O coração de gelo
O sangue frio
A carne flamejante.
A lâmina.
Shiro não tinha muito mais que metade da altura do monstro, mas era mais ágil que ele. Esquivava-se dos ataques ferozes, evitando uma morte certa. Os seus ataques o acertavam, porém sem efeito. Ura era forte e resistente demais. As chamas e as placas de gelo tomavam o cômodo. O teto parecia prestes a desabar e o piso já se encontrava totalmente rachado. Era questão de tempo até tudo vir a ruir.
─Você é impressionante rapaz! ─o Golem falou. A voz ecoava com um tom grave e assustador. ─Quem diria que um simples Sentinela tivesse tamanha habilidade! Uma pena, para você, que isso não seja o bastante para me vencer!
─Eu não preciso vencer você, monstro ─ele retrucou. A voz firme de sempre.
─Eu vou impedi-lo de alcançar a princesa, só isso. Já é trabalho o bastante para um Sentinela, eu acho.
Ura deu risada. Era engraçado ver um verme como aquele tentando impedi-lo. Era curioso descobrir que no castelo de Amarante não apenas a rainha e a princesa tinham Essências especiais, mas também uma Guardiã e até um Sentinela pudessem ter a Essência Shuyo em seus corpos.
─Você deve se sentir mais confiante agora não é? ─questionou ele. ─A espada do Comandante lhe dá mais poder? É ela quem lhe ajudou a desenvolver esse potencial latente?
─Eu não sei o que está fazendo com que eu lute dessa forma. Pode ser a espada ─ele fez uma pausa, encarando o brilho na lâmina da arma, ─ou pode ser que eu simplesmente tenha percebido que eu deva fazer isso.
Ura balançou a cabeça, concordando.
─Você conquistou parte do meu respeito jovem. Por isso vou lhe contar a verdade sobre porque não pode me vencer.
─Porque está assumindo sua Forma Macabra e isso aumenta em muito o seu poder?
─Não. Não é apenas por isso garoto. Existe uma razão a mais para você desistir disso tudo.
As chamas tornaram a se apagar. Adentraram a pele rochosa dele. Ura uniu ambas as mãos e uma coisa aconteceu. Shiro sentiu a Essência Sombria dele diminuir de intensidade. Em seguida, a pele de Ura começou a mudar de cor, seu volume e altura começaram a encolher. Boquiaberto, Shiro viu o imenso monstro se tornar um homem comum. Ainda era forte e alto, mas nada comparado à criatura imensa que era anteriormente. Os cabelos eram compridos, castanhos e uma barba espessa cobria a sua face. A expressão em seu rosto não tinha nada daquela brutalidade de antes.
─Isso... é impossível ─balbuciou o jovem, confuso. Ele jamais vira coisa assim antes.
─Entendo sua surpresa rapaz. Muitos imaginam que a Horda seja composta de monstros e mesmo aqueles que sabem a verdade sobre nossas Formas Macabras não conseguem nos imaginar como... humanos.
Mas não era apenas a real forma dele que deixara Shiro perturbado. Cobrindo todo o peito de Ura, em meio à pelugem espessa que ele tinha, brilhando como fogo em brasa, havia um kanji enorme. No abdômen, havia o segundo kanji, também reluzindo como fogo.
─Essa é a razão pela qual você não pode me derrotar rapaz ─Ura disse alto, abrindo ambos os braços. ─Eu sou um Shuyo também!
─Não... não pode ser! ─Ele disse, incrédulo. No entanto, estava diante de seus olhos, brilhando evidentemente no corpo daquele homem os mesmos kanjis que ele tinha no pescoço e Taty nas costas. Os kanjis Shuyo. A representação da Essência mais poderosa do mundo.
─Você acabou de descobrir esse poder garoto, mas eu o domino já há bastante tempo. Isso, e mais a minha Forma Macabra me dão uma vantagem que nem mesmo o seu Comandante pôde derrotar. Uma vantagem que ninguém pode derrotar!
─Você pode ter esse poder, mas não o usa de forma correta. ─dessa vez, a fúria se mostrava em suas palavras. ─O poder não é nada se usado apenas para si próprio. Seu poder não é nada, monstro!
─É uma idéia bela, mas apenas isso. Valores inúteis!
Shiro emitiu um grito brutal, avançando contra ele com a espada em riste, o gelo envolvendo a cada passo o piso em lâminas afiadas e pontiagudas. Ura nem se moveu, esperando o ataque diretamente. A espada veio diretamente contra o peito dele, mas nem chegou a tocá-lo. Shiro viu de olhos arregalados Ura segurar a lâmina com uma mão apenas, sem dificuldade. O gelo envolveu o braço dele, congelando tudo ao redor com violência, mas ele não se abalou. Olhou desinteressado para o rapaz e disse:
─Eu avisei.
O soco foi tão forte que Shiro sentiu o rosto sendo esmagado e a confusão imediata tomou-lhe a mente. Ele foi arremessado contra a última janela inteira, voando através do céu enfumaçado. Chocou-se com uma torre e lá ficou com o corpo cravado na pedra, desacordado, ainda com a espada segura na mão.
E Ura ficou vendo o rapaz sumir de vista, voando pelo céu. Forçou os músculos do braço, estilhaçando o gelo que o envolvia. Saiu daquele lugar caminhando sem pressa. Ele sabia para onde a princesa e sua Guardiã estavam indo.
Sabia pelo cheiro.
A Torre do Cego era ligada ao castelo por uma larga ponte, na direção leste. De lá era possível enxergar as extensas planícies de Amarante que iam até os confins do reino. Depois da Grande Guerra, a própria Rainha Julien Hollerbach ordenou que ela não fosse mais aberta e seu grandioso poder jamais fosse usado novamente.
Mas agora ela precisava descumprir a própria ordem. Quando Taty chegou a ela com a princesa nos braços, a Rainha já havia aberto as portas da torre e começado a se preparar. Ao vê-las, ela tirou as mãos do imenso globo no centro da torre e foi ao encontro da filha e da Guardiã.
─Taty! Por Amarante, o quê houve com vocês?
─Sinto muito a demora, majestade ─ela disse, se desculpando e colocando a princesa Chii nos braços da mãe. ─Um ataque inesperado! Chii está desmaiada apenas! Um golpe pesado contra a porta, mas não foi nada sério!
─Mas você... seu rosto está sangrando!
─Não se preocupe ─ela disse, afastando a mão dela. A ferida se encontrava acima do supercílio esquerdo. Além disso, ela tinha o braço esquerdo levemente queimado. Um filete de sangue insistia em escorrer pelo ombro direito. As costas doíam, mas ela ainda se mantinha de pé, mesmo tremendo. ─O importante é que a princesa e a senhora estão a salvo! A situação está muito crítica! O Comandante da Guarda de Elite... ─tomou fôlego e ao mesmo tempo, coragem para continuar: ─Ele está morto, majestade!
─Morto?! Tem certeza?! ─ela exclamou surpresa. ─Isso então está ainda pior do que imaginei! Eles vieram mesmo com força total contra nós!
─Se os inimigos forem comparáveis ao monstro que enfrentei lá embaixo... temo que nada possamos fazer, majestade! Eu consegui escapar graças a um Sentinela.
─Sentinela? Um Sentinela salvou vocês? ─ela questionou ao levar Chii para dentro da torre.
─Sim, senhora! ─ela finalmente sentou-se, sentindo dor e não fazendo questão de esconder isso. Ao seu lado, Chii ainda estava desmaiada. Tanto melhor, pensou. Não seria agradável que ela visse toda aquela destruição e desespero, nem que escutasse as explosões e os gritos que estavam por toda a parte do castelo. ─O quê vai fazer majestade? Por que estamos aqui?
─A Torre do Cego era usada em tempos de guerra para espionar terras distantes. Era assim que meu marido conseguia posicionar suas tropas e vencer com facilidade as batalhas. A Era Vermelha de Amarante, onde combates por novas terras eram frequentes, só se estabeleceu porque ele sabia como usar o poder dessa torre com maestria.
─Sim, eu já ouvi sobre isso. Mas como isso pode nos ajudar?
─Há outro poder nesse lugar. Outra habilidade da torre que mantivemos em sigilo. Apenas o Imperador sabia e seus principais comandados. ─Julien voltou ao enorme globo e o tocou com ambas as mãos. Uma luz muito brilhante começou a raiar dentro do globo. A Essência dela reluzia como um raio de sol, quente e confortável. Taty sentiu-se bem quase que imediatamente. Ver a Essência da Rainha de tão perto era novidade para ela. Até o rosto da princesa pareceu relaxar. ─Eu posso ativar esse poder e mandá-las para qualquer lugar em Amarante!
Taty arregalou os olhos.
─Verdade? Qualquer lugar?
─Sim, mas isso requer muita energia! Nos tempos de guerra, meu marido se
utilizava de seis Magos para ativar o globo e despachar as tropas em ataques surpresa contra os inimigos. Eu terei de fazer tudo isso sozinha dessa vez!
─Deixe-me ajudá-la, majestade! ─Taty disse. Ela procurou se levantar, mas as costas doíam bastante. Ela gemeu e então se firmou nas pernas depois de cambalear um pouco.
─Fique quieta e descanse! Você vai precisar de energia para proteger minha criança quando escaparem daqui!
─Mas... a senhora majestade... estará conosco também! Não é?
─Não Taty, não estarei! Depois de enviar vocês para longe, vou garantir que esse lugar seja destruído. A Horda não pode ter um poder desses nas mãos!
─Majestade, pense no que está falando! Se ficar aqui...
─Eu sei! ─ela gritou. As lágrimas já escorriam pelo seu rosto quando ela olhou para Taty diretamente. ─Eu sei exatamente o que vai acontecer comigo! Mas eu não vejo outra solução! Não há outra solução a não ser garantir que você e Chii saiam daqui e fiquem em segurança. Não há outro meio.
─Tem que haver! ─Taty gritou. Agora era ela quem começava a sentir uma angústia amarga no peito. Olhou para Chii, ainda caída e envolta em seu manto e sentiu uma tristeza sem igual no coração. Olhou para a rainha de volta e disse:
─Ela não pode acabar sozinha no mundo majestade! Não pode!
Julien soltou o globo. Agora ele brilhava intensamente e ela, firmando-se nas pernas trêmulas, caminhou até Taty. Ela amparou a Rainha que se mostrava claramente exausta. Disse:
─Taty... você nunca deve deixá-la sozinha. Jamais desista dela, eu lhe peço. Eu lhe imploro! Por favor, não a deixe sozinha!
─Esse é meu papel... Julien. Eu jamais a abandonarei! Eu juro a você!
E perceba que agora, Taty chamara a Rainha de Amarante pelo nome, diretamente. E isso se deve pelo fato de que essa Guardiã e Julien estavam, uma para a outra, muito além de meros títulos de nobreza.
Mas então o ar se tornou mais pesado. De repente, o lugar se tornou quente e abafado. Taty e a Rainha olharam através da porta aberta e viram, atravessando a ponte na direção delas, Ura, em sua forma humana. Taty sabia que era ele pela Essência Sombria que ainda exalava de seu corpo. Era inesquecível aquela pressão, mesmo que bem menos intensa. Ele vinha pela ponte a passos desapressados, um sorriso malicioso na face. No peito, para o profundo terror de ambas, ele tinha os kanjis que apenas os Shuyo possuíam, brilhando feito fogo em brasa.
─Essa não... ─Taty disse, sentindo o amargo na boca. ─Julien, apresse isso o quanto puder! ─ela soltou a Rainha e correu para fora. ─Eu vou...
Mas ela não saiu. A Rainha segurou-lhe pelo braço com uma força descomunal. Chegou a parecer que ela quebraria o braço da garota. Os olhos claros de Julien estavam frios e ela falou com autoridade extrema:
─Faça o que mandei você fazer, Taty. Pegue Chii e, quando o portal se abrir, atravesse!
─Mas Julien...
─Entenda ─ela exclamou, agarrando a garota pelos ombros. ─Quando o portal se abrir, atravessem. Eu irei garantir que ele não persiga vocês através dele! Vou usar toda minha Essência restante para destruir esse lugar!
─Isso é impossível! Ele nunca lhe dará oportunidade!
─Ele não precisa me dar chance, Taty. A minha Essência está nesse globo. Tudo o que é preciso para salvar vocês duas é que eu me certifique de destruir a passagem e por isso, só por isso, eu preciso ficar aqui. ─beijou-a na testa com força. Era realmente uma despedida. ─Ganharei tempo até o portal abrir.
─Julien... ─Taty disse quase implorando.
─Eu sei exatamente qual é meu destino Taty! Ajude-me a dar um destino diferente para minha Chii!
Taty apenas aquiesceu. Não havia palavras para aquele momento. Pelo menos, não naquele instante. Ela estava decidida e Taty soube que não poderia debater. Ela precisaria tirar Chii dali e depois, mais tarde, quando a menina acordasse, contar o desfecho trágico daquela noite.
E essa seria a pior parte para ela.
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