E ela desabrochou
Como a mais linda das rosas
Os Griffon possuem um estilo de vida bem “natural”, como eu já contei antes. Eles vivem em meio à natureza, sem ameaçá-la ou destruí-la. Suas moradias são feitas em meio aos galhos de árvores frondosas e imensas, junto de cavernas e vales e morros que eles esculpem de acordo com sua necessidade, mas sem alterar a paisagem drasticamente, como o povo em Amarante ou Hagane fazem constantemente.
A Rainha Alice Raio-de-Sol levou Taty, Shiro e a desacordada Chii para a Toca.
Esse é o nome das moradas que os Griffon fazem em meio às raízes imensas de algumas das árvores mais antigas da floresta que se elevam acima do solo por alguma razão qualquer. Olhando de fora, a entrada se assemelha bastante a entrada de qualquer forte ou castelo, com pilares que se erguem do chão aos céus, exceto pelo fato de que na verdade são raízes e galhos imensos que se fincam na terra e de alguma ou outra forma se erguem dela novamente.
Passando por essa entrada fantástica, vem o interior da morada, ou Toca, como já disse, e lá é que vemos a verdadeira comunhão entre os Griffon e a natureza. O que se chama de teto é bem alto, alcançando quase que cinco ou seis metros. O chão é pura grama, curta e aparada, mas macia como um tapete. As paredes são a própria madeira da árvore, claro, e o interior, que deveria ser escuro e frio e um tanto úmido também, se apresenta iluminado, morno e confortável de modo a até mesmo uma princesa como Chii se acostumar facilmente ao ambiente.
A Toca é uma morada coletiva onde muitas famílias passam a noite. Espalhados pela extensão dos olhos nossos estão muitos cobertores tecidos pelas mais velhas Griffon com uma arte própria do povo que se utiliza de agulhas e fios de lã. Também há travesseiros cheios com penas, mas não pense que são penas de Grifos! Isso seria um pecado imperdoável e uma falta de respeito inaceitável para com esses seres e com o próprio povo Griffon!
Taty deslumbrou-se com aquele lugar. Mesmo com toda aquela simplicidade (sim, pois ela estava acostumada era aos luxos de um palácio real, como o castelo dos Hollerbach) ela ainda perdeu alguns minutos, boquiaberta, sem palavras para expressar sua surpresa e admiração.
─Como... como isso é possível? ─ela questionou. Esperava que o interior da Toca fosse escuro e frio, mas o calor e a claridade do lugar a surpreenderam.
─Essência ─Alice Raio-de-Sol disse. ─Os Griffon, durante o Êxodo, acolheram nosso povo, ou pelo menos a parte do povo que conseguiram salvar, e desde então temos vivido juntos. Nada mais justo que as Fee fazerem algo por eles também.
─Verdade! ─Shiro disse, de repente. ─A senhora é uma Fee! Mas... eu não vi nenhuma outra aqui...
Alice Raio-de-Sol não respondeu de imediato. Ajudou Taty a colocar Chii deitada sobre um cobertor grosso de lã escura e depois cobriu a menina com outra coberta, essa de lã mais clara. Respondeu a ele:
─Eu sou a última Fee aqui, com os Griffon. Existem outras poucas espalhadas por Disturbed, mas aqui, nas florestas do norte, resto apenas eu. O nosso povo preferiu escapar desse mundo enquanto ainda tinha tempo.
Tanto a Guardiã quanto o Sentinela sabiam do Êxodo. As Fee abandonaram Disturbed aos poucos depois que Julien Hollerbach casara-se com o Rei Vermelho, que logo depois se tornou o Imperador Vermelho e promoveu a Grande Guerra se aproveitando do poder da Torre do Cego e da Essência da terra de Licht. Quando a guerra de fato estourou e os exércitos começaram a avançar contra os reinos vizinhos, conquistando cada vez mais poder, as Fee resolveram fugir para algum outro lugar e levando consigo parte da Essência de Licht. As poucas Fadas que permaneceram em Disturbed se esconderam em lugares isolados e praticamente nunca mais foram vistas, tornando-se meras lendas de tavernas.
Entraram mulheres na Toca trazendo comida para eles. As tigelas de cerâmica moldadas à mão pelos Griffon continham carne de cervo, peixes e molhos escuros de cheiro agradável. Tinha também folhas de todos os tipos das lavouras cultivadas do lado onde o sol batia mais forte naquelas florestas. Elas traziam jarras também cheias com vinho e água do riacho que corria ali por perto, além de outro produto que eles cultivavam de acordo com as instruções das Fee de épocas passadas.
─Vamos, comam e bebam ─Alice Raio-de-Sol disse, levantando-se e saindo da Toca. ─Descansem pelo tempo que precisarem. Nós nos falamos mais tarde, tudo bem?
─Agradecemos. ─Taty disse, balançando a cabeça.
─Muito obrigado, Rainha. ─Shiro disse, curvando a cabeça.
─É o mínimo que podemos fazer meus caros. ─ela disse, já de fora da Toca.
─Essa menina e vocês dois passaram o inferno a noite passada, eu sei. Não sei exatamente como foi, mas eu sei. Merecem o descanso que lhes oferto.
E assim, ela saiu, deixando-os com sua comida e bebida servidas de forma farta. Enquanto comiam, os dois conversavam baixinho.
─Não gostei daquele rei. ─Shiro disse, com um pedaço de carne de cervo entre os dentes e assim como Milla Fong se referia a Julien sem o menor respeito, ele o fazia por Kram Helds, por isso o “rei” com letra minúscula. ─Ele me causou uma impressão muito ruim.
─Eu também penso assim ─Taty concordou. Ela mastigava as folhas de sabor doce que jamais havia comido antes. ─Ele exala uma aura ruim. Ele demonstrou desejou especial pela Espada de Cristal. Tome cuidado, está certo?
Shiro sorriu para ela, concordando com a cabeça.
─Eu acho impressionante o modo como eles vivem aqui. ─ele disse, mudando de assunto. ─É tudo tão...
─Bonito e natural! ─ela completou e ele balançou a cabeça, concordando.
─Exceto por aquele rei. Ele destoa de alguma forma de todo o próprio povo.
─Mas a Rainha é ótima! Ele não só é generosa como também muito linda!
─Eu só vi uma Fee diante de mim a minha vida toda. A Rainha Julien, sabe? Mas agora, ao ver a Alice tão de perto, fiquei...
─Deslumbrada! ─ele disse, desta vez completando a frase dela. Os dois riram.
─Aceita vinho senhorita Yue?
Ela enrubesceu imediatamente.
─Eu... nunca bebi isso antes.
─Bem, sempre há uma primeira vez, certo? ─ele disse, sorridente, estendendo a jarra para ela. ─Vamos senhorita Yue, só um gole. Vai gostar!
E ela tomou da jarra e bebeu um gole pequeno. O sabor do vinho inundou-lhe a mente e era simplesmente a coisa mais doce e saborosa que ela já provara.
─Maravilhoso! ─ela exclamou. ─Nunca bebi nada tão...
─Saboroso?
─Bem, eu ia dizer sublime! ─ela falou sem jeito, e os dois caíram na risada.
Sem querer delongar esse assunto, devo dizer que Taty e Shiro exageraram um bocado com esse vinho. Por mais que eles bebessem, a jarra não ficava vazia. Na verdade, se eles não estivessem ficando alterados demais, perceberiam que a quantidade de vinho na jarra não mudava, permanecendo sempre a mesma, gole após gole.
Isso acontece não por alguma mágica das Fee, mas sim pela simples e gloriosa habilidade dos Griffon de fabricarem aquelas jarras. A história sobre essa habilidade não importa. O importante é saberem todos que, não importa o quanto alguém beba de uma jarra dos Griffon, o conteúdo jamais secará.
Jamais!
E assim, os dois se embebedaram e acabaram caindo no sono, como é típico de quem ingere vinho demais em tão pouco tempo. Acordariam mais tarde, quando o sol já tivesse se posto e Alice já tivesse tido seu confronto com o Rei Kram Helds, mas nenhum deles saberia disso.
E também, acordariam muito depois que Chii despertasse.
Maldito, continua logo essa história! Muito boa cara.
ResponderExcluirRafael da facul.