Pergunte ao homem cego
O quê diabos ele viu afinal
Ura, o Golem, estava diante do Primeiro General Rogi, na antiga sala do trono do Imperador Vermelho. Ele tinha ataduras em suas feridas; o corte no rosto e a perfuração no abdômen que Gan Shiro provocara com a Espada de Cristal. Há muitos anos ele não sabia o significado da dor, a sensação de ser cortado, de ser atingido com força suficiente para fazê-lo perder os sentidos e entrar naquele frenesi estúpido e desnecessário.
Agora, ele sentia não apenas a dor física, como também sentia seu orgulho sendo esmigalhado, completamente fulminado, pelo olhar duro de Rogi.
─Sua Essência está diferente, Golem ─disse o General, no mesmo tom calmo e frio de sempre. ─Alguma coisa aconteceu?
Ura apertava os punhos com força. Atrás dele, Ryujin, o Samurai, aguardava em silêncio. Quando falou, a voz de Ura soou ainda imponente e firme:
─Nada que eu não possa resolver sozinho.
O Primeiro General sorriu.
─Engraçado dizer isso, Ura. Eu jamais vi você em estado tão lamentável antes.
─Como eu disse senhor, não é nada que eu não possa dar um jeito.
─Verdade? ─a pergunta tinha um tom de ironia evidente. ─Fico satisfeito por saber. ─pausa. Os olhos dele pareciam enxergar além dos olhos de Ura, ainda mais profundamente. Ele continuou: ─Conte-me sobre suas feridas. Como elas foram causadas?
Ura engoliu seco. Rogi viu aquele gesto e achou engraçado de novo, sorrindo.
─A Espada de Cristal lhe feriu assim, certo? ─ele indagou e em um piscar de olhos, estava ele a frente de Ura. O Primeiro General era mais baixo, mas proporcionalmente mais ameaçador. ─O poder dela foi capaz disso, estou certo?
─Sim... ─ele respondeu, mas a voz falhou imediatamente. O Primeiro General sorria e isso era desconcertante até mesmo para ele. Com esforço, terminou a frase: ─Senhor...
Rogi então caminhou em torno dele, a mão esquerda no queixo, os olhos voltados para baixo. Pensativo, ele deu uma volta completa em torno do enorme guerreiro e ficando novamente de frente para ele, disse:
─Então agora temos um problema que não consigo solucionar, Ura.
─Senhor? ─Ura perguntou, sem entender.
─O comandante da guarda do castelo era o detentor da Espada de Cristal. Assim, se essas feridas foram feitas pela espada, então significa que ele foi quem o feriu, correto?
Ura estacou. Ele perguntava sobre o homem que carregava aquela espada brilhante que congelava tudo a sua volta. A resposta, a verdadeira resposta, era que ele não conseguira nem sequer fazer um arranhão em Ura com aquela espada. Não, o comandante da guarda do castelo dos Hollerbach não fora forte o bastante para tal feito.
Mas aquele Sentinela maldito, ele conseguiu.
Duas vezes ainda.
─E se o comandante foi encontrado morto, enquanto você está aqui, vivo, bem na minha frente, significa então que você venceu a batalha. Isso que eu digo está correto, Ura?
Ele balançou a cabeça, desconsertado, sem saber onde aquela conversa estava indo.
─Então, me responda uma coisa apenas ─e nesse instante, com uma força descomunal até mesmo para um membro da Horda, Rogi o agarrou pelo pescoço. Tão intenso foi aquele aperto, que Ura sentiu as pernas amolecerem e ele desfaleceu, caindo de joelhos diante do general. ─Onde diabos está aquela espada?
Naquele momento as palavras pareceram sumir de sua mente. Ele apenas sentia o aperto na garganta se tornar pouco a pouco mais forte. Ele queria responder, queria contar do Sentinela, mas a mão do general continuava firme, implacável em seu pescoço.
─Conte-me seu miserável de uma figa! ─Rogi gritou, arremessando Ura como se ele fosse um mero boneco de pano em direção da parede do outro lado do salão. Quando ele se chocou contra a pedra e se estatelou no chão, o general já pisava em seu peito com força, pressionando seus pulmões e tirando-lhe o fôlego. ─Responda-me seu verme! Responda-me ou eu garanto que vou lhe causar tanta dor que desejará ter morrido nas mãos daquele comandante fajuto!
Ele queria a resposta, mas não dava chance para que Ura falasse. O pé sobre o peito dele impedia-o de respirar e assim, era simplesmente impossível ele falar qualquer coisa.
─Seja Shuyo, uma Fee ou mesmo um representante divino de qualquer tipo, nada me fará desistir daquela espada! Eu a terei mesmo que tenha de esfolar a sua pele, os seus ossos e até mesmo a sua alma! ─chutou o peito dele e Ura cuspiu sangue imediatamente. ─Onde está a maldita espada?!
Agora ele se agachava, agarrando os cabelos de Ura com força. A falta de pressão no pescoço e no peito permitiu que ele aspirasse ar com força e com um desespero claro na voz, ele gritou:
─Sentinela!
─O quê?
Ura arfava. As mãos do general ainda segurando-o pelos cabelos. Disse novamente:
─Sentinela! Senhor... um... Sentinela!
─De quê infernos está falando, maldito?!
─Um Sentinela senhor... o comandante o protegeu durante a batalha... e depois... ele me enfrentou com a tal espada... ─tossiu duas vezes, fazendo Rogi se afastar. O sangue verteu pela sua boca em dois jorros viscosos que se espalharam pelo chão. ─A rainha Julien o ajudou a escapar também... através do portal...
Rogi explodiu de ira, emitindo um grito tão brutal que ecoando pelos corredores fez tremer dezenas de soldados que ainda vasculhavam as muitas salas do castelo. A fúria dele, porém, cessou de repente.
─Um sentinela, você diz?
─Sim, senhor! Ele tinha kanjis Shuyo no pescoço, assim como a guardiã da princesa Elfa!
Rogi ponderou por um instante, retornando em direção ao trono. Aquilo ainda não era a resposta que ele queria ouvir, mas era alguma coisa. Ele esperava de verdade que Ura estivesse com a espada, talvez escondida em algum lugar como troféu pela morte do comandante, o que seria muito melhor do que ter de procurar o maldito sentinela e a espada por sabe-se lá onde.
─Os portais da Torre do Cego podem levar a praticamente qualquer lugar de Disturbed. ─ele sussurrou para si próprio. ─Talvez até mesmo qualquer lugar do Nirvana...
Agora, Ryujin tomou a frente e com uma mesura, pediu a palavra. O general permitiu que ele falasse.
─Senhor, existe um lugar para onde a princesa e seus protetores podem ter sido enviados. ─ele olhou por entre as mechas de cabelo escuro que escorriam pela frente de sua testa quadrada, encarando o general que o olhava diretamente. ─No passado, durante o Exílio das Fee, muitas se esconderam nas florestas a noroeste daqui. Conheço histórias sobre aquele lugar e uma delas é sobre uma rainha Fee, uma que não abandonou o universo de Nirvana e aqui permaneceu. ─ele olhou para Ura, que se levantava aos poucos. O sangue já não vertia pela boca dele, mas a ferida em seu abdômen voltara a sangrar. ─A Fada Alice Raio-de-Sol, meu senhor. Ela era muito próxima de Julien Hollerbach e sendo a última Fee em Disturbed, seria apropriado que a rainha lhe enviasse a filha e também a Espada de Cristal. ─ele fez mais uma mesura e se afastou para o lugar onde estava antes.
Rogi ponderou longamente. Era uma idéia interessante, lembrando que aquelas florestas eram habitadas pelos Griffon, o povo maldito que ajudou o príncipe Rothaarig a desafiar e vencer os Nove tempos atrás. Mesmo que a espada não esteja com os Griffon, ainda assim seria muito prazeroso ver aquelas terras queimando, com os Grifos sendo dilacerados pelos monstros da Horda sem piedade, as mulheres tentando buscar abrigo para seus filhos, enquanto tolos guerreiros procuravam lutar inutilmente.
Tudo em nome daqueles que o príncipe Rothaarig derrotou no passado.
E também em nome do Um, que ainda vive em Iowa.
─Está certo, Ryujin ─ele disse, finalmente. Sorria mais uma vez, como antes sorria quando encará-la Ura inicialmente. ─Vá até as florestas e procure por aquela espada. Mate qualquer coisa que estiver pelo caminho, queime tudo o que for que você encontre. Traga-me a Espada de Cristal.
Ryujin fez uma mesura em agradecimento.
─É uma honra servi-lo, senhor Primeiro General.
─Leve Ura com você Ryujin. Eu imagino que ele tenha contas a acertar com o tal sentinela que o feriu com a Espada de Cristal.
─Sim, senhor ─Ryujin disse, novamente se curvando ligeiramente. Ele não era chamado de Samurai por menos. A lealdade e o respeito dele derivavam dos guerreiros samurais de Iowa. ─Ele terá sua chance de vingança.
─Obrigado... senhor. ─Ura disse, sentindo ainda o gosto de sangue na boca.
Os dois começaram a sair em direção do corredor, mas Ura parou antes da porta e voltando-se para o general, indagou:
─O que fazemos com a guardiã e a princesa, senhor?
Rogi sorria ainda, pensando na espada. Só a idéia de tal poder estar próximo, mesmo que em hipótese, era suficiente para deixá-lo em êxtase. Respondeu com sua voz trêmula pela ansiedade.
─Façam o que vocês quiserem.
O sorriso em sua face era o mais louco que poderia se projetar no rosto de um homem.
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