sexta-feira, 26 de agosto de 2011

10


Uma Promessa pra Vida Toda
Conte-me como foi
Seu primeiro buquê
De rosas...
─Taty, ele ta morto?
─Não. Pelo menos, acho que não, Chii. ─ela se aproximou dele envolta na capa vermelha de Sentinela. Os olhos dele estavam fechados. Ele ainda estava apoiado sobre a Espada de Cristal, da mesma forma como ela o deixara quando foi se deitar. ─Eu sinceramente espero que não.
A princesa sentiu um arrepio de medo. Aquilo era estranho demais para ela, ainda mais depois dos acontecimentos da noite passada. Ela perguntou à Taty:
─O que vamos fazer agora?
─Eu não sei. Estou tentando entender o que aconteceu com ele...
─Não falo disso! ─ela exclamou.
Taty olhou para ela e chocou-se. A princesa tinha os olhos cheios de lágrimas prestes a escorrer pelo rosto de novo. Ela apertava as mãos com força e tremia, enquanto os dentes rangiam. Ela abaixou a cabeça e passou as mãos pelo grande cabelo loiro bagunçado e os olhos ficaram cobertos por eles. Ela disse com um murmúrio:
─Perguntei o que vamos fazer AGORA. Para onde vamos? ─ela fungou algumas vezes, se esforçando para conter as lágrimas. ─Se é que nós temos algum lugar para ir...
Taty sentiu um aperto no coração e por isso foi até ela na intenção de abraçá-la. Quando se ajoelhou diante dela, porém, a princesa se afastou bruscamente e ergueu o rosto com os olhos arregalados e uma fúria genuína na face.
─Não faça isso! Eu... eu não quero que me trate como uma criança, entendeu?
─Chii... eu só...
─Eu não permito que me trate assim! Jamais! Nunca mais, você me ouviu?! ─ela gritava e agora, finalmente as lágrimas lhe escorriam pelo rosto. ─Eu... eu... não posso mais... ser assim... tão... ─Taty a abraçou assim mesmo e Chii chorou no ombro dela. ─Tão... tão chorona... Nunca mais...
Novamente, as duas choraram juntas.
Uma chorava de pesar. A outra chorava de fúria.
Estavam secas as roupas, mas ainda frias. Taty se arrepiou quando se vestiu, mas não reclamou. Chii estava sentada do lado de fora da caverna, enquanto o sol da manhã aquecia a relva molhada. Shiro ainda era uma estátua de gelo imóvel.
Taty... você nunca deve deixá-la sozinha.
Ela se lembrava da Rainha Julien. Era impossível não se lembrar.
─Eu farei de tudo por ela, Julien. ─ela disse a si própria. ─Eu juro que darei a minha alma pela felicidade dela!
Saiu da caverna e foi até a princesa sentada nas pedras um pouco mais a frente e sentou-se com ela.
─Eu ainda não sei para onde ir, Chii, mas pelo menos agora sei onde estamos. ─a princesa não se virou para ela. ─Estas são as florestas a noroeste do castelo. Não se preocupe, estamos bem longe daqueles monstros... ─ela parou de falar imediatamente. Viu quando Chii franziu o cenho ao ouvir aquilo. ─Desculpe se disse alguma coisa inapropriada. Eu...
─Você só está tão assustada quanto eu. ─ela disse em um tom de voz completamente diferente. Agora ela falava com mais confiança e seriedade. ─Não tem com o que se preocupar, Taty ─ela se voltou para a Guardiã e não havia lágrimas naqueles lindos olhos azuis. ─Eu protejo você e você também me protegerá. ─abriu um sorriso majestoso que fez Taty deixar o queixo cair. ─Combinado?
─Hã... bem, claro! ─ela disse, efusiva.
─Então toca aqui! ─ela disse, também animada, estendendo a mão direita com o dedo mindinho esticado. Taty sorriu para ela e fez o mesmo, enlaçando o dedo dela com o seu próprio dedo mindinho. Chii disse então, em um tom mais sério: ─É uma promessa pra vida toda, ta bem? Quando eu crescer, você ainda vai ter de tomar conta de mim!
Eu lhe imploro! Por favor, não a deixe sozinha!
─Pra vida...
Eu jamais a abandonarei!
─...inteira!
Eu juro a você!
Aquele era um trato que nenhuma das duas jamais se esqueceria.
Taty não sabia mesmo o que fazer. Shiro ainda estava congelado e ela não fazia a menor idéia de o que fazer quanto a ele.
─Ele disse que congelou o braço quebrado ─ela pensava. ─Será que ele exagerou e acabou se congelando por inteiro? Ou será que é algum poder da Espada de Cristal? Ela o terá rejeitado?
─Taty! ─Chii gritou ao lado dela. O susto a fez dar um pulo da pedra e bater a cabeça num galho baixo da árvore. ─Em que você está pensando ai afinal?
─Hmm... isso doeu de verdade. ─ela disse, coçando a cabeça. ─Acho que vai dar um galo aqui. ─ela olhou para a princesa e respondeu enfim: ─Ah, em nada demais! Só pensando em como o Shiro se transformou naquela estátua de gelo durante a noite.
Chii arregalou os olhos de repente.
─Será que algum espírito-raposa fez isso com ele?!
Taty estremeceu. Ela tinha pavor das histórias sobre espíritos-raposa mesmo sabendo que eram apenas contos de terror para assustar crianças.
─Isso... isso é besteira... ─as pernas dela bambearam ao ponto de Chii ver. ─Espíritos-raposa não existem...
─Então por que você está tremendo Taty? ─ela perguntou com uma expressão desconfiada. Andou em torno dela com a mão no queixo, em dúvida. ─Você não teria medo desses contos que só servem para manter crianças em seus quartos durante a noite, não é?
─E-eu?! Ora... q-que bobagem! ─e no fundo ela pensou: ─Diabo de menina! Pare de me amedrontar!
─Aaaaaahhhhh! Que bom! ─ela disse, alegre. ─Seria muito ridículo se fosse verdade!
Taty estava pálida. Ela sorria simplesmente porque os músculos em sua face estavam paralisados naquela expressão.
─Taty, eu vou procurar alguma coisa para comer. Nessas árvores deve haver algumas frutas gostosas, não é?
─Hã? Oh, é verdade! Você deve estar faminta! Mas fique você aqui com o Shiro! Eu vou e procuro as frutas pra você!
─Ficar aqui? ─ela olhou para Shiro, ainda congelado na entrada da caverna e estremeceu. ─Com ele? Sozinha?
─Eu volto logo, não se preocupe! Vai ficar tudo bem, está certo?
─Mas... mas... ficar aqui... ─olhou para Shiro de novo, tremendo mais uma vez. ─Com ele...?
Taty já estava se embrenhando na mata e gritou para ela:
─Eu volto logo, está bem? ─mas no fundo o que ela pensava era que essa era uma boa lição para Chii. ─Hihihi! Agora vamos ver quem mete medo em quem.
Então Chii ficou ali, sozinha, com a estátua-Shiro na entrada da caverna.
─Droga! ─ela esbravejou, chutando a grama.
A floresta era densa, mas fácil de transitar. Taty procurava alguma fruta que pudesse comer, mas tudo o que encontrava eram cogumelos que ela imaginava serem venenosos. Não encontrava animais, exceto alguns pássaros que voavam rapidamente quando ela se aproximava e um ou outro esquilo, mas esses ela se recusava a comer. Eram bonitinhos demais.
─Se continuar assim eu vou demorar o dia todo até achar alguma coisa. ─ela disse, desanimada, mas então teve uma idéia. Sua Essência raiou um instante e de repente outras três Taty apareceram. ─Agora sim! Vamos à caça!
Chii achou flores em meio às árvores perto da caverna e fizera um buquê muito lindo com várias delas.
─Agora está bonito, senhor! ─ela disse para Shiro.
Ela colocara a capa ao redor dele. Na mão esquerda que estava pendendo ela deu um jeito de fixar o buquê de flores. Depois, com mais flores nos braços, ela o rodeou jogando-as perto dele no chão e pavimentando um caminho que ia dele em direção da floresta. Voltou andando por esse caminho fingindo-se de distraída e quando ficou de frente para ele levou ambas as mãos ao rosto, surpresa:
─Oh! Meu Deus! ─ela se abaixou com uma reverência, erguendo um pouco o vestido. ─Quanta gentileza, senhor! ─ela pegou o buquê da mão inerte e congelada dele e voltou o olhar para ele com ternura. ─Não precisava... ─ela de repente ficou alerta e disse, em tom confidente: ─O que?! O senhor quer pedir a minha mão? ─ficou tímida, até ruborizada ela conseguiu ficar. ─Minha nossa! Que acontecimento! Mas devo lhe avisar! Eu tenho uma Guardiã muito brava! Ela não deixará que o senhor se aproxime de mim assim se souber de suas intenções! ─e então, caiu na risada, feito uma menina. ─Oh, senhor! Como assim vai apresentar um amigo a ela? Acha mesmo que assim ela se esquecerá de mim e me abandonará? ─ficou esperando uma resposta, mas ai a brincadeira havia acabado. Disse já sem entusiasmo, jogando o buquê no chão: ─A Taty nunca... me deixará sozinha.
Sentou-se na grama sentindo um peso no estômago. Era tristeza, ela sabia, mas nem por isso se deixaria chorar. Era vergonhoso demais chorar agora. De novo.
─Eu vou conseguir! ─ela disse a si mesma. ─Eu juro mamãe! Eu vou conseguir! Eu vou lutar!
Taty e seus clones capturaram um coelho, mas ela o libertou. Também era bonitinho demais. Acabou desistindo de pegar qualquer animal que fosse e só coletou cogumelos, confiando que não seriam venenosos.
─Se aquele coelho tinha esses cogumelos azuis na toca dele, então não deve ter problema comê-los! ─ela se voltou para as clones e elas se dissolveram. ─Agora é hora de voltar! A Chii deve estar faminta! Vamos preparar esses cogumelos de algum jeito e comer pra matar essa fome. ─o estômago dela resmungou feito uma fera, assustando um esquilo que descia o tronco de uma árvore para cheirá-la. ─E depois, vamos pensar no que fazer.
E o bom coelho de sorte que ela não quis comer voltou a sua toca, onde tinha restos de cogumelos azuis. Se ela tivesse observado mais atentamente, teria visto que eles eram, na verdade, de um tom diferente dos cogumelos que ela agora carregava. O coelho comeu e saiu de sua toca mais uma vez. Para o azar dele, a lança que o atingiu não era de alguém que evitava comer animais bonitinhos.

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