A chuva se mistura ao sangue
E o sangue se mescla a terra
O sol pode raiar hoje mais cedo
Mas a noite sempre parecerá eterna
A Rainha saiu da torre e seu manto longo e vermelho começou a ondular ao vento. Os cabelos loiros e curtos dançavam também conforme o vento comandava e ela caminhou em direção de Ura. Ele pareceu achar tudo aquilo bastante divertido, pois sorria abertamente. Taty observava o globo. A luz estava se tornando ainda mais intensa, iluminando todo o interior da torre. Ela olhou para fora, vendo Julien chegando próxima de Ura. Ela não demonstrava medo; demonstrava estar mais que decidida quanto ao que fazer naquele momento.
Os dois ficaram frente a frente. A Rainha Julien Hollerbach o encarou nos olhos, firme e sem medo. Ura continuava a sorrir para ela. Era um monstro, mesmo em sua forma humana porque seu olhar assassino era inconfundível.
─Vejo então que a Rainha de Amarante não teme a morte. Será isso porque você sonhou com este momento?
─Infelizmente, eu vi esta cena em minha mente. Vi você tão claramente quanto vejo agora e depois de tanto tempo eu continuo a achar que não tenho nada a temer. Não de você!
Ura agarrou o pescoço dela com a mão direita. Um aperto forte que a sufocou. O olhar dele refletia o dela.
─Pois você deve temer por sua filha, Fada! Pois a Essência dela eu farei questão de devorar bem lentamente! E ela vai sofrer! Ah, ela vai! Lembre-se disso!
Taty teve vontade de levantar-se e correr até eles quando viu Julien ser levantada do chão, mas o globo parara de brilhar. A luz que provinha dele se apagou um instante, mas depois explodiu com força. O globo se despedaçou e diante dela surgiu um portal imenso que se estendia por toda a torre, do chão ao teto, de uma parede a outra. Era uma visão única.
─Hora de ir ─ela disse a si mesma e virou-se para a princesa. Sentiu um choque e as pernas bambearam quando viu que o manto estava vazio. Olhou para fora e em total desespero viu a menina correndo na direção da rainha através da ponte.
─Mamãe!!! ─ela gritou, correndo com os longos cabelos loiros esvoaçando no vento. ─Mamãe!!! ─um rosto tão jovem, parecido com o da rainha Julien em muitos traços, manchado por lágrimas e cinzas. ─Solte-a!!! Solte a minha mãe!!!
Ura olhou por cima do ombro da Rainha. Viu a menina correndo na direção deles aos prantos e sorriu. Jogou Julien no chão com violência e estendeu a outra mão na direção de Chii. Ela arregalou os olhos encharcados e gritou de pavor.
Mas ele não a alcançou.
Outro grito cortou a noite e foi Ura quem se surpreendeu quando se virou e viu Shiro avançar contra ele, a espada radiante em mãos, desferindo um golpe formidável contra seu rosto. A lâmina se partiu, caindo metros atrás dele, mas pela primeira vez um corte surgiu no rosto do inimigo. O sangue escorreu do ferimento pouco abaixo dos olhos de Ura e um grito de dor saiu de sua garganta.
Mesmo com a espada quebrada, Shiro desferiu outro golpe, mas desta vez Ura o agarrou com ambos os braços em um aperto de quebrar os ossos. A dor do aperto o fez gritar alto de modo que sua voz chegou límpida aos ouvidos de Taty.
Ela correu para fora, esquecendo-se do portal.
─Você deveria ter ficado onde eu te deixei moleque! ─Ura berrava. O sangue escorria de sua ferida. ─Agora eu vou esmagar você como o verme que é! Maldito!!!
A Rainha Julien agarrou a filha em meio aquele terror e correu em direção à entrada da torre. As fuligens das queimadas se espalhavam pelo céu, caindo sobre elas como neve. Taty vinha correndo até ela. A filha chorava em seus braços, em um total desespero.
─Taty!!! ─Julien gritou para ela. Estavam juntas de novo, mas desta vez foi ela quem colocou Chii nos braços da guardiã. ─Pegue-a! Leve-a para dentro!
Chii tentou se desvencilhar dela, gritando, chamando pela mãe. Taty a segurou e correu com ela para dentro da torre. O portal ainda estava aberto, revelando campos escuros de grama. Elas podiam sentir o cheiro da chuva, sentir os ventos na pele.
E também podiam ouvir os gritos de Shiro.
Ura o estava partindo. O aperto se tornava ainda mais forte, mais torturante. A espada partida caiu no chão e o Sentinela parecia prestes a perder os sentidos.
─Eu matei todos que se colocaram no meu caminho e agora, que tudo estava em minhas mãos, você acreditou mesmo que um Sentinela medíocre poderia me impedir?!
Os olhos de Shiro se fecharam. O corpo dele ficou mole de repente. O aperto continuava, mas ele não sentia mais nada.
Sentia outra coisa agora.
─Que frio ─ele pensou. ─Ficou tão frio, de repente. Meu sangue, o sangue que escorre de mim parece congelado. Eu estou... morrendo?
A voz de Ura chegava a seus ouvidos abafada pelo vento. O cheiro de fumaça se misturava com o cheiro de chuva, de terra úmida. O pranto da princesa chegava a ele também, tão claramente que parecia que a menina estava logo ali, atrás dele.
E ele ouviu também a voz da Rainha. Sentiu um toque em suas costas. Mãos leves e macias de uma Fee, que era o Nome Antigo das Fadas, que lhe emprestava a própria Essência como último recurso.
Abriu os olhos de repente e viu o céu e as cinzas que caiam por sobre eles. Seria tudo muito bonito, se não fosse, na verdade, tudo tão trágico.
Foi então que ele percebeu que seu corpo ainda estava vivo. Que ele, de fato, ainda estava vivo e percebeu, finalmente, o que acontecia.
─O quê diabos...? ─a voz de Ura chegou a seus ouvidos e ele olhou para ele.
Arregalou os olhos surpreso.
A Essência de Shiro queimava seus braços, congelando-os mais intensamente que antes. A dor era intensa e ele acabou relaxando o aperto, o suficiente para o Sentinela escapar dele, caindo ao chão. A Rainha Julien cambaleou para trás. O brilho de sua Essência abandonando seu corpo mais uma vez.
Shiro pegou o punho da espada quebrada e atacou Ura com violência. Sem notar o que acontecia, a ponta quebrada da Espada de Cristal se refez pouco antes de penetrar na pele dele. A lâmina entrou até a metade em seu abdômen, rasgando o kanji ao meio. O gelo envolveu os dois, mas antes que Shiro sentisse que estava em vantagem, as chamas de Ura explodiram e ele gritou de fúria. A Essência Sombria tomou conta da ponte, se elevando a níveis extraordinários, assumindo rapidamente a Forma Macabra outra vez.
Shiro caiu para trás com a explosão. A espada em mãos, a Essência dele congelando a ponte, erguendo lâminas pontiagudas para todo lado, mas a fúria de Ura não seria contida por isso. Ele avançou brutalmente contra o adversário acertando-o com um soco tão devastador que Shiro sentiu os ossos do lado esquerdo do corpo sendo esmigalhados. Acertou outro golpe contra o peito dele, arremessando o Sentinela na direção da torre.
Shiro rebateu contra o solo duas vezes, chegando arrastando de costas às portas da torre. Estava acabado, a beira da inconsciência. Taty olhou para fora e viu o imenso monstro avultar-se diante da Rainha. Chii ainda se debatia nos braços dela, tentando correr em direção a mãe.
E nesse momento, a Essência de Julien, Rainha de Amarante e Rainha do povo Fee, se acendeu.
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