E no fim,
Duas meninas se abraçaram
E uma chorou de tristeza
Enquanto a outra chorava de fúria
─Eu vou lhe contar uma coisa monstro ─a Rainha disse. A voz tão firme como se estivesse prestes a repreender uma criança travessa. ─Você não sabe nada sobre o que é poder!
De ambos os lados da Rainha Julien Hollerbach surgiram seres de luz. Taty observou deslumbrada quando percebeu se tratar dos Paladinos, os espíritos guardiães da Rainha do povo Fee.
─As fadas... ─Chii gemeu, baixinho.
E aqui, escrevo “fadas” com letra minúscula, pois essa definição a princesa empregou pensando, por um instante típico de sua mente infantil, nos contos que ouvia antes de dormir. Bem podem ser verdadeiros alguns desses contos (coisa que de fato são, em Amarante), mas para ela, criança pura e ingênua, tudo não passava de bonitas histórias de ninar.
Ura gargalhou diante daquilo e avançou contra a Rainha. Os Paladinos, um homem e uma mulher com três pares de asas e armados com o que as lendas chamavam de Bastões Celestes, o cercaram, envolvendo-o em um círculo de runas feito de pura luz. Julien permaneceu imóvel a frente dele. Os olhos reluzindo fantasmagoricamente.
─Eu... ─ela disse pausadamente, como se declarasse uma punição a ele.
─Destituo você de seu vulgo poder!
E a luz entrou em seu corpo pedregoso causando muita dor. Os gritos horríveis de Ura fizeram a menina Chii tapar os ouvidos. O corpo dele voltou a se contorcer e encolher, a pele deixou de ser rígida e tornou-se alva novamente. Ele retornou a sua forma humana, visivelmente exausto, caindo de joelhos diante da rainha.
─Meu poder... ─ele balbuciou, incrédulo. ─Minha Forma Macabra...
─Perdida ─ela respondeu. Os Paladinos desapareceram de vez. ─E para sempre. Esse poder maléfico você jamais terá novamente.
Ele rangeu os dentes, furioso. Pela primeira vez, a dor tomava-lhe o corpo completamente.
Julien se afastou depressa, correndo de volta para a torre. O portal estava aberto completamente, mas Taty ainda não o atravessara com Chii.
─O quê está fazendo aqui ainda?!
─Majestade... ─Taty disse, obviamente surpresa. ─A senhora o derrotou! Ele está...
─Ele ainda tem o poder de sua própria Essência Taty! Ele não é um adversário que qualquer um de nós possa vencer! A dor que sente não o deterá!
─Mamãe! ─Chii chamou, abraçando-a.
Taty olhou para fora, ainda absorta e Shiro disse:
─Sai daqui... Ele... Ainda é forte demais... Mesmo nesse estado...
E Taty viu as chamas explodirem do corpo dele mais uma vez, enquanto gritava furioso. Ura se levantou, parecendo-se com uma besta do inferno de olhos flamejantes e começou a correr na direção da torre. Agora, ele não era mais o enorme e pedregoso monstro de antes; era um homem alucinado envolto em chamas que pareciam derreter sua própria carne.
─MAMÃE!!! ─Chii gritou ao vê-lo, desesperada ante tal monstro. ─Ele está vindo, mamãe!!!
Julien fechou as portas e Shiro ergueu a mão direita. Ele não sabia exatamente o que estava fazendo até enxergar o gelo cobrir as portas completamente. Uma pancada violenta veio de fora e ele gritou para elas:
─Eu não segurarei muito tempo. ─o gelo partiu-se enquanto o Sentinela esforçava-se para manter sua Essência ativa. Era um esforço doloroso. Sangue escorria de seus lábios, de suas narinas e ele sentia que o peito parecia se inundar também. Os sentidos pareciam prestes a sumir.
─Mamãe!!! ─a princesa Chii gritou no instante em que a porta tremeu uma segunda vez.
─Majestade ─Taty gritou. ─Temos de ir! Esse monstro não pode ser capaz de nos seguir através do portal depois que ele se fechar!
─Não posso confiar nisso, Taty! Pegue Chii e fuja logo daqui!
─Não, mamãe! Eu não irei sem você!
Julie abraçou a filha. Ela sentia o coração da menina batendo fortemente e as lágrimas dela caiam sobre seu ombro. Ela apertou o abraço mais ainda, dizendo:
─Eu amo você, meu bem!
─Mamãe!!! ─ela balbuciou em meio ao choro descontrolado.
─Não se esqueça que eu amei você até o fim!
Chii arregalou os olhos quando percebeu o que ela ia fazer, mas não teve tempo de reagir. A Rainha a empurrou na direção do portal aberto enquanto ela gritava. Julien ouviu pela última vez a filha chamá-la. Ela atravessou o portal e desapareceu.
─Taty ─Julien gritou. Os olhos firmes, mas completamente úmidos. ─Cuide dela por mim!
Taty teve um momento de hesitação, mas não havia mais jeito. Ela atravessou correndo o portal de olhos bem fechados. A sensação foi como entrar em um lago de águas frias. Ela caiu do outro lado sobre um campo gramado encharcado. A chuva caia com força e trovões riscavam o céu. Não havia um portal atrás dela. Havia apenas a paisagem, uma planície que se estendia na noite escura. Chii estava andando de um lado para o outro, gritando para a escuridão, em prantos.
─Chii ─Taty chamou, desolada. ─Chii!!!
Ela correu e a abraçou. Primeiramente, a menina tentou se desvencilhar e correr para qualquer lugar, mas depois, ela cedeu, caindo ao chão, na mais profunda tristeza de sua vida. Taty não pôde mais suportar e caiu em prantos também.
Tudo, absolutamente tudo, havia acabado.
Escutou-se um baque então. Algo havia caído ao lado delas. Taty olhou assustada para o lado, mas o que viu foi o Sentinela caído, desmaiado. A Espada de Cristal segura firmemente na mão direita dele.
─Mamãe!!! ─Chii gritou de repente para o vento. Ela esperou ver a mãe surgindo do nada também. Chamou mais uma vez, a garganta rasgando de dor pela força do grito. Ela gritou novamente: ─Mamãe onde você está?!
Ficaram os três ali no campo sendo encharcados pela chuvarada. Shiro despertou levemente e Taty começou a questioná-lo imediatamente. Ele respondeu a pergunta com uma voz abafada:
─A Rainha... ela... salvou minha vida...
─O quê? O quê aconteceu com minha mãe? ─Chii perguntou em um grito agudo.
─Eu... lamento princesa... ─ele tossiu e sangue caiu sobre a grama. ─Eu não... eu não fui capaz de... protegê-la.
Chii pareceu ficar sem voz. Ela olhava para ele estupefata, sem reação.
─Ela... atirou-me contra o portal...
─O quê...? O quê aconteceu com ela Sentinela? ─Taty perguntou.
A resposta veio, mas não dele. No horizonte, os três puderam ver um pilar de luz prateada rasgar o céu escuro. A imagem reluzente dos Paladinos podia ser vista no meio daquela luz.
─O castelo. Tenho certeza que lá é onde fica...
─A torre... ─Shiro balbuciou.
─Não! ─Chii gritou. ─Não pode ser! Mamãe...
Há muitos quilômetros de onde a Guardiã, o Sentinela e a princesa estavam, uma Fada sorria em meio ao que restava de uma torre do castelo dos Hollerbach. Ela sorria pela certeza de que protegera a filha e evitara que seu destino, tenebrosamente sonhado tantas vezes, se cumprisse. Ela sorria enquanto seu corpo se desintegrava, tornando-se meras partículas de luz que o vento carregava.
No chão, havia um homem. Agora ela era um homem, mas há poucos instantes era um monstro praticamente invencível. Ura sentia a dor atravessar seu corpo de maneira aguda e interminável. O sangue escorria pelo seu corpo, espalhando-se pelo chão de pedra como um rio.
─Maldita... ─ele balbuciou, vertendo sangue pelos lábios. ─Acha... acha que isso... basta...?
A Fada apenas sorriu para ele, dispensando-lhe um olhar resignado, imperturbável. Falou:
─Você não conseguiu. Você não a pegou.
─Eu a pegarei! ─ele gritou, esforçando-se para levantar. ─E você sabe... sabe disso!
─Ela vai pegá-lo ─a Rainha disse, com calma. Agora ela quase toda já havia se desintegrado. ─Você sabe disso agora.
─Sua... Você é só uma Fada morta agora!
Ela continuou a sorrir e nada mais disse, dispensando para o vento apenas um último pensamento, um pedido que esperava se realizar.
E dessa forma, a Rainha Julien Hollerbach, a Rainha Fee, a Fada de Amarante, morreu. Em meio às ruínas que sobraram da Torre do Cego que ela mesma destruiu com sua Essência de luz, Julien dispensou um último desejo ao vento e ele, obedecendo a uma Rainha-Mãe, o levou através dos céus, em meio à fuligem do castelo que queimava, sobre a Horda que matava e tudo destruía. Ela se foi, definitivamente, deixando uma princesa Elfa sob os cuidados de uma Guardiã e, curiosamente, de um Sentinela.
E apesar de eu não dever contar isso, vou abrir uma exceção e dizer para onde Julien Hollerbach ordenou que o vento levasse seu último desejo. Suas palavras voaram através dos céus para o norte, através de uma floresta densa, muitas léguas distante do castelo dos Hollerbach. Seu desejo sobrevoou as tropas inimigas, o Primeiro General e sua comitiva de seis reles soldados miseráveis, o Segundo General e seu lacaio fiel em forma de sombra, em direção do seu destino.
E lá longe, nas florestas do norte, onde a chuva caia forte, quase tão forte quanto as lágrimas da princesa Elfa, Chii Hollerbach, que se abraçava desolada a sua Guardiã e amiga, o desejo de uma Rainha já morta chegou.
E esse desejo impediu que naquela noite a escuridão tomasse o coração de ouro de uma menina que estava prestes a trilhar um novo caminho e construir assim, um novo futuro para si.
Isso porque seu destino era ter morrido naquela noite, dando a Ura, o Golem, sua Essência.
Mas agora, tudo mudou.
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