sábado, 23 de julho de 2011

01

E Começa o Fim

O mundo nasceu de uma explosão
E em um mar de fogo,
Tudo está destinado a acabar.


Parecia uma chuva de fogo. O ataque da Horda contra o castelo dos Hollerbach foi intenso. As defesas foram simplesmente arrasadas pelos monstros que ultrapassaram as muralhas externas e os soldados que tentavam impedi-los de chegarem às muralhas internas, mais próximas do castelo, eram massacrados.

A princesa Elfa olhava da varanda, estarrecida. Havia fogo por toda parte. Gritos ecoavam pela escuridão. Soldados da Elite de Amarante, o Império Vermelho, não conseguiam rechaçar a Horda que destruía, matando e incendiando, tudo pelo caminho. Guardas, comerciantes, animais. Mulheres e crianças. Velhos. Moribundos. Tudo era tragado por aquela onda maligna. A princesa chorava sozinha, assistindo o fogo consumir tudo ao redor do castelo, vendo bolas de fogo vindo através da escuridão da noite e explodindo contra as muralhas internas. Ouvia homens gritando em meio às explosões e urros bestiais que encobriam pedidos de socorro e clemência. As lágrimas lhe escorriam pelo rosto onde cinzas caiam, manchando sua pele alva. O coração martelava no peito com força. As pernas tremiam.

E no meio daquele caos, a Guardiã a chamou, entrando na sala correndo.

─Chii!!!

Ela não se virou. Estava absorta, olhando incrédula toda aquela destruição.
Taty teve de correr até ela, agarrando seus ombros e sacudindo a amiga com força, gritando:

─Chii!!! Chii!!!

─Está mesmo acontecendo, Taty ─ela falou. A voz saindo amarga da garganta. 

─Tudo está se acabando, como aconteceu no meu sonho! Exatamente como no 
meu sonho!

─Pare com isso, Chii! ─ela ordenou. Sua voz soou muito mais firme do que aquele murmúrio da princesa. ─Preciso tirar você daqui! A Rainha encontrou uma solução!

─Mamãe...? ─ela começou a falar.

─Sim, a Rainha tem um plano, Chii ─Taty interrompeu-a. Começou a praticamente a arrastar a menina para dentro, apressada. ─Vamos! Nós não temos muito tempo! As defesas podem não durar o bastante. A Guarda de Elite já foi quase completamente abatida!

─A Guarda de Elite? ─ela disse surpresa. ─Estão mortos?

─É provável Chii... É provável...

As lágrimas escorreram daqueles olhos azuis novamente. O desespero estampado naquele rosto tão jovem, mas que logo cedo estava conhecendo o verdadeiro medo da guerra.

─Taty... ─ela começou, mal suportando a sensação de angústia em seu peito. 

─Todos vão morrer...

─Não diga isso! ─ela exclamou, abaixando-se e ficando na mesma altura que a garota. ─Eu não vou deixar nada ruim acontecer a você Chii! Nada! Nunca! Você me ouviu?

─Mas Taty... O meu sonho...

─A Rainha me disse que essas coisas podem mudar Chii! Não será uma coisa dessas que vai me impedir de salvar você seja lá do que vier pela frente! ─ela abraçou a princesa com força. A menina retribuiu, também a apertando forte nos braços. ─Eu não vou deixar nada de ruim acontecer a você! Eu prometo!

─Eu confio em você Taty! ─ela disse, esfregando o rosto, limpando as lágrimas que formavam linhas em sua face.

─Vamos! ─Taty ordenou. Ambas começaram a correr, atravessando o salão, indo em direção a porta pela qual Taty viera. ─Vamos para a Torre do Cego, Chii!

─A Torre do Cego?!

─Julien está preparando um meio de fuga para...

Ela foi interrompida. Uma bola de fogo atingiu a sacada onde antes elas estavam, explodindo com um estrondo imenso. A explosão as arremessou com força contra as portas. As paredes e as cortinas se incendiaram. Algo lá fora ruiu e desabou. As chamas se avultavam rapidamente e em um piscar de olhos todo o cômodo parecia estar em chamas.

─Chii! ─ela chamou. A princesa estava caída ao seu lado, desmaiada. Um filete de sangue escorria pela testa.

Taty começou a levantar a menina quando voltou sua atenção para as chamas. Ela olhou e sentiu-se petrificada. Das chamas, um vulto imenso emergia.

─Essa não ─ela disse, vendo o gigante dar um passo para dentro do salão.

─Eu sinto o cheiro ─a criatura em chamas disse em uma voz monstruosa. ─Eu sinto o cheiro da Essência de vocês! ─uma risada atravessou o salão em um timbre grave. O monstro adentrou completamente, pouco antes de o restante da varanda desabar. Assim que ele entrou, Taty sentiu como se estivesse no inferno. ─E eu tenho fome!

Taty se levantou retirando seu manto. Cobriu a princesa com ele e voltou-se para o monstro. Ele era imenso, chegando a quase três metros de altura. Era largo, forte, de dimensões fantásticas. Parecia um pedregulho incendiado. Ela sentia a Essência dele também e foi isso que a fez perceber o que ele era de fato.

─Você é uma besta da Horda, estou certa?

Ele gargalhou. Respondeu em sua voz grave e demoníaca:

─Eu sou Ura, o Golem. Eu vim pela Essência dos Hollerbach! ─apontou para Chii com um braço longo e monstruoso. As chamas em seu corpo pareceram adentrar sua carne pedregosa, assemelhando-se a veios de lava na terra.

─Pois eu não deixarei você tocar nessa menina!

Ele riu de maneira descrente. Desafiou:

─Dê-me seu melhor golpe, mulher.

Nesse instante aconteceu tudo muito rápido. Uma aura envolveu Taty e ela se moveu bem depressa. O soco atingiu o rosto dele em cheio com uma força tão brutal que a energia do ataque se dispersou, arrasando o restante do cômodo, extinguindo as chamas completamente, destruindo parte do piso e das paredes. As janelas que ainda estavam inteiras explodiram em estilhaços.

─Isso foi o seu melhor? ─Ura indagou. Ele não se movera um milímetro sequer. Taty arregalou os olhos, espantada, mas nada pôde fazer quando o enorme punho de mármore escuro a atingiu no rosto. Ela acabou voando pelo salão, atravessando a porta e arrebentando com as costas a parede seguinte. Caiu desfalecida em uma saleta de reunião do ouro lado do salão.

Caminhou em direção a princesa, ainda caída em frente à porta destruída, envolta pelo manto de Taty.

─A Essência dos Hollerbach! ─ele diz, extasiado. ─A filha será a primeira, a mãe será a próxima.

Ele estende a enorme mão para o manto, mas antes de tocá-lo, Taty avança contra ele velozmente. Um golpe potente atinge o rosto dele mais uma vez, seguido de outro ataque, ainda mais veloz, em suas pernas. Dessa vez, o gigante cai sobre um dos joelhos enquanto ela pega a princesa e se afasta para o outro lado do cômodo.

─Eu disse que você não irá tocá-la!

Ura riu mais uma vez, se levantando e olhando ao redor. Agora eram três mulheres idênticas no salão. Idênticas até mesmo no sangue que lhes escorria da boca.

─Técnica interessante, Guardiã. ─ele disse. Mas quando encarou a Taty que segurava a princesa, calou-se por completo.

Ela estava de costas para ele e foi só por isso que Ura conseguiu enxergar a tatuagem brilhante dela.

Dois kanjis.
Kanjis Shuyo.

Ela então se vira de frente para ele ostentando um olhar furioso. A sua aura volta a brilhar em torno do corpo e seus cabelos começam a balançar com violência. Ela diz novamente:

─Você não tocará na minha amiga!

─Você é especial garota. Realmente especial. ─as chamas inflamaram através de sua pele novamente, como um vulcão explodindo. Os clones que o cercavam foram incinerados num piscar de olhos. As chamas se espalharam pelo piso de pedra tão facilmente quanto se fosse mato seco. O rosto dele ficou envolto pelas chamas e seus olhos escuros se tornaram flamejantes. Taty sentia a pressão da Essência Sombria dele. Não apenas ela. Todos no interior da muralha interna sentiam o poder esmagador dele.

─Eu não posso com isso ─Taty pensou, mantendo o corpo de Chii junto de si, com força. ─Ele é forte demais!

─Eu vou devorar sua Essência primeiro!!! ─ele gritou, correndo na direção dela. As chamas cobrindo aquele corpo rochoso queimavam tudo ao redor. As passadas pesadas faziam o piso tremer e rachar. ─Você está perdida!!!
Mas antes que ele a alcançasse, um feixe de luz azul surgiu às suas costas. Um estalido se fez ouvir e de repente ela percebeu.

Aquilo era gelo.

Todo o corpo imenso de Ura foi congelado de um instante para o outro. O gelo brilhava como cristal. As chamas se apagaram instantaneamente.

─Comandante... ─ela sussurrou, mas parou repentinamente.

Atrás do gigante congelado não estava o Comandante da Guarda de Elite, mas um garoto, de cabelos ruivos esvoaçantes. O rapaz trajava as roupas dos Sentinelas, os guardas que vigiavam o portão da muralha externa.

─Você está bem, senhorita? ─ele indagou em uma voz firme e ponderada.
Taty apenas observava a espada na mão dele. Longa, larga e brilhante. Reluzia com um brilho azul a partir do meio da lâmina. Taty estava boquiaberta e não o ouviu repetir a pergunta.

─Essa espada ─ela começou, gaguejando, incrédula. ─Essa é a espada...

─Do Comandante, sim. ─ele disse, baixando os olhos para a arma. ─Ele morreu pouco depois de me dá-la.

─O Comandante lhe deu? ─ela estava evidentemente surpresa. ─A Espada de Cristal?! Ele...

Enfim ela viu. Brilhando, no pescoço dele, intensamente, havia dois kanjis. Kanjis iguais aos que ela mesma tinha nas costas.

─Você... é um Shuyo!

E nesse instante, as chamas do corpo de Ura explodiram, despedaçando o gelo que o aprisionava. As labaredas incendiaram o quarto totalmente, do chão ao teto, muito mais intensamente que antes.

Taty foi salva pela agilidade do rapaz. Ele a pegou pela cintura, saltando para fora da sala bem a tempo de fugir das chamas. Ura gritava em fúria total e desmedida.

─Como o Comandante pôde lhe dar a Espada de Cristal? Você era um Sentinela! Você é um Sentinela e...

─Senhorita ─ele interrompeu. ─Não importa nada disso agora. Você tem de tirar a princesa daqui. Levá-la embora! Eu cuidarei desse monstro e tratarei de ganhar tempo pra vocês!

─Você não pode com ele! É forte demais! É muito poder...

E a Essência dele se acendeu, junto com o brilho da espada. Era um brilho intenso, maravilhoso. Frio, mas reconfortante. Os olhos dele brilhavam também, intensamente. Ele olhou para ela mais uma vez, antes de dizer, novamente com a voz firme e decidida:

─Vá! Tire a princesa daqui! Salve-a! Esse é o seu trabalho não é?

─Ninguém vai salvá-la de mim! ─Ura gritou lá de dentro, avançando na direção deles.

─Vá!!! ─o rapaz gritou mais uma vez, empunhando a espada e saltando contra o monstro de fogo a sua frente.

Taty pegou Chii e correu pelo corredor. Ouvia o som da batalha entre o Sentinela e Ura, enquanto subia as escadas depressa sem olhar para trás.

A luta entre os dois era um duelo fantástico. Todo o quarto queimava, mesmo sobre as camadas de gelo que o rapaz produzia com a espada. O Sentinela congelou as pernas do inimigo, mas as chamas dele explodiram de novo e ele se viu envolto por elas. O braço imenso agarrou-lhe e com um movimento incrível arremessou seu corpo contra uma pilastra que se partiu.

─Você também não pode comigo. Ninguém pode. Eu sou o puro poder, não percebe isso?

O Sentinela levantava-se lentamente. Sua Essência dissipou rapidamente as chamas em suas vestes. Agora os kanjis brilhavam mais intensamente, de forma ainda mais clara. Ele aprumou-se, empunhou a espada à frente e disse:

─Eu sou Gan Shiro ─a voz calma e firme. ─E lamento monstro, mas você não vai me matar!

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