiras. ─Eu estou acabando! ─o urso tentava se afastar do garoto. Era uma visão particularmente bizarra, pois o contrário seria muito mais natural.

Ele correu na direção do animal que rugia para ele. As unhas imensas do urso vieram na direção de seu rosto, mas ele se desviou, fazendo um novo talho no bicho. O sangue escorreu do pescoço dele e Shiro rapidamente subiu em suas costas, cravando a faca no alto de seu crânio. O urso bambeou por um instante e tombou morto no gelo.

─Ah! Ai está! ─ele gritou, gargalhando. ─Agora venha me ajudar seu velho! Isso é grande demais para eu carregar sozinho!

Mas agora Yetti não estava mais lá e ele sentiu o frio soprar sobre ele com força. Nem o urso morto estava ali mais ao seu lado. A faca congelava em sua mão e ele gritou para o ar frio:

─Yetti! Onde está você?! Yetti!!!

E o frio ficou ainda mais insuportável, ainda mais terrível e ele gritou de medo, assustado com o rugido que lhe respondia através do vento. Um rugido terrível que ecoava reverberando pelas montanhas e estremecendo tudo ao redor.

─Não... Yetti! YETTI!!!

Era de manhã quando Chii despertou. Ela sentia o calor de Taty nela e se desvencilhou lentamente do abraço da Guardiã. Percebeu que o rosto dela ainda tinha as marcas da luta e Chii sentiu um aperto no coração.

─Foi real. ─ela pensou, triste. ─Aconteceu de verdade. Tudo.

Ela ainda estava deitada quando sentiu o sol no rosto. A chuva de antes acabara e agora o sol nascia forte e brilhante, como uma Essência de Fada. Quando voltou o rosto para fora, no entanto, perdeu o fôlego completamente e começou a bater com as mãos na amiga, tentando acordá-la. Ela despertou sobressaltada, fechando o punho com força e se levantando depressa. A capa caiu por cima de Chii e ela ficou ali, nua, de frente para a entrada da caverna onde Shiro estava.

─Ah, minha nossa! ─ela disse e foram as únicas palavras que conseguiu pronunciar.

─Taty... ─a princesa Chii começou a dizer, confusa e assustada. ─O que está aconteceu com ele?!

Na entrada da caverna, Gan Shiro continuava sentado, voltado para fora e seu corpo estava congelado.

Absolutamente, congelado.

Como em um caixão de gelo.

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