sábado, 30 de julho de 2011

06

O Reino do Aço

Prensa a espada, ferreiro
Afie a lâmina
Corte a carne
Sirva-me.
Estou faminto!

O Rei Callaz assistia a outro teste para pilotos quando a Horda atravessou o céu e atacou o castelo dos Hollerbach. Não era preciso muito para saber o que estava acontecendo, uma vez que a pressão do próprio ar se tornara mais espessa e sufocante quando tantos seres com Essência Sombria chegam ao Nirvana.

E novamente, Callaz sentiu que o momento havia chegado para testar seu coração furioso.

Hagane iria a uma guerra, defender o próprio solo e os próprios costumes.

─Preparem as máquinas ─ele ordenou tranquilamente, apesar do arrepio gélido que lhe subia pela espinha. ─Partam e protejam a passagem da Grande Cordilheira.

─Senhor? ─um soldado perguntou, boquiaberto. ─Partir para a passagem?

─Os demônios virão a nós porque sabem que estamos esperando por eles. ─ele retrucou, firme. ─Vamos então esperá-los com o melhor que tivermos e mostrar a eles que Hagane não se curva.

O soldado não entendia, mas sabia muito bem que deveria acatar a ordem de seu Rei. Ele entenderia depois, quando visse Milla Fong e suas tropas aproximarem-se pelas planícies de Rasen, dois dias depois, e tremeria de medo.

─Façam com que todos saibam que o aço não se parte antes de cortá-los! ─o Rei gritou, enquanto o soldado corria para dentro. Da sacada onde estava, Callaz observava o vazio do céu onde antes estrelas brilhavam. Agora, existia apenas um buraco escuro, pois era isso que a passagem de Iowa para o Nirvana fazia. Criava um buraco negro.

Um Deserto Escuro.

Depois que o soldado partiu, Callaz deixou os soldados que faziam seus testes nas máquinas e desceu as escadarias do palácio sozinho. Caminhou pelos corredores e adentrou portas metálicas pesadas protegidas pelo que chamavam de Paladinos; soldados que vestiam armaduras incríveis que drenavam sua Essência e a do ambiente e a convertia em uma energia incrível. Demorou algum tempo até que essas armaduras funcionassem corretamente (entenda, sem matar os soldados que as vestiam.), mas agora tudo corria de acordo com o esperado.

Se coisas assim já existissem na época da Grande Guerra o próprio Callaz teria visto o Imperador Vermelho cair diante de suas tropas.

No subterrâneo de seu castelo o Rei contava com um laboratório espetacular. As instalações continham todo tipo de parafernália “gnômica”; de tubos de ensaio onde a Essência parecia ferver feito água, a armaduras imensas que serviam perfeitamente para vestir um Robô-Guerrilheiro. Ainda havia por todos os lados armas, algumas já completamente projetadas, outras em fase teste, e também soldados que passavam por exames de coleta de sangue, urina e Essência. Os Klein trabalhavam a todo vapor formulando novas teorias e realizando testes (alguns deles perigosos demais para que alguém de fora seja informado), descobrindo e redescobrindo coisas que até eu mesmo diria serem absurdas de se conceber.

Rei Callaz adentrou ao laboratório e ignorou todos os cumprimentos polidos e perguntas ansiosas que recebera, encaminhando-se diretamente a um Klein específico. A figura baixa e de jaleco branco comprido, com os cabelos verdes arrepiados e que se estendiam pelas costas abaixo era engraçada de se admirar, mas não para um Rei ansioso pelos resultados daquelas pesquisas. Para Callaz, a única gargalhada que pretendia soltar seria quando Hagane esmagasse qualquer inimigo que ousasse se erguer.

─Majestade! ─o Klein cumprimentou, sorrindo seu riso de criança. Se não fosse a barba que crescia em seu queixo, provavelmente seria mesmo tomado como uma criança. ─É um prazer encontrá-lo mais uma vez!

─Poupe disso, Kurochin ─ele retrucou, amargo. ─Sabe muito bem que não venho aqui para ser agradável e nem espero que o senhor o seja.

─Eu compreendo, meu senhor ─Kurochin disse, ainda sem perder o sorriso sincero. ─O senhor só vem aqui por uma única razão.

─Se é assim, conte-me o que quero saber.

Kurochin sorriu ainda mais, mesmo parecendo impossível que aquele pequeno ser pudesse abrir um sorriso ainda maior.

─Pois bem! O senhor deseja saber alguma novidade sobre o projeto! Venha comigo!

Os dois puseram-se a andar. O Gnomo era realmente uma figura pequena e, trajando aquele jaleco branco, de fato bastante cômica. Ele media apenas 90 centímetros e caminhava como que saltitando. Se ele segurasse uma flauta ou um pequeno bandolim, poderia muito bem ser tratado como um dos lendários Saltimbancos de Licht.

Mas não existiam mais Saltimbancos, pois o Imperador Vermelho matou há todos os tempos atrás.

─O senhor ficará realmente satisfeito, meu Rei! ─Kurochin falava, andando alguns passos a frente de Callaz. ─As coisas estão ficando impressionantes agora!

─E o quê você conseguiu de tão impressionante agora?

Kurochin o olhou, agora caminhando de costas. Os seus grandes olhos verde-esmeralda raiavam maravilhosamente.

─A Essência está despertando, senhor!

Rei Callaz não manifestou reação. O Gnomo interpretou que ele talvez não tivesse entendido. Disse então:

─Veja o senhor mesmo!

E quando ele estendeu a pequena mão e ordenou com uma voz aguda e elevada para que os outros Klein abrissem as cortinas Callaz finalmente compreendeu. E como era esperado, ficou boquiaberto.

Atrás da cortina estava um imenso tubo de vidro. Cerca de dez pequenos cabos metálicos entravam naquela estrutura, ligando-a a uma espécie de condensador de Essência ambiente (a Essência presente no próprio ar). Outros dois cabos mais largos saiam pela parte superior da estrutura de vidro e se ligavam ao experimento que havia em seu interior. O experimento, um homem, estava de olhos fechados, com uma máscara que lhe supria com oxigênio. Ele estava nu, suspenso pelos cabos no interior do tubo e imerso em água.

─Mas... ─o Rei começou a dizer, mas não chegou a terminar a frase.

─Ontem ele era só um garoto, Majestade ─Kurochin disse, exalando uma satisfação insana em cada palavra. ─Mas veja como a Essência está trabalhando nele agora!

Callaz via, mas não acreditava. No dia anterior, aquele experimento era um garoto de doze anos. Agora, ele estava diante de um homem de pelo menos vinte.

─A água do tubo também possui uma Essência poderosa! Muito natural, pois é água do Rio da Cascata Celeste, do Vale Verde.

─Ele está vivo?

─Claro senhor e o mais importante ─Kurochin fez uma pausa, caminhando para mais perto do tubo imenso. Virou-se para o Rei completando sua frase, enquanto o experimento abria os olhos repentinamente. ─Está pronto para o teste!

O primeiro teste, do novo soldado.

─O Projeto Gin ─sussurrou o Rei e nesse momento ele pareceu ficar sem fôlego.

E de fato, ele estava.

05

Uma Lição de Guerra
Certas vezes
Somente o sangue
Apazígua

Existe em Disturbed, habitando os Vales Verdes perto da Grande Cordilheira, uma raça sem o menor poderio militar. Seres que poderiam ser esmagados facilmente, feito formigas, por qualquer um que tentasse tomar suas terras maravilhosas. Esses são os Klein, ou comumente chamados, os Gnomos.

Apesar de tudo isso apontar para outra direção, afirmo que muito se engana aquele que acredita que os Klein são seres sem importância na história de Disturbed.

O Rei Callaz Ferris, governante de Hagane, enxergou nesses pequenos Gnomos uma utilidade que vai muito além do simples e vulgar pensamento comum.

Pois apesar de não terem a menor força, os Klein dispõem de uma inteligência surpreendente, tão aguda quanto à de muitos Magos de Círculos elevados e com a inteligência deles, aliada a riqueza enorme do reino, Hagane prosperou em um caminho onde nenhuma outra sociedade de Disturbed ainda havia trilhado caminho.

A tecnologia que usa Essência como fonte de energia.

Durante cinco anos os Klein e Hagane prosperaram e criaram todo tipo de invenção que visava facilitar a vida da população; tochas foram substituídas por lâmpadas de luz; água passou a chegar às muitas casas distribuída através de dutos e canos; escolas de leitura e escrita foram abertas por toda a capital do reino e outras mais pelos campos isolados; novas culturas do solo e de animais foram desenvolvidas e isso tudo foi apenas o começo de um plano elaborado pelo regente, Callaz Ferris. A população estava a seus pés, o louvando como o grande homem que era.

Mas então, vieram os Nove, caindo através dos céus e chegando trazendo morte e desespero.

Sem delongas, digo que Hagane sofreu bastante nessa época. O povo de Hagane jamais havia lutado. Nunca houve necessidade de que homens empunhassem armas e partissem para a peleja, defendessem suas casas, suas terras e suas vidas.

Homens que sempre conheceram a paz acabam vendo a morte mais rápido do quê todos os demais.

No fim, quando o príncipe Rothaarig venceu os Nove e ascendeu ao trono de Amarante no lugar de Alberto Patricius, até então o Rei “de Vermelho”, Hagane estava devastada e seu povo trucidado, massacrado, espalhado aos pedaços pelas ruas e campos a leste da Grande Cordilheira. A morte mais que brutal (e que por ora não ouso contar) da esposa do Rei Callaz criou um vazio no coração do pobre homem.

Mas muito se engana também aquele que acreditar que ele permaneceu quebrado.

Com algo muito similar ao ódio fervilhando em sua mente e incendiando o buraco de dor que ficara em seu coração, o Rei Callaz convocou o seu povo para reconstruir suas casas, replantarem em suas terras e criarem ainda mais animais e fazerem mais filhos para perpetuarem seus nomes através dos tempos, mas dessa vez com mais força e mais resistência. Como montanhas intransponíveis.

Feitas de puro aço.

Mas não somente escolas e não somente luzes e também não somente dutos de água eles iriam reconstruir; Hagane agora também desenvolvia meios de guerrear que nenhum reino possuía ou conseguiria criar. Desenvolveram aquilo que Callaz considerou o maior advento da história, os Robôs-Guerrilheiros. Máquinas imensas que podem ser pilotadas por um soldado treinado, carregadas com armas potentes e também imensas. O mais impressionante nessas máquinas é que a Essência ambiente é absorvida e usada como energia para suprir seu funcionamento. Além disso, os Robôs-Guerrilheiros se alimentam também da Essência de seus pilotos através de conexões que atravessam a carne e se fixam no corpo desses soldados. Uma honraria fascinante para todos em Hagane.

Passou-se sete anos até o início da Grande Guerra, quando Amarante avançou contra os demais reinos sob o estandarte do Imperador Vermelho, antigo príncipe Rothaarig. As máquinas de Hagane se dispuseram a lutar nas planícies de Rasen defendendo a única rota que permitia a entrada no reino contra as forças inimigas. Era o teste que Callaz esperava para seu coração de guerreiro que ansiava por uma chance de provar que o aço era forte e inquebrável.

Mas a Torre do Cego é uma vantagem que quebra até mesmo o aço mais bem temperado.

E assim foi com Hagane, quando mais tropas de Amarante surgiram do outro lado das cordilheiras, emboscando soldados e máquinas no meio do conflito nas planícies, devastando todos e a tudo sem deixar ninguém vivo e nada inteiro.

Fosse a Sorte ou o Destino, Callaz não viu seu reino dominado por mais que algumas semanas; o Imperador Vermelho foi morto durante uma batalha épica (e ainda não muito bem contada pelos bardos) contra as forças de Creta, lideradas por Karaku Stier, na Batalha dos Mil Mortos. Com a queda inacreditável dele, as tropas de Amarante se renderam e a Grande Guerra, que durou apenas um mês, mas ceifou a vida de centenas de milhares (outra história também muito mal contada).

A Fada Julien assumiu o controle de Amarante e ordenou que os conflitos, que se estendiam em todas as direções possíveis (e todas sob a bandeira de seu reino) acabassem. Creta aceitou a rendição, mas não exigiu nenhum tributo da Rainha Fee; consideraram que a devastação da terra de Licht era conseqüência suficiente para um povo que se aliou a um homem tão demoníaco quanto os Nove.

Mas Hagane, que mais uma vez sucumbira ante a mão de adversários mais poderosos, não se satisfez. O Rei Callaz continuou com o fogo a queimar seu coração ferido, nutrindo uma perigosa mágoa quanto ao reino de Amarante e seu povo. Disposto a alcançar o poderio militar que realmente precisava para enfrentar de frente qualquer inimigo, fosse vindo do Iowa, Amarante ou mesmo Creta, Callaz imediatamente começou a buscar por aquilo que as lendas contavam ser a Essência mais poderosa do mundo. Com esse poder, suas máquinas e seus soldados poderiam vencer qualquer desafio, qualquer adversário.

E talvez, quem sabe, estender o domínio de Hagane para além das Grandes Cordilheiras.

E então começou a Caça aos Shuyo.

sábado, 23 de julho de 2011

04

Um Desejo Contado ao Vento

E no fim,
Duas meninas se abraçaram
E uma chorou de tristeza
Enquanto a outra chorava de fúria

─Eu vou lhe contar uma coisa monstro ─a Rainha disse. A voz tão firme como se estivesse prestes a repreender uma criança travessa. ─Você não sabe nada sobre o que é poder!

De ambos os lados da Rainha Julien Hollerbach surgiram seres de luz. Taty observou deslumbrada quando percebeu se tratar dos Paladinos, os espíritos guardiães da Rainha do povo Fee.

─As fadas... ─Chii gemeu, baixinho.

E aqui, escrevo “fadas” com letra minúscula, pois essa definição a princesa empregou pensando, por um instante típico de sua mente infantil, nos contos que ouvia antes de dormir. Bem podem ser verdadeiros alguns desses contos (coisa que de fato são, em Amarante), mas para ela, criança pura e ingênua, tudo não passava de bonitas histórias de ninar.

Ura gargalhou diante daquilo e avançou contra a Rainha. Os Paladinos, um homem e uma mulher com três pares de asas e armados com o que as lendas chamavam de Bastões Celestes, o cercaram, envolvendo-o em um círculo de runas feito de pura luz. Julien permaneceu imóvel a frente dele. Os olhos reluzindo fantasmagoricamente.

─Eu... ─ela disse pausadamente, como se declarasse uma punição a ele. 
─Destituo você de seu vulgo poder!

E a luz entrou em seu corpo pedregoso causando muita dor. Os gritos horríveis de Ura fizeram a menina Chii tapar os ouvidos. O corpo dele voltou a se contorcer e encolher, a pele deixou de ser rígida e tornou-se alva novamente. Ele retornou a sua forma humana, visivelmente exausto, caindo de joelhos diante da rainha.

─Meu poder... ─ele balbuciou, incrédulo. ─Minha Forma Macabra...

─Perdida ─ela respondeu. Os Paladinos desapareceram de vez. ─E para sempre. Esse poder maléfico você jamais terá novamente.

Ele rangeu os dentes, furioso. Pela primeira vez, a dor tomava-lhe o corpo completamente.

Julien se afastou depressa, correndo de volta para a torre. O portal estava aberto completamente, mas Taty ainda não o atravessara com Chii.

─O quê está fazendo aqui ainda?!

─Majestade... ─Taty disse, obviamente surpresa. ─A senhora o derrotou! Ele está...

─Ele ainda tem o poder de sua própria Essência Taty! Ele não é um adversário que qualquer um de nós possa vencer! A dor que sente não o deterá!

─Mamãe! ─Chii chamou, abraçando-a.

Taty olhou para fora, ainda absorta e Shiro disse:

─Sai daqui... Ele... Ainda é forte demais... Mesmo nesse estado...

E Taty viu as chamas explodirem do corpo dele mais uma vez, enquanto gritava furioso. Ura se levantou, parecendo-se com uma besta do inferno de olhos flamejantes e começou a correr na direção da torre. Agora, ele não era mais o enorme e pedregoso monstro de antes; era um homem alucinado envolto em chamas que pareciam derreter sua própria carne.

─MAMÃE!!! ─Chii gritou ao vê-lo, desesperada ante tal monstro. ─Ele está vindo, mamãe!!!

Julien fechou as portas e Shiro ergueu a mão direita. Ele não sabia exatamente o que estava fazendo até enxergar o gelo cobrir as portas completamente. Uma pancada violenta veio de fora e ele gritou para elas:

─Eu não segurarei muito tempo. ─o gelo partiu-se enquanto o Sentinela esforçava-se para manter sua Essência ativa. Era um esforço doloroso. Sangue escorria de seus lábios, de suas narinas e ele sentia que o peito parecia se inundar também. Os sentidos pareciam prestes a sumir.

─Mamãe!!! ─a princesa Chii gritou no instante em que a porta tremeu uma segunda vez.

─Majestade ─Taty gritou. ─Temos de ir! Esse monstro não pode ser capaz de nos seguir através do portal depois que ele se fechar!

─Não posso confiar nisso, Taty! Pegue Chii e fuja logo daqui!

─Não, mamãe! Eu não irei sem você!

Julie abraçou a filha. Ela sentia o coração da menina batendo fortemente e as lágrimas dela caiam sobre seu ombro. Ela apertou o abraço mais ainda, dizendo:

─Eu amo você, meu bem!

─Mamãe!!! ─ela balbuciou em meio ao choro descontrolado.

─Não se esqueça que eu amei você até o fim!

Chii arregalou os olhos quando percebeu o que ela ia fazer, mas não teve tempo de reagir. A Rainha a empurrou na direção do portal aberto enquanto ela gritava. Julien ouviu pela última vez a filha chamá-la. Ela atravessou o portal e desapareceu.

─Taty ─Julien gritou. Os olhos firmes, mas completamente úmidos. ─Cuide dela por mim!

Taty teve um momento de hesitação, mas não havia mais jeito. Ela atravessou correndo o portal de olhos bem fechados. A sensação foi como entrar em um lago de águas frias. Ela caiu do outro lado sobre um campo gramado encharcado. A chuva caia com força e trovões riscavam o céu. Não havia um portal atrás dela. Havia apenas a paisagem, uma planície que se estendia na noite escura. Chii estava andando de um lado para o outro, gritando para a escuridão, em prantos.

─Chii ─Taty chamou, desolada. ─Chii!!!

Ela correu e a abraçou. Primeiramente, a menina tentou se desvencilhar e correr para qualquer lugar, mas depois, ela cedeu, caindo ao chão, na mais profunda tristeza de sua vida. Taty não pôde mais suportar e caiu em prantos também. 

Tudo, absolutamente tudo, havia acabado.

Escutou-se um baque então. Algo havia caído ao lado delas. Taty olhou assustada para o lado, mas o que viu foi o Sentinela caído, desmaiado. A Espada de Cristal segura firmemente na mão direita dele.

─Mamãe!!! ─Chii gritou de repente para o vento. Ela esperou ver a mãe surgindo do nada também. Chamou mais uma vez, a garganta rasgando de dor pela força do grito. Ela gritou novamente: ─Mamãe onde você está?!

Ficaram os três ali no campo sendo encharcados pela chuvarada. Shiro despertou levemente e Taty começou a questioná-lo imediatamente. Ele respondeu a pergunta com uma voz abafada:

─A Rainha... ela... salvou minha vida...

─O quê? O quê aconteceu com minha mãe? ─Chii perguntou em um grito agudo.

─Eu... lamento princesa... ─ele tossiu e sangue caiu sobre a grama. ─Eu não... eu não fui capaz de... protegê-la.

Chii pareceu ficar sem voz. Ela olhava para ele estupefata, sem reação.

─Ela... atirou-me contra o portal...

─O quê...? O quê aconteceu com ela Sentinela? ─Taty perguntou.

A resposta veio, mas não dele. No horizonte, os três puderam ver um pilar de luz prateada rasgar o céu escuro. A imagem reluzente dos Paladinos podia ser vista no meio daquela luz.

─O castelo. Tenho certeza que lá é onde fica...

─A torre... ─Shiro balbuciou.

─Não! ─Chii gritou. ─Não pode ser! Mamãe...

Há muitos quilômetros de onde a Guardiã, o Sentinela e a princesa estavam, uma Fada sorria em meio ao que restava de uma torre do castelo dos Hollerbach. Ela sorria pela certeza de que protegera a filha e evitara que seu destino, tenebrosamente sonhado tantas vezes, se cumprisse. Ela sorria enquanto seu corpo se desintegrava, tornando-se meras partículas de luz que o vento carregava.

No chão, havia um homem. Agora ela era um homem, mas há poucos instantes era um monstro praticamente invencível. Ura sentia a dor atravessar seu corpo de maneira aguda e interminável. O sangue escorria pelo seu corpo, espalhando-se pelo chão de pedra como um rio.

─Maldita... ─ele balbuciou, vertendo sangue pelos lábios. ─Acha... acha que isso... basta...?

A Fada apenas sorriu para ele, dispensando-lhe um olhar resignado, imperturbável. Falou:

─Você não conseguiu. Você não a pegou.

─Eu a pegarei! ─ele gritou, esforçando-se para levantar. ─E você sabe... sabe disso!

─Ela vai pegá-lo ─a Rainha disse, com calma. Agora ela quase toda já havia se desintegrado. ─Você sabe disso agora.

─Sua... Você é só uma Fada morta agora!

Ela continuou a sorrir e nada mais disse, dispensando para o vento apenas um último pensamento, um pedido que esperava se realizar.

E dessa forma, a Rainha Julien Hollerbach, a Rainha Fee, a Fada de Amarante, morreu. Em meio às ruínas que sobraram da Torre do Cego que ela mesma destruiu com sua Essência de luz, Julien dispensou um último desejo ao vento e ele, obedecendo a uma Rainha-Mãe, o levou através dos céus, em meio à fuligem do castelo que queimava, sobre a Horda que matava e tudo destruía. Ela se foi, definitivamente, deixando uma princesa Elfa sob os cuidados de uma Guardiã e, curiosamente, de um Sentinela.

E apesar de eu não dever contar isso, vou abrir uma exceção e dizer para onde Julien Hollerbach ordenou que o vento levasse seu último desejo. Suas palavras voaram através dos céus para o norte, através de uma floresta densa, muitas léguas distante do castelo dos Hollerbach. Seu desejo sobrevoou as tropas inimigas, o Primeiro General e sua comitiva de seis reles soldados miseráveis, o Segundo General e seu lacaio fiel em forma de sombra, em direção do seu destino.

E lá longe, nas florestas do norte, onde a chuva caia forte, quase tão forte quanto as lágrimas da princesa Elfa, Chii Hollerbach, que se abraçava desolada a sua Guardiã e amiga, o desejo de uma Rainha já morta chegou.

E esse desejo impediu que naquela noite a escuridão tomasse o coração de ouro de uma menina que estava prestes a trilhar um novo caminho e construir assim, um novo futuro para si.

Isso porque seu destino era ter morrido naquela noite, dando a Ura, o Golem, sua Essência.

Mas agora, tudo mudou.

03

Cinzas, Gelo e Luz

A chuva se mistura ao sangue
E o sangue se mescla a terra
O sol pode raiar hoje mais cedo
Mas a noite sempre parecerá eterna

A Rainha saiu da torre e seu manto longo e vermelho começou a ondular ao vento. Os cabelos loiros e curtos dançavam também conforme o vento comandava e ela caminhou em direção de Ura. Ele pareceu achar tudo aquilo bastante divertido, pois sorria abertamente. Taty observava o globo. A luz estava se tornando ainda mais intensa, iluminando todo o interior da torre. Ela olhou para fora, vendo Julien chegando próxima de Ura. Ela não demonstrava medo; demonstrava estar mais que decidida quanto ao que fazer naquele momento.

Os dois ficaram frente a frente. A Rainha Julien Hollerbach o encarou nos olhos, firme e sem medo. Ura continuava a sorrir para ela. Era um monstro, mesmo em sua forma humana porque seu olhar assassino era inconfundível.

─Vejo então que a Rainha de Amarante não teme a morte. Será isso porque você sonhou com este momento?

─Infelizmente, eu vi esta cena em minha mente. Vi você tão claramente quanto vejo agora e depois de tanto tempo eu continuo a achar que não tenho nada a temer. Não de você!

Ura agarrou o pescoço dela com a mão direita. Um aperto forte que a sufocou. O olhar dele refletia o dela.

─Pois você deve temer por sua filha, Fada! Pois a Essência dela eu farei questão de devorar bem lentamente! E ela vai sofrer! Ah, ela vai! Lembre-se disso!

Taty teve vontade de levantar-se e correr até eles quando viu Julien ser levantada do chão, mas o globo parara de brilhar. A luz que provinha dele se apagou um instante, mas depois explodiu com força. O globo se despedaçou e diante dela surgiu um portal imenso que se estendia por toda a torre, do chão ao teto, de uma parede a outra. Era uma visão única.

─Hora de ir ─ela disse a si mesma e virou-se para a princesa. Sentiu um choque e as pernas bambearam quando viu que o manto estava vazio. Olhou para fora e em total desespero viu a menina correndo na direção da rainha através da ponte.

─Mamãe!!! ─ela gritou, correndo com os longos cabelos loiros esvoaçando no vento. ─Mamãe!!! ─um rosto tão jovem, parecido com o da rainha Julien em muitos traços, manchado por lágrimas e cinzas. ─Solte-a!!! Solte a minha mãe!!!

Ura olhou por cima do ombro da Rainha. Viu a menina correndo na direção deles aos prantos e sorriu. Jogou Julien no chão com violência e estendeu a outra mão na direção de Chii. Ela arregalou os olhos encharcados e gritou de pavor.

Mas ele não a alcançou.

Outro grito cortou a noite e foi Ura quem se surpreendeu quando se virou e viu Shiro avançar contra ele, a espada radiante em mãos, desferindo um golpe formidável contra seu rosto. A lâmina se partiu, caindo metros atrás dele, mas pela primeira vez um corte surgiu no rosto do inimigo. O sangue escorreu do ferimento pouco abaixo dos olhos de Ura e um grito de dor saiu de sua garganta. 

Mesmo com a espada quebrada, Shiro desferiu outro golpe, mas desta vez Ura o agarrou com ambos os braços em um aperto de quebrar os ossos. A dor do aperto o fez gritar alto de modo que sua voz chegou límpida aos ouvidos de Taty. 

Ela correu para fora, esquecendo-se do portal.

─Você deveria ter ficado onde eu te deixei moleque! ─Ura berrava. O sangue escorria de sua ferida. ─Agora eu vou esmagar você como o verme que é! Maldito!!!

A Rainha Julien agarrou a filha em meio aquele terror e correu em direção à entrada da torre. As fuligens das queimadas se espalhavam pelo céu, caindo sobre elas como neve. Taty vinha correndo até ela. A filha chorava em seus braços, em um total desespero.

─Taty!!! ─Julien gritou para ela. Estavam juntas de novo, mas desta vez foi ela quem colocou Chii nos braços da guardiã. ─Pegue-a! Leve-a para dentro!

Chii tentou se desvencilhar dela, gritando, chamando pela mãe. Taty a segurou e correu com ela para dentro da torre. O portal ainda estava aberto, revelando campos escuros de grama. Elas podiam sentir o cheiro da chuva, sentir os ventos na pele.

E também podiam ouvir os gritos de Shiro.

Ura o estava partindo. O aperto se tornava ainda mais forte, mais torturante. A espada partida caiu no chão e o Sentinela parecia prestes a perder os sentidos.

─Eu matei todos que se colocaram no meu caminho e agora, que tudo estava em minhas mãos, você acreditou mesmo que um Sentinela medíocre poderia me impedir?!

Os olhos de Shiro se fecharam. O corpo dele ficou mole de repente. O aperto continuava, mas ele não sentia mais nada.

Sentia outra coisa agora.

─Que frio ─ele pensou. ─Ficou tão frio, de repente. Meu sangue, o sangue que escorre de mim parece congelado. Eu estou... morrendo?

A voz de Ura chegava a seus ouvidos abafada pelo vento. O cheiro de fumaça se misturava com o cheiro de chuva, de terra úmida. O pranto da princesa chegava a ele também, tão claramente que parecia que a menina estava logo ali, atrás dele.

E ele ouviu também a voz da Rainha. Sentiu um toque em suas costas. Mãos leves e macias de uma Fee, que era o Nome Antigo das Fadas, que lhe emprestava a própria Essência como último recurso.

Abriu os olhos de repente e viu o céu e as cinzas que caiam por sobre eles. Seria tudo muito bonito, se não fosse, na verdade, tudo tão trágico.

Foi então que ele percebeu que seu corpo ainda estava vivo. Que ele, de fato, ainda estava vivo e percebeu, finalmente, o que acontecia.

─O quê diabos...? ─a voz de Ura chegou a seus ouvidos e ele olhou para ele. 

Arregalou os olhos surpreso.

A Essência de Shiro queimava seus braços, congelando-os mais intensamente que antes. A dor era intensa e ele acabou relaxando o aperto, o suficiente para o Sentinela escapar dele, caindo ao chão. A Rainha Julien cambaleou para trás. O brilho de sua Essência abandonando seu corpo mais uma vez.

Shiro pegou o punho da espada quebrada e atacou Ura com violência. Sem notar o que acontecia, a ponta quebrada da Espada de Cristal se refez pouco antes de penetrar na pele dele. A lâmina entrou até a metade em seu abdômen, rasgando o kanji ao meio. O gelo envolveu os dois, mas antes que Shiro sentisse que estava em vantagem, as chamas de Ura explodiram e ele gritou de fúria. A Essência Sombria tomou conta da ponte, se elevando a níveis extraordinários, assumindo rapidamente a Forma Macabra outra vez.

Shiro caiu para trás com a explosão. A espada em mãos, a Essência dele congelando a ponte, erguendo lâminas pontiagudas para todo lado, mas a fúria de Ura não seria contida por isso. Ele avançou brutalmente contra o adversário acertando-o com um soco tão devastador que Shiro sentiu os ossos do lado esquerdo do corpo sendo esmigalhados. Acertou outro golpe contra o peito dele, arremessando o Sentinela na direção da torre.

Shiro rebateu contra o solo duas vezes, chegando arrastando de costas às portas da torre. Estava acabado, a beira da inconsciência. Taty olhou para fora e viu o imenso monstro avultar-se diante da Rainha. Chii ainda se debatia nos braços dela, tentando correr em direção a mãe.

E nesse momento, a Essência de Julien, Rainha de Amarante e Rainha do povo Fee, se acendeu.

02

A Rainha-Mãe

O coração de gelo
O sangue frio
A carne flamejante.
A lâmina.

Shiro não tinha muito mais que metade da altura do monstro, mas era mais ágil que ele. Esquivava-se dos ataques ferozes, evitando uma morte certa. Os seus ataques o acertavam, porém sem efeito. Ura era forte e resistente demais. As chamas e as placas de gelo tomavam o cômodo. O teto parecia prestes a desabar e o piso já se encontrava totalmente rachado. Era questão de tempo até tudo vir a ruir.

─Você é impressionante rapaz! ─o Golem falou. A voz ecoava com um tom grave e assustador. ─Quem diria que um simples Sentinela tivesse tamanha habilidade! Uma pena, para você, que isso não seja o bastante para me vencer!

─Eu não preciso vencer você, monstro ─ele retrucou. A voz firme de sempre. 

─Eu vou impedi-lo de alcançar a princesa, só isso. Já é trabalho o bastante para um Sentinela, eu acho.

Ura deu risada. Era engraçado ver um verme como aquele tentando impedi-lo. Era curioso descobrir que no castelo de Amarante não apenas a rainha e a princesa tinham Essências especiais, mas também uma Guardiã e até um Sentinela pudessem ter a Essência Shuyo em seus corpos.

─Você deve se sentir mais confiante agora não é? ─questionou ele. ─A espada do Comandante lhe dá mais poder? É ela quem lhe ajudou a desenvolver esse potencial latente?

─Eu não sei o que está fazendo com que eu lute dessa forma. Pode ser a espada ─ele fez uma pausa, encarando o brilho na lâmina da arma, ─ou pode ser que eu simplesmente tenha percebido que eu deva fazer isso.

Ura balançou a cabeça, concordando.

─Você conquistou parte do meu respeito jovem. Por isso vou lhe contar a verdade sobre porque não pode me vencer.

─Porque está assumindo sua Forma Macabra e isso aumenta em muito o seu poder?

─Não. Não é apenas por isso garoto. Existe uma razão a mais para você desistir disso tudo.

As chamas tornaram a se apagar. Adentraram a pele rochosa dele. Ura uniu ambas as mãos e uma coisa aconteceu. Shiro sentiu a Essência Sombria dele diminuir de intensidade. Em seguida, a pele de Ura começou a mudar de cor, seu volume e altura começaram a encolher. Boquiaberto, Shiro viu o imenso monstro se tornar um homem comum. Ainda era forte e alto, mas nada comparado à criatura imensa que era anteriormente. Os cabelos eram compridos, castanhos e uma barba espessa cobria a sua face. A expressão em seu rosto não tinha nada daquela brutalidade de antes.

─Isso... é impossível ─balbuciou o jovem, confuso. Ele jamais vira coisa assim antes.

─Entendo sua surpresa rapaz. Muitos imaginam que a Horda seja composta de monstros e mesmo aqueles que sabem a verdade sobre nossas Formas Macabras não conseguem nos imaginar como... humanos.

Mas não era apenas a real forma dele que deixara Shiro perturbado. Cobrindo todo o peito de Ura, em meio à pelugem espessa que ele tinha, brilhando como fogo em brasa, havia um kanji enorme. No abdômen, havia o segundo kanji, também reluzindo como fogo.

─Essa é a razão pela qual você não pode me derrotar rapaz ─Ura disse alto, abrindo ambos os braços. ─Eu sou um Shuyo também!

─Não... não pode ser! ─Ele disse, incrédulo. No entanto, estava diante de seus olhos, brilhando evidentemente no corpo daquele homem os mesmos kanjis que ele tinha no pescoço e Taty nas costas. Os kanjis Shuyo. A representação da Essência mais poderosa do mundo.

─Você acabou de descobrir esse poder garoto, mas eu o domino já há bastante tempo. Isso, e mais a minha Forma Macabra me dão uma vantagem que nem mesmo o seu Comandante pôde derrotar. Uma vantagem que ninguém pode derrotar!

─Você pode ter esse poder, mas não o usa de forma correta. ─dessa vez, a fúria se mostrava em suas palavras. ─O poder não é nada se usado apenas para si próprio. Seu poder não é nada, monstro!

─É uma idéia bela, mas apenas isso. Valores inúteis!

Shiro emitiu um grito brutal, avançando contra ele com a espada em riste, o gelo envolvendo a cada passo o piso em lâminas afiadas e pontiagudas. Ura nem se moveu, esperando o ataque diretamente. A espada veio diretamente contra o peito dele, mas nem chegou a tocá-lo. Shiro viu de olhos arregalados Ura segurar a lâmina com uma mão apenas, sem dificuldade. O gelo envolveu o braço dele, congelando tudo ao redor com violência, mas ele não se abalou. Olhou desinteressado para o rapaz e disse:

─Eu avisei.

O soco foi tão forte que Shiro sentiu o rosto sendo esmagado e a confusão imediata tomou-lhe a mente. Ele foi arremessado contra a última janela inteira, voando através do céu enfumaçado. Chocou-se com uma torre e lá ficou com o corpo cravado na pedra, desacordado, ainda com a espada segura na mão.

E Ura ficou vendo o rapaz sumir de vista, voando pelo céu. Forçou os músculos do braço, estilhaçando o gelo que o envolvia. Saiu daquele lugar caminhando sem pressa. Ele sabia para onde a princesa e sua Guardiã estavam indo.

Sabia pelo cheiro.

A Torre do Cego era ligada ao castelo por uma larga ponte, na direção leste. De lá era possível enxergar as extensas planícies de Amarante que iam até os confins do reino. Depois da Grande Guerra, a própria Rainha Julien Hollerbach ordenou que ela não fosse mais aberta e seu grandioso poder jamais fosse usado novamente.

Mas agora ela precisava descumprir a própria ordem. Quando Taty chegou a ela com a princesa nos braços, a Rainha já havia aberto as portas da torre e começado a se preparar. Ao vê-las, ela tirou as mãos do imenso globo no centro da torre e foi ao encontro da filha e da Guardiã.

─Taty! Por Amarante, o quê houve com vocês?

─Sinto muito a demora, majestade ─ela disse, se desculpando e colocando a princesa Chii nos braços da mãe. ─Um ataque inesperado! Chii está desmaiada apenas! Um golpe pesado contra a porta, mas não foi nada sério!

─Mas você... seu rosto está sangrando!

─Não se preocupe ─ela disse, afastando a mão dela. A ferida se encontrava acima do supercílio esquerdo. Além disso, ela tinha o braço esquerdo levemente queimado. Um filete de sangue insistia em escorrer pelo ombro direito. As costas doíam, mas ela ainda se mantinha de pé, mesmo tremendo. ─O importante é que a princesa e a senhora estão a salvo! A situação está muito crítica! O Comandante da Guarda de Elite... ─tomou fôlego e ao mesmo tempo, coragem para continuar: ─Ele está morto, majestade!

─Morto?! Tem certeza?! ─ela exclamou surpresa. ─Isso então está ainda pior do que imaginei! Eles vieram mesmo com força total contra nós!

─Se os inimigos forem comparáveis ao monstro que enfrentei lá embaixo... temo que nada possamos fazer, majestade! Eu consegui escapar graças a um Sentinela.

─Sentinela? Um Sentinela salvou vocês? ─ela questionou ao levar Chii para dentro da torre.

─Sim, senhora! ─ela finalmente sentou-se, sentindo dor e não fazendo questão de esconder isso. Ao seu lado, Chii ainda estava desmaiada. Tanto melhor, pensou. Não seria agradável que ela visse toda aquela destruição e desespero, nem que escutasse as explosões e os gritos que estavam por toda a parte do castelo. ─O quê vai fazer majestade? Por que estamos aqui?

─A Torre do Cego era usada em tempos de guerra para espionar terras distantes. Era assim que meu marido conseguia posicionar suas tropas e vencer com facilidade as batalhas. A Era Vermelha de Amarante, onde combates por novas terras eram frequentes, só se estabeleceu porque ele sabia como usar o poder dessa torre com maestria.

─Sim, eu já ouvi sobre isso. Mas como isso pode nos ajudar?

─Há outro poder nesse lugar. Outra habilidade da torre que mantivemos em sigilo. Apenas o Imperador sabia e seus principais comandados. ─Julien voltou ao enorme globo e o tocou com ambas as mãos. Uma luz muito brilhante começou a raiar dentro do globo. A Essência dela reluzia como um raio de sol, quente e confortável. Taty sentiu-se bem quase que imediatamente. Ver a Essência da Rainha de tão perto era novidade para ela. Até o rosto da princesa pareceu relaxar. ─Eu posso ativar esse poder e mandá-las para qualquer lugar em Amarante!

Taty arregalou os olhos.

─Verdade? Qualquer lugar?

─Sim, mas isso requer muita energia! Nos tempos de guerra, meu marido se 
utilizava de seis Magos para ativar o globo e despachar as tropas em ataques surpresa contra os inimigos. Eu terei de fazer tudo isso sozinha dessa vez!

─Deixe-me ajudá-la, majestade! ─Taty disse. Ela procurou se levantar, mas as costas doíam bastante. Ela gemeu e então se firmou nas pernas depois de cambalear um pouco.

─Fique quieta e descanse! Você vai precisar de energia para proteger minha criança quando escaparem daqui!

─Mas... a senhora majestade... estará conosco também! Não é?

─Não Taty, não estarei! Depois de enviar vocês para longe, vou garantir que esse lugar seja destruído. A Horda não pode ter um poder desses nas mãos!

─Majestade, pense no que está falando! Se ficar aqui...

─Eu sei! ─ela gritou. As lágrimas já escorriam pelo seu rosto quando ela olhou para Taty diretamente. ─Eu sei exatamente o que vai acontecer comigo! Mas eu não vejo outra solução! Não há outra solução a não ser garantir que você e Chii saiam daqui e fiquem em segurança. Não há outro meio.

─Tem que haver! ─Taty gritou. Agora era ela quem começava a sentir uma angústia amarga no peito. Olhou para Chii, ainda caída e envolta em seu manto e sentiu uma tristeza sem igual no coração. Olhou para a rainha de volta e disse: 
─Ela não pode acabar sozinha no mundo majestade! Não pode!

Julien soltou o globo. Agora ele brilhava intensamente e ela, firmando-se nas pernas trêmulas, caminhou até Taty. Ela amparou a Rainha que se mostrava claramente exausta. Disse:

─Taty... você nunca deve deixá-la sozinha. Jamais desista dela, eu lhe peço. Eu lhe imploro! Por favor, não a deixe sozinha!

─Esse é meu papel... Julien. Eu jamais a abandonarei! Eu juro a você!

E perceba que agora, Taty chamara a Rainha de Amarante pelo nome, diretamente. E isso se deve pelo fato de que essa Guardiã e Julien estavam, uma para a outra, muito além de meros títulos de nobreza.

Mas então o ar se tornou mais pesado. De repente, o lugar se tornou quente e abafado. Taty e a Rainha olharam através da porta aberta e viram, atravessando a ponte na direção delas, Ura, em sua forma humana. Taty sabia que era ele pela Essência Sombria que ainda exalava de seu corpo. Era inesquecível aquela pressão, mesmo que bem menos intensa. Ele vinha pela ponte a passos desapressados, um sorriso malicioso na face. No peito, para o profundo terror de ambas, ele tinha os kanjis que apenas os Shuyo possuíam, brilhando feito fogo em brasa.

─Essa não... ─Taty disse, sentindo o amargo na boca. ─Julien, apresse isso o quanto puder! ─ela soltou a Rainha e correu para fora. ─Eu vou...

Mas ela não saiu. A Rainha segurou-lhe pelo braço com uma força descomunal. Chegou a parecer que ela quebraria o braço da garota. Os olhos claros de Julien estavam frios e ela falou com autoridade extrema:

─Faça o que mandei você fazer, Taty. Pegue Chii e, quando o portal se abrir, atravesse!

─Mas Julien...

─Entenda ─ela exclamou, agarrando a garota pelos ombros. ─Quando o portal se abrir, atravessem. Eu irei garantir que ele não persiga vocês através dele! Vou usar toda minha Essência restante para destruir esse lugar!

─Isso é impossível! Ele nunca lhe dará oportunidade!

─Ele não precisa me dar chance, Taty. A minha Essência está nesse globo. Tudo o que é preciso para salvar vocês duas é que eu me certifique de destruir a passagem e por isso, só por isso, eu preciso ficar aqui. ─beijou-a na testa com força. Era realmente uma despedida. ─Ganharei tempo até o portal abrir.

─Julien... ─Taty disse quase implorando.

─Eu sei exatamente qual é meu destino Taty! Ajude-me a dar um destino diferente para minha Chii!

Taty apenas aquiesceu. Não havia palavras para aquele momento. Pelo menos, não naquele instante. Ela estava decidida e Taty soube que não poderia debater. Ela precisaria tirar Chii dali e depois, mais tarde, quando a menina acordasse, contar o desfecho trágico daquela noite.

E essa seria a pior parte para ela.