sábado, 17 de setembro de 2011

15

Na Toca

E ela desabrochou
Como a mais linda das rosas

Os Griffon possuem um estilo de vida bem “natural”, como eu já contei antes. Eles vivem em meio à natureza, sem ameaçá-la ou destruí-la. Suas moradias são feitas em meio aos galhos de árvores frondosas e imensas, junto de cavernas e vales e morros que eles esculpem de acordo com sua necessidade, mas sem alterar a paisagem drasticamente, como o povo em Amarante ou Hagane fazem constantemente.

A Rainha Alice Raio-de-Sol levou Taty, Shiro e a desacordada Chii para a Toca. 

Esse é o nome das moradas que os Griffon fazem em meio às raízes imensas de algumas das árvores mais antigas da floresta que se elevam acima do solo por alguma razão qualquer. Olhando de fora, a entrada se assemelha bastante a entrada de qualquer forte ou castelo, com pilares que se erguem do chão aos céus, exceto pelo fato de que na verdade são raízes e galhos imensos que se fincam na terra e de alguma ou outra forma se erguem dela novamente.

Passando por essa entrada fantástica, vem o interior da morada, ou Toca, como já disse, e lá é que vemos a verdadeira comunhão entre os Griffon e a natureza. O que se chama de teto é bem alto, alcançando quase que cinco ou seis metros. O chão é pura grama, curta e aparada, mas macia como um tapete. As paredes são a própria madeira da árvore, claro, e o interior, que deveria ser escuro e frio e um tanto úmido também, se apresenta iluminado, morno e confortável de modo a até mesmo uma princesa como Chii se acostumar facilmente ao ambiente.

A Toca é uma morada coletiva onde muitas famílias passam a noite. Espalhados pela extensão dos olhos nossos estão muitos cobertores tecidos pelas mais velhas Griffon com uma arte própria do povo que se utiliza de agulhas e fios de lã. Também há travesseiros cheios com penas, mas não pense que são penas de Grifos! Isso seria um pecado imperdoável e uma falta de respeito inaceitável para com esses seres e com o próprio povo Griffon!
Taty deslumbrou-se com aquele lugar. Mesmo com toda aquela simplicidade (sim, pois ela estava acostumada era aos luxos de um palácio real, como o castelo dos Hollerbach) ela ainda perdeu alguns minutos, boquiaberta, sem palavras para expressar sua surpresa e admiração.

─Como... como isso é possível? ─ela questionou. Esperava que o interior da Toca fosse escuro e frio, mas o calor e a claridade do lugar a surpreenderam.

─Essência ─Alice Raio-de-Sol disse. ─Os Griffon, durante o Êxodo, acolheram nosso povo, ou pelo menos a parte do povo que conseguiram salvar, e desde então temos vivido juntos. Nada mais justo que as Fee fazerem algo por eles também.

─Verdade! ─Shiro disse, de repente. ─A senhora é uma Fee! Mas... eu não vi nenhuma outra aqui...

Alice Raio-de-Sol não respondeu de imediato. Ajudou Taty a colocar Chii deitada sobre um cobertor grosso de lã escura e depois cobriu a menina com outra coberta, essa de lã mais clara. Respondeu a ele:

─Eu sou a última Fee aqui, com os Griffon. Existem outras poucas espalhadas por Disturbed, mas aqui, nas florestas do norte, resto apenas eu. O nosso povo preferiu escapar desse mundo enquanto ainda tinha tempo.

Tanto a Guardiã quanto o Sentinela sabiam do Êxodo. As Fee abandonaram Disturbed aos poucos depois que Julien Hollerbach casara-se com o Rei Vermelho, que logo depois se tornou o Imperador Vermelho e promoveu a Grande Guerra se aproveitando do poder da Torre do Cego e da Essência da terra de Licht. Quando a guerra de fato estourou e os exércitos começaram a avançar contra os reinos vizinhos, conquistando cada vez mais poder, as Fee resolveram fugir para algum outro lugar e levando consigo parte da Essência de Licht. As poucas Fadas que permaneceram em Disturbed se esconderam em lugares isolados e praticamente nunca mais foram vistas, tornando-se meras lendas de tavernas.

Entraram mulheres na Toca trazendo comida para eles. As tigelas de cerâmica moldadas à mão pelos Griffon continham carne de cervo, peixes e molhos escuros de cheiro agradável. Tinha também folhas de todos os tipos das lavouras cultivadas do lado onde o sol batia mais forte naquelas florestas. Elas traziam jarras também cheias com vinho e água do riacho que corria ali por perto, além de outro produto que eles cultivavam de acordo com as instruções das Fee de épocas passadas.

─Vamos, comam e bebam ─Alice Raio-de-Sol disse, levantando-se e saindo da Toca. ─Descansem pelo tempo que precisarem. Nós nos falamos mais tarde, tudo bem?

─Agradecemos. ─Taty disse, balançando a cabeça.

─Muito obrigado, Rainha. ─Shiro disse, curvando a cabeça.

─É o mínimo que podemos fazer meus caros. ─ela disse, já de fora da Toca. 
─Essa menina e vocês dois passaram o inferno a noite passada, eu sei. Não sei exatamente como foi, mas eu sei. Merecem o descanso que lhes oferto.

E assim, ela saiu, deixando-os com sua comida e bebida servidas de forma farta. Enquanto comiam, os dois conversavam baixinho.

─Não gostei daquele rei. ─Shiro disse, com um pedaço de carne de cervo entre os dentes e assim como Milla Fong se referia a Julien sem o menor respeito, ele o fazia por Kram Helds, por isso o “rei” com letra minúscula. ─Ele me causou uma impressão muito ruim.

─Eu também penso assim ─Taty concordou. Ela mastigava as folhas de sabor doce que jamais havia comido antes. ─Ele exala uma aura ruim. Ele demonstrou desejou especial pela Espada de Cristal. Tome cuidado, está certo?

Shiro sorriu para ela, concordando com a cabeça.

─Eu acho impressionante o modo como eles vivem aqui. ─ele disse, mudando de assunto. ─É tudo tão...

─Bonito e natural! ─ela completou e ele balançou a cabeça, concordando. 

─Exceto por aquele rei. Ele destoa de alguma forma de todo o próprio povo.

─Mas a Rainha é ótima! Ele não só é generosa como também muito linda!

─Eu só vi uma Fee diante de mim a minha vida toda. A Rainha Julien, sabe? Mas agora, ao ver a Alice tão de perto, fiquei...

─Deslumbrada! ─ele disse, desta vez completando a frase dela. Os dois riram. 

─Aceita vinho senhorita Yue?

Ela enrubesceu imediatamente.

─Eu... nunca bebi isso antes.

─Bem, sempre há uma primeira vez, certo? ─ele disse, sorridente, estendendo a jarra para ela. ─Vamos senhorita Yue, só um gole. Vai gostar!

E ela tomou da jarra e bebeu um gole pequeno. O sabor do vinho inundou-lhe a mente e era simplesmente a coisa mais doce e saborosa que ela já provara.

─Maravilhoso! ─ela exclamou. ─Nunca bebi nada tão...

─Saboroso?

─Bem, eu ia dizer sublime! ─ela falou sem jeito, e os dois caíram na risada.

Sem querer delongar esse assunto, devo dizer que Taty e Shiro exageraram um bocado com esse vinho. Por mais que eles bebessem, a jarra não ficava vazia. Na verdade, se eles não estivessem ficando alterados demais, perceberiam que a quantidade de vinho na jarra não mudava, permanecendo sempre a mesma, gole após gole.

Isso acontece não por alguma mágica das Fee, mas sim pela simples e gloriosa habilidade dos Griffon de fabricarem aquelas jarras. A história sobre essa habilidade não importa. O importante é saberem todos que, não importa o quanto alguém beba de uma jarra dos Griffon, o conteúdo jamais secará.

Jamais!

E assim, os dois se embebedaram e acabaram caindo no sono, como é típico de quem ingere vinho demais em tão pouco tempo. Acordariam mais tarde, quando o sol já tivesse se posto e Alice já tivesse tido seu confronto com o Rei Kram Helds, mas nenhum deles saberia disso.

E também, acordariam muito depois que Chii despertasse.

14

Bons Hóspedes Não 
Causam Tumulto

Conhece a história
Da menina que comeu uma maça
E dormiu quase pra sempre?

Alice Raio-de-Sol era mesmo Rainha dos Griffon, mas sua autoridade não era nada perto de Kram Helds, o homem que domou Dragão Feuer. Os Griffon adoravam a Fee pela sua graciosidade, pelo seu carisma, pelo seu coração. Por essas razões ela era Rainha.

Kram Helds era Rei porque ele cavalgava Feuer e ninguém, em nenhuma hipótese, ousaria questionar sua autoridade.

Ele não era um homem impressionante de fato. Apesar de eu não gastar muito tempo em descrições masculinas (coisa que todo mundo deve ter notado), abro uma exceção agora. Afinal, o homem é um Rei!

Pois bem, Kram Helds era um homem de estatura baixa e físico comum. Nada muito impressionante. Os cabelos eram compridos, caindo pelas costas em um rabo-de-cavalo bem preso com cordinhas de cipó e apenas algumas mechas cobriam a testa quadrada. Os olhos pareciam com os de uma doninha, ou outro bicho mesquinho e malandro, prateados. O queixo era quadrado, com uma linha que o dividia ao meio perfeitamente. Naquela ocasião ele vestia calças de couro marrom-escuro e uma camisa simples e aberta, com tiras de couro que caiam pela cintura. O rosto era coberto por duas cores de tinta; a metade direita era azul, enquanto a metade esquerda era vermelha. Ele tinha as mesmas pulseiras que Alice Raio-de-Sol trazia nos pulsos e suas orelhas eram furadas com algo que Taty e Shiro imaginaram serem garras de Grifo.

E de fato, eram mesmo garras de Grifos que Feuer matara uma vez.

─Minha Rainha ─ele disse, estendendo a mão para Alice Raio-de-Sol, colocando-a de pé. Ela era realmente muito alta perto dele. ─Eu fico agraciado em vê-la novamente, assim tão de perto. ─ele beija as costas da mão dela e sorri de forma desconcertante. ─Quem são os convidados, minha cara?

Ela não respondeu. Não porque não quisera, mas porque Helds simplesmente deixou a pergunta no ar, para que eles próprios, os “convidados”, respondessem.

─Eu sou Taty Yue Patricius, Guardiã da princesa Chii Hollerbach de Amarante. ─ela disse. ─Este é o Sentinela Gan Shiro. ─e ele agora fez uma reverência, mais por costume do que por respeito. ─Sua Rainha nos encontrou em uma caverna próxima daqui e...

Ela se calou quando Helds se dirigiu até ela. Taty abraçava Chii com força nos braços, tendo uma sensação péssima enquanto aquele homem se aproximava. 
Ele falou:

─Então essa criança é a elfa filha de Julien, a Rainha Fee?... ─estendeu a mão para tocar a testa de Chii, mas Taty se afastou abruptamente. Ela percebeu que Shiro apertou o cabo da espada com força nesse instante. O Rei gargalhou: ─Acalme-se guardiã! Eu não sou o inimigo aqui! ─ele se voltou para Shiro e apreciou a espada que ele carregava, dizendo: ─Você tem uma arma interessante rapaz. Uma arma digna de um soldado de classe e prestígio muito maiores que os que um mero Sentinela merece ter.

─O quê?! ─ele exclamou, furioso. Apertou ainda mais forte o punho da espada.

─Essa não seria a Espada de Cristal? Aquela que o Imperador Vermelho deu a seu comandante após o Êxodo? ─ele parecia uma criatura vil falando daquela maneira. ─Isso não pertence a seu povo, minha Rainha?

E Alice-Raio-de-Sol engoliu em seco. Ele sabia e ela se perguntou como afinal de contas podia saber daquilo. A lenda da Espada de Cristal era sim muito conhecida, e até mesmo o fato de ter sido dada a um dos comandantes do Imperador Vermelho era sabido por todos, mas agora ele saber que AQUELA era a tal espada era demais.

Absurdamente, saber demais.

─Você ficou sem palavras, percebo. ─ele disse. Agora sua voz perdia o tom sarcástico e se tornava grave e autoritária. ─Esse é um tesouro de seu povo minha Rainha, eu estou certo? E sendo assim, é um tesouro seu e, sendo assim, obviamente, é um tesouro do povo Griffon ─ela arregalou os olhos, percebendo aonde ele pretendia chegar. Na verdade, Taty e Shiro também perceberam aonde a conversa ia parar. ─E se pertence ao povo Griffon, nada mais justo que seu Rei carregá-la!

A aldeia sentiu a pressão que envolvia a todos. Feuer bateu as asas com violência, rugindo bem alto. Os Grifos apenas recuaram, abrindo espaço no qual estavam, exceto Adler, o Grifo de Alice Raio-de-Sol. Este apenas bradou de volta, também sacudindo as asas com força. Shiro empunhou a espada à frente e sua Essência brilhou com força. Ele disse, furioso:

─Pois se você a quer, você terá de vir pegá-la, seu miserável!

─Shiro! ─Taty disse, sentindo o frio da Essência dele envolver tudo. Agora estava ainda mais forte que na primeira vez que ela sentira, durante a luta contra Ura, o Golem.

O Rei apenas riu, debochado.

─Acalme-se garoto, acalme-se. Eu não pretendo tomá-la de você. ─ele encarou os kanjis Shuyo no pescoço de Shiro e franziu o cenho um pouco: ─Eu sei muito bem o que a Essência que você carrega pode fazer. Imagino o que é capaz de fazer portando uma arma como essa. Eu não pretendo lutar com você, não se preocupe. Baixe sua guarda, por favor.

Mas ele continuou irradiando o poder. A espada tremia em suas mãos. Ele não sabia por que, mas tinha era muita vontade de saltar contra ele e arrancar sua cabeça, congelar o restante de seu corpo e depois, despedaçá-lo em milhares de pedaços.

─Shiro! ─Taty gritou para ele de novo. ─Shiro, se acalme!

E dessa vez ele ouviu. Ainda com a expressão fechada, como uma criança repreendida por um adulto desconhecido, ele baixou a espada e deixou que sua Essência se acalmasse, desaparecendo completamente aquele brilho fantástico que ostentara tão depressa.

─Muito bem! Está tudo certo! Minha Rainha ─ele chamou e Alice se postou ao lado dele. ─Providencie para que eles tenham o melhor tratamento possível! O que quiserem comer ou beber e providencie um banho para eles e depois lhes mostre onde podem dormir se estiverem realmente cansados, tudo bem?

Ela aquiesceu. Taty percebeu o semblante da Rainha mudar de sua jovial expressão para uma face quase totalmente infeliz.

─Eu estarei com Feuer, voando através das alturas ─e assim, ele saltou novamente no Dragão, alçando vôo novamente.

A Rainha sentiu-se relaxar.

─Eu peço perdão por agora a pouco ─Shiro disse, cabisbaixo. Os Anciões apenas aquiesceram e se retiraram. As demais pessoas também saíram, retornando aos seus afazeres. Shiro voltou-se para Taty então, dizendo: ─Senhorita Yue, eu sinto a vergonha passada.

─Esqueça! Para mim não foi vergonha alguma.

Ele pareceu não compreender até que viu os clones dela descerem das árvores e desaparecerem em seguida. Ela disse:

─Se ele lhe tomasse a espada, nem consigo pensar o que faria depois. ─apertou Chii nos braços com força. ─E, além disso, o próprio Comandante lhe deu a Espada de Cristal. Ela é sua! Unicamente sua! ─olhou para Alice Raio-de-Sol esperando que ela concordasse. Ela aquiesceu sorrindo e Taty continuou: ─Além disso, a espada é um artefato de Amarante e Chii é a princesa de Amarante, então essa espada deve ser usada para protegê-la e, portanto, esse é o seu trabalho agora, Portador da Espada de Cristal.

Shiro sorriu para ela, concordando. A Rainha Alice Raio-de-Sol sorriu de volta para eles e disse:

─Muito bem, eu imagino que todos vocês tenham tido uma noite não das melhores e provavelmente não comeram nada muito agradável. Venham comigo! Temos comida e camas confortáveis para vocês!

Taty concordou e os dois se puseram a caminhar com ela. Os aldeões os olhavam com um misto de curiosidade e temor.

Mas havia outros que os viam com um tanto de respeito.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

13


Griffon
E se ergueram
As flâmulas do desespero
Antes, o Imperador Vermelho era o príncipe Rothaarig, um mero pretendente ao trono de Amarante que na época era governada pelos Patricius. Mas sob a ameaça dos Nove que vieram do Deserto Escuro em busca da Essência das Fee de Licht, ele foi o primeiro a se levantar e lutar contra eles. Em seu ímpeto para salvar as Fadas de Disturbed, o príncipe recorreu aos Griffon, o povo guerreiro com o qual ele imaginou que poderia contar.
E contou, de fato.
E assim se deu a aliança entre Amarante e os Griffon, pela primeira e única vez em toda a história.
Porque quando o príncipe virou Rei e depois se tornou Imperador e começou a conquistar os reinos vizinhos com força e autoridade, os Griffon se recusaram a participar de tal campanha de violência e ultraje. O respeito dos Griffon pela Rainha Julien permaneceu intacto, mas o mesmo jamais poderá ser dito em relação ao Imperador Vermelho.
Os Grifos sobrevoaram a floresta com o bater de suas asas poderosas por pouco tempo, mas foi um momento único, fantástico e mágico. Voar montando uma criatura daquelas era apenas um sonho para Taty e simplesmente impossível para Shiro. O cheiro da floresta, o odor das penas dos Grifos que cortavam o ar em batidas fortes de asas imensas e o perfume de Alice raio-de-Sol tornava tudo ainda mais etéreo que qualquer alucinação que qualquer mente insana pudesse produzir.
E naquele instante, Taty e Shiro desejaram que essa sensação fosse mais forte que o tormento da noite passada.
Infelizmente para os dois, não era de forma alguma.
Em meio à mata, Taty e Shiro viam surgir um aglomerado de colinas e formações rochosas antigas e em meio a elas, a aldeia-forte dos Griffon surgia. Os Griffon são um povo de natureza bem diferente do restante dos humanos. Suas construções são feitas em meio às árvores, colinas e montes. Em meio das serras e dos planaltos da região, Taty e Shiro viam do alto as casas que entranhavam e emergiam da terra, fazendas de animais e hortas cultivadas junto da relva, das depressões e dos vales do lugar. As árvores tinham casas construídas em meio a seus galhos, principalmente as mais altas e velhas, repletas de pessoas que residiam nelas de forma tão natural quanto o povo de Amarante vivia em casas construídas no chão. Havia cavernas também, e eram muitas e mesmo sem saberem, Taty e Shiro imaginaram que elas poderiam ser usadas para alguma coisa sagrada ou mística. As pessoas lá embaixo acenavam exultadas, enquanto os Grifos passavam em vôos rasantes, aterrissando na grama e nas pedras da vila.
Taty notou com prazer que quando Alice Raio-de-Sol desceu de sua montaria alada, crianças correram aos montes até ela.
─Alice voltou! ─gritavam umas, correndo pela vila.
─É a Alice! A Alice! ─outras berravam, apontando e correndo na direção dela em seguida.
─Ela está de volta! ─outras falavam, com lágrimas nos olhos.
E Taty imaginou que, se as coisas em Amarante fossem diferentes, Julien seria uma Rainha dessa espécie para o povo.
─Ora, acalmem-se. ─Alice Raio-de-Sol dizia, abraçando as crianças que se aproximavam. ─Eu disse que voltaria. Eu só saí por uns instantes.
─E olhem aqui! ─um dos guerreiros ainda montado no Grifo gritou, atraindo as atenções. ─Eu peguei coelhos gordos para comermos!
─Vejam só! ─outro guerreiro gritou, mostrando dezenas de peixes em uma rede presa às costas do Grifo.
─Isso ainda não é nada! ─um terceiro exclamou. O Grifo dele trazia um enorme cervo nas garras afiadas. ─nós teremos um jantar maravilhoso essa noite!
E então a vila comemorou aos gritos. Alice dispensou as crianças para que elas ajudassem os caçadores com suas presas, enquanto recebia a atenção dos mais velhos da aldeia. Taty percebeu que eles a reverenciavam e ela, mesmo se tratando de uma Fada, curvava a cabeça a cada um deles, sorrindo majestosamente.
─Senhores Anciões, perdoem minha ausência repentina, mas eu precisei partir com meu Grifo Adler depressa. Sinto muito pela minha ousadia em deixá-los sem informação alguma. ─ela fez uma mesura com a cabeça.
─Todos nós sentimos a perturbação da noite. ─um deles disse, soturno, mas logo em seguida, o velho sorria para ela: ─Mas deixe disso, Majestade. A senhora teve lá suas razões ─ele olhou por cima do ombro dela, que era muito alta perto deles e perguntou: ─Quem são seus convidados?
Ela preparou-se para responder, mas um rugido fantástico a calou de súbito. Era um som ainda mais elevado e muito mais ameaçador que o grasnar dos Grifos ali presentes.
─O Rei... ─um dos caçadores disse ao lado de Shiro e eles olharam para cima.
E pela segunda vez naquele dia, Taty se deslumbrou, mas com muito mais intensidade que antes. Sim, ver um Grifo com uma Rainha Fee montada em suas costas é de impressionar qualquer um, ainda mais quando ela lidera um grupo de outros cinco daqueles animais fantásticos, mas o que ela via descendo em meio às árvores, batendo aquelas asas formidáveis no ar era ainda mais impressionante.
Isso porque ver um Dragão Vermelho frente a frente era coisa apenas que poucas pessoas conseguiram e menos pessoas ainda conseguiram voltar para contar como era.
─Esse... esse é o rei dos Griffon? ─ela perguntou, receosa, sentindo um calafrio subir pelas costas.
Um dos caçadores disse que sim e ele mesmo estremeceu.
O Dragão pousou com um estrondo no chão. As patas imensas e com garras que se projetavam a frente afundaram na grama, enquanto a criatura deslumbrante encarava a todos ao redor com seus olhos amarelos e pupilas em fenda. Recolheu as asas para junto do corpo, envolvendo-se como em um manto e mais uma vez rugiu, desta vez mais baixo, porém igualmente ameaçador.
Quando o Rei desceu das costas do Dragão, os Griffon ali reunidos se ajoelharam, em reverência. Até mesmo a Rainha Alice Raio-de-Sol se curvou, depositando a lança longa no chão em respeito a ele. Ela disse, com a voz firme de sempre, carregada de uma força que Taty ainda não havia sentido antes:
─Bem-vindo de volta ─ela encarava o chão, enquanto ele avançava passo a passo na direção dela. ─Rei Kram Helds.
E o homem sorriu, exibindo uma fileira de dentes perfeitos.

12


A Outra Rainha Fee
A Essência do perfume dela
Era como um mar de rosas
Em pleno deserto escaldante
Os clones de Taty se colocaram em posição de combate, enquanto ela própria ainda abraçava a princesa Chii nos fundos da caverna. Lá fora, um Grifo imenso e uma mulher bárbara faziam sons ameaçadores e capazes de perturbar o coração de qualquer pessoa.
Era uma mulher linda da tribo dos Griffon. Os cabelos ruivos eram imensamente longos, alcançando quase a altura dos joelhos dela. O corpo era magro e parecia ser bastante flexível. As pernas longas e de coxas torneadas. O rosto era oval, com olhos grandes e íris acinzentadas. Ela tinha pinturas na face; linhas azuis que contornavam os olhos e outros traços vermelhos que desciam como lágrimas através do canto do rosto. Os lábios largos e carnudos. As roupas pouco faziam para esconder o corpo magnífico; os seios volumosos eram cobertos por algo que parecia seda branca, sobreposta em várias camadas e que caiam pelos ombros em longas faixas cortadas, como as penas de um pássaro. Na cintura ela vestia apenas uma peça única de couro que nem chegava ao meio das coxas incríveis. Os pés calçados com sandálias de couro fino que eram amarradas em torno das canelas. No pulso direito ela trazia pulseiras de pano verdes, vermelhas e azuis. Uma braçadeira dourada envolvia seu braço esquerdo e luvas de couro lhe cobriam as mãos.
O Grifo grasnou alto e a mulher ergueu a lança que carregava emitindo um grito agudo. A lança longa tinha a ponta de pedra e nesse instante ela brilhou de maneira intensa, tornando aquela uma visão, no mínimo, mágica.
E nesse ponto, o gelo que cobria o corpo de Shiro se despedaçou completamente, ao mesmo tempo em que cinco outros Grifos pousavam na relva, cada um com um guerreiro em suas costas.
─Shiro! ─Taty gritou de dentro da caverna, surpresa.
Ele se virou para ela com o olhar firme. O gelo em seu braço refletia a luz da lança da mulher Griffon como um espelho.
─Está tudo bem, senhorita Yue! ─ele disse, empunhando a espada à frente. ─Eu protegerei você e a princesa Chii dessa vez!
Os Griffon berravam, misturando suas vozes com o grasnar de seus Grifos. A mulher ruiva saltou para a grama e apontou a lança para frente. Os clones de Taty saltaram cada uma em uma direção, esperando pelo combate.
─Não estamos procurando combate, entenderam? ─Shiro gritou com imponência. ─Mas se quiserem, eu terei prazer em lutar com cada um de vocês!
A mulher então falou e sua voz soou calma e sem ameaça:
─Nenhum de nós deseja isso, portador da Espada de Cristal. ─ela abaixou sua lança e continuou: ─Nenhum Griffon ousaria atacar a última herdeira dos Hollerbach de Amarante. Ainda mais se tratando da princesa Elfa Chii, filha de Julien Hollerbach. Por favor, abaixe sua espada.
Shiro e os clones se entreolharam, desconfiados. Taty avançou para fora da caverna com a princesa ainda dormindo em seus braços e perguntou:
─E como podemos ter certeza disso? Quem é você e que garantia pode nos dar?
─Entendo sua desconfiança, Guardiã. Os Griffon há muito tempo se mostraram contra o imperialismo de Amarante, mas jamais fomos contra a Rainha Fee, Julien Hollerbach. ─ela fez uma pausa longa. Os olhos dela encararam o chão por um momento, como se sentisse um pesar muito grande no coração. Continuou, voltando a encará-los com firmeza: ─Eu sou a Rainha Griffon, Alice Raio-de-Sol e como amiga de sua finada Rainha, eu lhes peço ─e nesse ponto ela curvou a cabeça com respeito. ─Permitam-me ajudá-los nesse momento tão cruel.
Taty e Shiro estavam perplexos. Aquela mulher falava com uma autoridade evidente, mas ao mesmo tempo, exalava uma tristeza genuína em cada uma de suas palavras.
─Senhorita Yue? ─Shiro disse a ela.
No instante seguinte, cada clone de Taty se esvaneceu, como fumaça. Alice Raio-de-Sol sorriu com gentileza e lhes pediu:
─Por favor, permitam-me levá-los para um lugar mais seguro e confortável. Nossa aldeia não fica muito longe daqui. Por favor, nos acompanhem.
─Antes, esclareça uma coisa ─Taty disse. ─Você disse ser amiga da Rainha Julien?
Ela aquiesceu apenas. Outra vez o pesar se mostrou em sua face bela e Taty pôde sentir a tristeza de sua alma, percebendo afinal o que era de fato evidente. Ela disse:
─Shiro, vamos acompanhá-los.
Ele concordou com a cabeça, sentindo uma estranha confiança no julgamento daquela Guardiã. Também sentia algo em relação à Alice-Raio-de-Sol, mas não compreendia ainda o que era.
Assim, ambos montaram os Grifos com seus guerreiros formidáveis e alçaram vôo pelos céus. Taty ia montada no mesmo Grifo que Alice Raio-de-Sol com Chii ainda adormecida em seus braços. De perto, aquela mulher era ainda mais linda e formidável. O cheiro dela era como o perfume de um jardim maravilhoso da terra de Licht, cultivado pelas Fee antes do Êxodo.
E ela pensou que era natural aquela mulher cheirar daquela forma porque, afinal de contas, ela também era uma Fee.
A tribo dos Griffon sempre viveu naquelas florestas do norte, desde a primeira memória do mundo. Eles são como um povo bárbaro, afastado do restante do mundo não por medo, porque existem poucas coisas em Disturbed tão pavorosas e ameaçadoras quanto esse povo, que cavalga um ser tão arisco quanto um Grifo, mas sim por escolha própria. Eles preferiram deixar que o mundo seguisse seu caminho por conta própria sem interferirem, esperando assim que também ninguém interferisse com seu modo de vida.
Mas claro, nunca é assim que acontece.

11


No Lugar Errado
Ela apenas
Dormiu
Por mais tempo
Do que seria realmente
Saudável
Taty voltou para a caverna carregada de cogumelos azuis. Chii estava sentada ao lado de Shiro envolta com a capa vermelha dele sentindo o vento soprar do lado direito de seu rosto. Daquela distancia, Taty observou com apreço como ela era linda. Os cabelos loiros muito longos dançando com o vento junto da capa vermelha, criando um contraste semelhante a uma pintura. Aqueles olhos azuis fantásticos encaravam o vazio e seu rosto alvo sem expressão se assemelhava a uma estátua de gesso.
A Elfa só percebeu a chegada de Taty quando ela já estava bem próxima e deu um grito de alegria, saltando da rocha e correndo em sua direção.
─Aaaah!!! Você conseguiu! ─ela disse, abraçando-a com força e derrubando parte dos cogumelos.
─Ei, ei! ─Taty disse, rindo. ─Está tudo bem? Eu disse que conseguiria alguma coisa pra comermos!
─O que são essas coisas? ─ela se abaixou e pegou um cogumelo caído no chão. ─Tem certeza que isso é de comer Taty?! ─ela parecia muito desconfiada.
─Bem, eu vi um coelho comendo, então acho que não tem problema se comermos. ─ela respondeu, sentando-se na grama em frente de Shiro. ─Hum... ele ainda não descongelou?
─Nada. Por quanto tempo acha que ele ficará assim?
─Não faço idéia, mas espero que até a noite ele volte ao normal. ─Taty juntou todos os cogumelos. Eram doze ao todo, todos de um bom tamanho. ─Bem, vamos comer?
─Assim?! Crus?!
E Taty percebeu que ela não sabia fazer fogo. Na noite anterior, pela mais pura sorte, Shiro encontrara aquela caverna e em seu interior havia madeira seca o bastante para queimarem. Ele pediu que Taty segurasse a espada, enquanto ele esfregava uma pedra na lâmina, gerando faíscas. Parecia uma tarefa fácil, mas ela não fazia idéia se seria seguro tocar naquela espada.
─E se eu tocar nela e congelar também? ─ela disse, com medo.
─Nãããão!!! ─Chii resmungou. ─Você não pode virar estátua de gelo também! Já basta o senhor Shiro!
─Bem, então vamos ter de comer isso cru mesmo... ─mas ela própria não parecia muito motivada a isso. ─O gosto não deve ser assim tão ruim...
Mas ela imaginou as fibras daquele cogumelo em sua boca e sentiu enjôo. Imaginou o que, por acaso, teria passado por perto deles, talvez crescido perto deles ou mesmo se esfregado por acidente em um ou outro. O estômago se revirou uma vez de nojo, mas uma segunda vez de fome. Uma fome voraz que foi respondida pelo estômago da princesa Chii.
─Como é possível uma menina dessas ter um estômago roncando assim?! ─ela pensou, completamente abismada. ─Parece um monstro! ─e seu próprio estômago respondeu novamente, ainda mais alto. Ela então disse: ─Certo, Chii! Eu comerei primeiro e se o gosto for bom... ─mas ela se calou, arregalou os olhos e depois deu um grito agudo. Chii estava com dois cogumelos na boca e mastigava com vontade. ─O QUE É ISSO?!
─Taty! ─ela falou, ainda mastigando. A ponta de um cogumelo saindo pelo canto da boca. ─Come logo! É gostoso!
Taty ficou pálida.
─Chii... e se isso fizer mal? Você deveria ter me esperado comer!
─Mas você disse que viu o coelho comer e que assim tava tudo bem...? ─ela parou de mastigar de súbito, olhando desconfiada para a amiga. ─Você disse isso porque é verdade, não é?
─Bem... eu não exatamente VI o coelho comer... entende?
Chii cuspiu o restante dos cogumelos em Shiro. Com a língua para fora, ela olhava estupefata para Taty e gritava:
─QUE DIABO DE GUARDIÃ VOCÊ É?! ME DANDO COGUMELOS VENENOSOS PRA COMER?!
─Ooohhh, calma ae! Eu não disse que eram venenosos. Eu disse que PODERIAM fazer algum mal! É diferente, não é?
Mas a resposta da princesa foi uma série de bufadas violentas. Ela encarava Taty com os olhos arregalados e o cenho franzido. Parecia louca, na verdade. Ela estendeu um cogumelo para ela e disse com voz autoritária:
─Agora você tem de comer!
─HÃ?! TA DE BRINCADEIRA NÉ?!
─Não, não estou! ─Chii respondeu, sacudindo a cabeça para os lados. ─Você prometeu cuidar de mim, lembra? Então se eu morrer nós temos de morrer juntas!
Taty se afastou dela se levantando e fazendo uma careta de pavor.
─E-eu nunca disse que morreria com você!... Sua estranha!...
Chii inclinou a cabeça para o lado e fez cara de ofendida. Os olhos pareceram se inundar com lágrimas em um instante e Taty sentiu o coração partindo.
Partia, sim, mas nem por isso ela comeria aqueles cogumelos.
─Vamos... ─Chii disse, devagar. ─Coma! Eu estou te dizendo pra comer... ─a voz dela de repente ficou arrastada e sonolenta. Os olhos se fechando bem devagar. ─Coma logo... Sr. Coelho!
E Taty pensou ter ouvido coisas nesse ponto.
─O que?! Sr... Sr. Coelho?
─Não seja chato seu coelho de orelhas roxas! Coma logo e vamos brincar! ─ela abriu um sorriso abobalhado. Os olhos pareciam fechados, mas ainda não estavam.
─Chii... você está bem?
─Claaaaaaaro que eeeeeesssssssss... ─pausa. Ela pareceu perder o fio da conversa até exclamar, de repente: ─TOU! ─e assim, jogou o cogumelo para o alto. ─Pega Sr. Taty Coelho! Pega!
O cogumelo bateu na cabeça de Taty e caiu no chão. Ela viu assombrada Chii fazer uma cara decepcionada e resmungar:
─Você é muito chato, Sr. Taty Coelho! ─e voltando-se na direção de Shiro ela pareceu se animar, gritando com escândalo: ─UM BONECO DE NEVE!!!
Lembra-se das flores que ela espalhou por ali, não? Pois a menina se ajoelhou e começou a pegá-las e com ambas as mãos esfregá-las na face congelada de Shiro. Ela se mostrou feliz e animada de um instante para o outro e chamou Taty para ajudá-la:
─Não seja chato, Sr. Taty Coelho! VeeeeeeeeeeeeeeeNHA! Vamos fazer um boneco de neve bonito!!! ─e caiu na risada, sozinha.
─Meu Deus ─Taty disse, sem ação. ─A Chii... ta viajando! ─ela olhou para o cogumelo caído e acabou pensando no coelho que ela imaginava tê-los comido. Começou a rir vendo a imagem perfeita de um coelho louco pela floresta, escalando árvores e saltando, pensando ser um pássaro ou coisa assim.
E Chii, em seu estado totalmente alterado, ria e cantava, esfregando as flores no rosto gelado de Shiro.
Eu sou um bolinho de arroz (de arroz!)
Meus bracinhos vieram só depois (só depoiiiissss!)
Minhas perniNHAS ainda estão por vir (esssstão por viiiir!)
E eu não tenho boquiNHA pra sorrir (pra soooorrrrrir!)
PORQUE EU SOOOOU UM BOLINHO DE ARROZ...
...e assim ela continuou cantando e Taty pensou que aquele poderia ser o último momento realmente feliz dela, ou talvez fosse o primeiro, depois da noite anterior.
─Uma pena ─ela disse a si mesma, baixinho. ─Quando o efeito desse cogumelo passar... a realidade vai bater na face dela com força... ─e uma lágrima escorreu dos olhos dela. Taty esfregou os olhos com força e disse, animada: ─Chii! O Sr. Taty Coelho vai te ajudar!
─AYE!!! ─ela exclamou, jogando os braços para cima e falando com a voz já embargada: ─Tuelho! Tuelho! Tuelho!
E assim, ela caiu no sono de repente.
Agora, Taty a segurava no colo, nos fundos da caverna. Ainda não passava do meio-dia e o sol ainda rebatia sua luz cálida nas paredes frias de pedra onde elas estavam. Agora, a menina dormia profundamente e seu rosto finalmente mostrava um semblante sereno e tranquilo.
E Taty quase chorou, uma vez mais.
─Que coisa... como tudo isso pôde acontecer? Assim... tão depressa...?
O vento soprava lá fora, sem vontade. Apesar do que ela dissera a Shiro antes, ela nem precisou se concentrar para sentir a Essência Sombria no castelo Hollerbach. Perceber aquela presença era tão natural quanto respirar; você não se lembra que tem de respirar, mas ainda assim o faz. Sentir aquelas Essências Sombrias era igual.
Ainda mais, a Essência dele.
─Miseráveis! ─ela pensou, sentindo-se irritada profundamente. ─Eu não os perdoarei! Nunca os perdoarei por isso! ─e quando Chii se mexeu no colo dela, provavelmente sonhando com algo muito diferente da situação atual, ela se forçou a sorrir. ─Durma Chii, durma. Durma e sonhe pelo maior tempo possível!
Olhou para fora, apreciando o balançar dos galhos e folhas das árvores ao vento. Não tinha porque se preocupar com soldados da Horda porque estavam muito longe. Se Julien planejou ou não esse movimento, Taty não fazia idéia, mas ela as mandara para um ponto bem distante do castelo. O bastante para mantê-las seguras, por enquanto.
Pensando sobre isso, Taty começou a imaginar onde estariam. O castelo Hollerbach estava, pela sua percepção, para o leste. A floresta densa demais tinha um clima frio, com ventos gélidos. Apesar do sol que raiava sem nuvens no céu naquele instante, o ar ainda estava gelado. Mesmo com o meio do dia chegando, a relva e as rochas do lugar ainda estavam úmidas pela chuva torrencial da noite passada.
Ela arrepiou-se, percebendo o que era tão evidente.
─Essa não! Essas são as florestas...
Mas sua compreensão chegou tardia. O ar se moveu de maneira brusca de repente e um grasnar elevado tomou o lugar. Ela se levantou com os punhos fechados e a certeza cada vez mais amarga de que estavam no lugar errado. O momento, não importa qual fosse, sempre seria errado também.
─Nós não devíamos estar aqui! ─ela gritou, evocando sua Essência brilhante e novamente criando três clones de si mesma, surgindo ao seu redor e correndo para fora da caverna. ─Isso vai ser muito sério! ─ela gritou, abraçando uma Chii que dormia profundamente.
Do lado de fora, aterrissando majestosamente sobre a grama diante dos olhos dos clones dela, um ser que Taty jamais tinha visto, mas que já ouvira falar em muitas histórias durante a infância. Um ser completamente selvagem que tornava aquela região perigosa para qualquer viajante ou explorador incauto.
Um Grifo. Pousava cravando suas garras de leão na terra e sacudindo asas de águia formidáveis, grasnando com vigor, fazendo um som estridente que reverberava nas paredes da caverna. Taty olhou aquilo estupefata e sealguém lhe contasse, ela jamais acreditaria, mas o Grifo tinha m suas costas uma mulher de aparência fantástica, totalmente diferente dos padrões de Amarante, com cabelos ruivos imensos que se sacudiam no ar.
─Griffon! ─Taty disse no fundo da caverna, enquanto seus clones se colocavam a frente da entrada. ─Os que cavalgam Grifos.
E o grasnar do Grifo, tão agudo e elevado, junto com o grito bárbaro daquela mulher que levantava no ar uma lança comprida a fez tremer.
E ao mesmo tempo, a mão direita de Shiro se moveu.
Um milímetro apenas.

10


Uma Promessa pra Vida Toda
Conte-me como foi
Seu primeiro buquê
De rosas...
─Taty, ele ta morto?
─Não. Pelo menos, acho que não, Chii. ─ela se aproximou dele envolta na capa vermelha de Sentinela. Os olhos dele estavam fechados. Ele ainda estava apoiado sobre a Espada de Cristal, da mesma forma como ela o deixara quando foi se deitar. ─Eu sinceramente espero que não.
A princesa sentiu um arrepio de medo. Aquilo era estranho demais para ela, ainda mais depois dos acontecimentos da noite passada. Ela perguntou à Taty:
─O que vamos fazer agora?
─Eu não sei. Estou tentando entender o que aconteceu com ele...
─Não falo disso! ─ela exclamou.
Taty olhou para ela e chocou-se. A princesa tinha os olhos cheios de lágrimas prestes a escorrer pelo rosto de novo. Ela apertava as mãos com força e tremia, enquanto os dentes rangiam. Ela abaixou a cabeça e passou as mãos pelo grande cabelo loiro bagunçado e os olhos ficaram cobertos por eles. Ela disse com um murmúrio:
─Perguntei o que vamos fazer AGORA. Para onde vamos? ─ela fungou algumas vezes, se esforçando para conter as lágrimas. ─Se é que nós temos algum lugar para ir...
Taty sentiu um aperto no coração e por isso foi até ela na intenção de abraçá-la. Quando se ajoelhou diante dela, porém, a princesa se afastou bruscamente e ergueu o rosto com os olhos arregalados e uma fúria genuína na face.
─Não faça isso! Eu... eu não quero que me trate como uma criança, entendeu?
─Chii... eu só...
─Eu não permito que me trate assim! Jamais! Nunca mais, você me ouviu?! ─ela gritava e agora, finalmente as lágrimas lhe escorriam pelo rosto. ─Eu... eu... não posso mais... ser assim... tão... ─Taty a abraçou assim mesmo e Chii chorou no ombro dela. ─Tão... tão chorona... Nunca mais...
Novamente, as duas choraram juntas.
Uma chorava de pesar. A outra chorava de fúria.
Estavam secas as roupas, mas ainda frias. Taty se arrepiou quando se vestiu, mas não reclamou. Chii estava sentada do lado de fora da caverna, enquanto o sol da manhã aquecia a relva molhada. Shiro ainda era uma estátua de gelo imóvel.
Taty... você nunca deve deixá-la sozinha.
Ela se lembrava da Rainha Julien. Era impossível não se lembrar.
─Eu farei de tudo por ela, Julien. ─ela disse a si própria. ─Eu juro que darei a minha alma pela felicidade dela!
Saiu da caverna e foi até a princesa sentada nas pedras um pouco mais a frente e sentou-se com ela.
─Eu ainda não sei para onde ir, Chii, mas pelo menos agora sei onde estamos. ─a princesa não se virou para ela. ─Estas são as florestas a noroeste do castelo. Não se preocupe, estamos bem longe daqueles monstros... ─ela parou de falar imediatamente. Viu quando Chii franziu o cenho ao ouvir aquilo. ─Desculpe se disse alguma coisa inapropriada. Eu...
─Você só está tão assustada quanto eu. ─ela disse em um tom de voz completamente diferente. Agora ela falava com mais confiança e seriedade. ─Não tem com o que se preocupar, Taty ─ela se voltou para a Guardiã e não havia lágrimas naqueles lindos olhos azuis. ─Eu protejo você e você também me protegerá. ─abriu um sorriso majestoso que fez Taty deixar o queixo cair. ─Combinado?
─Hã... bem, claro! ─ela disse, efusiva.
─Então toca aqui! ─ela disse, também animada, estendendo a mão direita com o dedo mindinho esticado. Taty sorriu para ela e fez o mesmo, enlaçando o dedo dela com o seu próprio dedo mindinho. Chii disse então, em um tom mais sério: ─É uma promessa pra vida toda, ta bem? Quando eu crescer, você ainda vai ter de tomar conta de mim!
Eu lhe imploro! Por favor, não a deixe sozinha!
─Pra vida...
Eu jamais a abandonarei!
─...inteira!
Eu juro a você!
Aquele era um trato que nenhuma das duas jamais se esqueceria.
Taty não sabia mesmo o que fazer. Shiro ainda estava congelado e ela não fazia a menor idéia de o que fazer quanto a ele.
─Ele disse que congelou o braço quebrado ─ela pensava. ─Será que ele exagerou e acabou se congelando por inteiro? Ou será que é algum poder da Espada de Cristal? Ela o terá rejeitado?
─Taty! ─Chii gritou ao lado dela. O susto a fez dar um pulo da pedra e bater a cabeça num galho baixo da árvore. ─Em que você está pensando ai afinal?
─Hmm... isso doeu de verdade. ─ela disse, coçando a cabeça. ─Acho que vai dar um galo aqui. ─ela olhou para a princesa e respondeu enfim: ─Ah, em nada demais! Só pensando em como o Shiro se transformou naquela estátua de gelo durante a noite.
Chii arregalou os olhos de repente.
─Será que algum espírito-raposa fez isso com ele?!
Taty estremeceu. Ela tinha pavor das histórias sobre espíritos-raposa mesmo sabendo que eram apenas contos de terror para assustar crianças.
─Isso... isso é besteira... ─as pernas dela bambearam ao ponto de Chii ver. ─Espíritos-raposa não existem...
─Então por que você está tremendo Taty? ─ela perguntou com uma expressão desconfiada. Andou em torno dela com a mão no queixo, em dúvida. ─Você não teria medo desses contos que só servem para manter crianças em seus quartos durante a noite, não é?
─E-eu?! Ora... q-que bobagem! ─e no fundo ela pensou: ─Diabo de menina! Pare de me amedrontar!
─Aaaaaahhhhh! Que bom! ─ela disse, alegre. ─Seria muito ridículo se fosse verdade!
Taty estava pálida. Ela sorria simplesmente porque os músculos em sua face estavam paralisados naquela expressão.
─Taty, eu vou procurar alguma coisa para comer. Nessas árvores deve haver algumas frutas gostosas, não é?
─Hã? Oh, é verdade! Você deve estar faminta! Mas fique você aqui com o Shiro! Eu vou e procuro as frutas pra você!
─Ficar aqui? ─ela olhou para Shiro, ainda congelado na entrada da caverna e estremeceu. ─Com ele? Sozinha?
─Eu volto logo, não se preocupe! Vai ficar tudo bem, está certo?
─Mas... mas... ficar aqui... ─olhou para Shiro de novo, tremendo mais uma vez. ─Com ele...?
Taty já estava se embrenhando na mata e gritou para ela:
─Eu volto logo, está bem? ─mas no fundo o que ela pensava era que essa era uma boa lição para Chii. ─Hihihi! Agora vamos ver quem mete medo em quem.
Então Chii ficou ali, sozinha, com a estátua-Shiro na entrada da caverna.
─Droga! ─ela esbravejou, chutando a grama.
A floresta era densa, mas fácil de transitar. Taty procurava alguma fruta que pudesse comer, mas tudo o que encontrava eram cogumelos que ela imaginava serem venenosos. Não encontrava animais, exceto alguns pássaros que voavam rapidamente quando ela se aproximava e um ou outro esquilo, mas esses ela se recusava a comer. Eram bonitinhos demais.
─Se continuar assim eu vou demorar o dia todo até achar alguma coisa. ─ela disse, desanimada, mas então teve uma idéia. Sua Essência raiou um instante e de repente outras três Taty apareceram. ─Agora sim! Vamos à caça!
Chii achou flores em meio às árvores perto da caverna e fizera um buquê muito lindo com várias delas.
─Agora está bonito, senhor! ─ela disse para Shiro.
Ela colocara a capa ao redor dele. Na mão esquerda que estava pendendo ela deu um jeito de fixar o buquê de flores. Depois, com mais flores nos braços, ela o rodeou jogando-as perto dele no chão e pavimentando um caminho que ia dele em direção da floresta. Voltou andando por esse caminho fingindo-se de distraída e quando ficou de frente para ele levou ambas as mãos ao rosto, surpresa:
─Oh! Meu Deus! ─ela se abaixou com uma reverência, erguendo um pouco o vestido. ─Quanta gentileza, senhor! ─ela pegou o buquê da mão inerte e congelada dele e voltou o olhar para ele com ternura. ─Não precisava... ─ela de repente ficou alerta e disse, em tom confidente: ─O que?! O senhor quer pedir a minha mão? ─ficou tímida, até ruborizada ela conseguiu ficar. ─Minha nossa! Que acontecimento! Mas devo lhe avisar! Eu tenho uma Guardiã muito brava! Ela não deixará que o senhor se aproxime de mim assim se souber de suas intenções! ─e então, caiu na risada, feito uma menina. ─Oh, senhor! Como assim vai apresentar um amigo a ela? Acha mesmo que assim ela se esquecerá de mim e me abandonará? ─ficou esperando uma resposta, mas ai a brincadeira havia acabado. Disse já sem entusiasmo, jogando o buquê no chão: ─A Taty nunca... me deixará sozinha.
Sentou-se na grama sentindo um peso no estômago. Era tristeza, ela sabia, mas nem por isso se deixaria chorar. Era vergonhoso demais chorar agora. De novo.
─Eu vou conseguir! ─ela disse a si mesma. ─Eu juro mamãe! Eu vou conseguir! Eu vou lutar!
Taty e seus clones capturaram um coelho, mas ela o libertou. Também era bonitinho demais. Acabou desistindo de pegar qualquer animal que fosse e só coletou cogumelos, confiando que não seriam venenosos.
─Se aquele coelho tinha esses cogumelos azuis na toca dele, então não deve ter problema comê-los! ─ela se voltou para as clones e elas se dissolveram. ─Agora é hora de voltar! A Chii deve estar faminta! Vamos preparar esses cogumelos de algum jeito e comer pra matar essa fome. ─o estômago dela resmungou feito uma fera, assustando um esquilo que descia o tronco de uma árvore para cheirá-la. ─E depois, vamos pensar no que fazer.
E o bom coelho de sorte que ela não quis comer voltou a sua toca, onde tinha restos de cogumelos azuis. Se ela tivesse observado mais atentamente, teria visto que eles eram, na verdade, de um tom diferente dos cogumelos que ela agora carregava. O coelho comeu e saiu de sua toca mais uma vez. Para o azar dele, a lança que o atingiu não era de alguém que evitava comer animais bonitinhos.